UOL Notícias Internacional
 

26/02/2005

Papa respira normalmente, alimenta-se e escreve

The New York Times
Ian Fisher

No Vaticano
O papa João Paulo 2º parece estar se recuperando bem de uma traqueostomia, anunciou o Vaticano nesta sexta-feira (25/02), afirmando que no momento o pontífice é incapaz de falar, mas que está respirando sem ajuda de aparelhos e até comendo: o seu café da manhã no dia seguinte à cirurgia consistiu de dez biscoitinhos, iogurte e café com leite.

Em uma nota médica detalhada, o porta-voz do Vaticano, Joaquin Navarro-Valls, procurou acabar com o pior temor quanto à condição do debilitado papa de 84 anos: o de que a operação realizada na noite da última quinta-feira o tivesse deixado incapaz de se comunicar ou de respirar por conta própria. Tal situação poderia gerar difíceis, e possivelmente imediatas, dúvidas quanto à capacidade do papa de desempenhar as suas funções.

Mas Navarro-Valls, que é médico, negou as notícias veiculadas pela mídia italiana, segundo as quais o papa estaria usando um respirador artificial. Ele disse também que a traqueostomia foi um procedimento escolhido com certo cálculo, não tendo sido realizada de forma emergencial.

"Ele agora respira melhor, sente um alívio notável e não necessita de ajuda para respirar", disse o porta-voz aos repórteres.

Ele disse também que João Paulo 2º está se comunicando por meio de escrita feita em um caderno que fica à beira da cama, um detalhe que pareceu ter como objetivo indicar que o papa está lúcido e que é capaz de realizar as suas atividades eclesiásticas.

"Ele disse, com surpresa, 'O que eles fizeram comigo?'", disse Navarro-Valls, referindo-se à traqueostomia. "E, a seguir, acrescentou, 'Mas estou sempre totus tuus', em alusão a uma prece a Nossa Senhora, significando, 'Eu estou totalmente em tuas mãos'".

As duas palavras latinas têm um profundo significado para o papa: elas são o seu lema oficial, estando inscritas no seu brasão de armas, expressando a sua devoção pela Virgem Maria, a mãe de Jesus Cristo, a quem dedicou os seus 26 anos de papado. Ele disse que Maria interveio para salvá-lo de uma tentativa de assassinato em 1981.

Apesar da avaliação relativamente otimista, especialistas dizem que o estado do papa continua muito grave e que aparentemente ele chegou no patamar mais baixo destes últimos anos de enfermidade e declínio físico.

Na manhã da quinta-feira, ele foi levado às pressas de ambulância ao complexo do Hospital Gemelli, em Roma, com gripe, febre e espasmos da laringe que provocaram sérias dificuldades respiratórias. Autoridades do Vaticano afirmaram que esse foi um agravamento da enfermidade que o obrigou a sofrer uma outra hospitalização, que durou nove dias, em 1º de fevereiro.

Especialistas dizem que a traqueostomia implica uma nova série de riscos para João Paulo 2º, que sofre há anos do Mal de Parkinson, uma progressiva deterioração neurológica que afeta o controle sobre os músculos e freqüentemente atrapalha a respiração e a deglutição. Ainda segundo os especialistas, aumentou o risco de infecções como a pneumonia.

Navarro-Valls disse na sexta-feira que o papa não apresentava infecção nos pulmões.

Capacidade de liderar

Embora a saúde de João Paulo 2º seja frágil há anos, o questionamento da sua capacidade para liderar a Igreja tem sido um tabu, e ele continua ocupado com a sua programação de audiências públicas e visitas, embora sem o vigor dos seus primeiros e vigorosos anos de papado, que incluíram 104 viagens ao exterior.

Mas essa segunda hospitalização recente está forçando autoridades do Vaticano e católicos de todo o mundo a se prepararem para aquilo que pode ser um papado bastante modificado.

Ninguém disse quanto tempo ele ficará hospitalizado e, no momento, um papa que é definido pela sua capacidade de se comunicar foi aconselhado pelos seus médicos a não falar. Navarro-Valls disse, no entanto, que espera que João Paulo 2º possa voltar a falar daqui a alguns dias.

O desmentido feito por Navarro-Valls de que o papa estivesse usando um respirador artificial pareceu aliviar o temor com relação à possibilidade de que o João Paulo 2º fique permanentemente inválido. Mas vários especialistas dizem ser possível que essa nova doença --ou o agravamento da sua condição-- intensifique as dúvidas sobre a forma como a Igreja é administrada e a possibilidade de ele renunciar.

"Isso não é algo com o que anteriormente tenhamos nos deparado muito", diz o reverendo Thomas J. Reese, jesuíta e editor da revista católica "America", publicada em Nova York.

"A medicina atual é capaz de nos manter vivos por muito tempo depois de a mente e o corpo terem deixado de desempenhar as suas funções", acrescentou. "Creio que precisaremos encarar o fato de que em algum momento neste século haverá um papa que renunciará por não poder desempenhar as suas funções, ainda que os médicos afirmem que ele viverá por mais cinco anos".

Embora a lei da Igreja permita a renúncia, isso só aconteceu raramente, e João Paulo 2º disse várias vezes que jamais pensaria em renunciar. Especialistas em lei eclesiástica dizem, no entanto, que não há regras regulando a sucessão papal caso um papa entre em coma, por exemplo, ou fique tão incapacitado que não possa renunciar voluntariamente.

É provável ainda que essa hospitalização renove as dúvidas quanto à tarefa cotidiana da Igreja Católica, e faça com que se pondere até que ponto tal tarefa ficará prejudicada.

O papa nunca foi visto como um administrador direto, e vários especialistas no Vaticano dizem que grande parte das operações da Igreja, nos últimos anos, esteve delegada a poucos assessores: o arcebispo Stanislaw Dziwisz, secretário pessoal do papa e um amigo íntimo, da sua nativa Polônia; o cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano e o segundo na hierarquia da Igreja; o cardeal Joseph Ratzinger, uma voz conservadora responsável pelas questões doutrinárias; e o cardeal Giovanni Battista Re, que supervisiona os bispos de todo o mundo.

Também freqüentemente incluído na lista está o arcebispo Leonardo Sandri, vice de Sodano, e encarregado de supervisionar a burocracia do Vaticano. Sandri também lê freqüentemente as mensagens do papa, quando este é incapaz de fazê-lo.

Alguns críticos dizem que a doença do papa tem privado lentamente a Igreja de uma voz forte para uni-la internamente e mediar as disputas domésticas do Vaticano. Outros argumentam que, tendo em vista o tamanho da Igreja Católica, o papel mais importante do papa é espiritual --e que os detalhes essenciais para os fiéis nas suas igrejas locais pelo mundo seriam pouco afetados, não importando o quanto o papa esteja doente.

"A Igreja Católica é talvez a mais centralizada instituição do mundo", diz o reverendo Thomas Williams, reitor de teologia da Academia Pontifícia Regina Apostolorum, em Roma. "Há 1,1 bilhão de católicos no mundo e 2.600 funcionários no Vaticano. Seria algo comparável a administrar o governo federal dos Estados Unidos com 500 pessoas. Isso não seria possível".

Navarro-Valls anunciou que a condição do papa é suficientemente estável para que não se planeje divulgar um outro boletim sobre a sua condição de saúde até a segunda-feira. Leis eclesiásticas não definem a sucessão, caso a saúde dele piore Danilo Fonseca

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