UOL Notícias Internacional
 

28/02/2005

Serão as mulheres responsáveis por seus baixos salários?

The New York Times
Claudia H. Deutsch
Você acha que o reitor de Harvard, Dr. Lawrence H. Summers, mexeu num ninho de vespas ao sugerir que o cérebro da mulher não era geneticamente constituído para matemática e ciências? Espere até ouvir o que diz Dr. Warren Farrell sobre os salários das mulheres.

Certo, Farrell admite que as mulheres, como grupo, ganham menos que os homens. Ele acha que usar estatísticas salariais para provar a discriminação sexual é o mesmo que usar o horizonte para provar que o mundo é plano.

As mulheres, segundo ele, criam metodicamente seu salário reduzido. Elas escolhem empregos que as satisfazem psicologicamente, como bibliotecária ou historiadora, que atraem tantos interessados que a lei de oferta e procura deprime o salário. Elas evitam trabalhos bem pagos, porém aparentemente arriscados -por isso poucas mulheres pilotam aviões. E elas tendem a trabalhar menos horas do que os homens- o que não é uma questão menor, diz ele, já que as pessoas que trabalham 44 horas por semana ganham quase o dobro do que as que trabalham 34 horas e têm maior chance de serem promovidas.

De fato, Farrell cita subgrupos -professores universitários solteiros, empregados que trabalham meio período- nos quais as mulheres têm média salarial maior do que seus colegas do sexo masculino.

"Avaliando-se essas coisas, as mulheres ganham tanto quanto os homens, ou mais", disse Farrell , 61, cujo novo livro sobre os mitos da disparidade salarial chegou às lojas em janeiro ("Why Men Earn More: The Startling Truth Behind the Pay Gap - and What Women Can Do About It", ou "Porque os homens ganham mais: a verdade impressionante por traz da diferença salarial e o que as mulheres podem fazer a respeito", Amacom). "Vamos ser francos: os homens fazem muitas coisas no trabalho que as mulheres simplesmente não fazem."

Pronto para chamá-lo de machista? Espere, tem mais. Farrell acha supérfluo todo o debate em torno das habilidades específicas ligadas ao sexo. "Os homens podem ser mais preparados para matemática e as mulheres para oratória, mas e daí?" perguntou. A habilidade humana de se adaptar às circunstâncias e às limitações é igual entre os dois sexos, e o fascínio com um determinado assunto pode facilmente superar as habilidades natas, disse ele.

São coisas bastante subversivas. Farrell -que fez doutorado em ciências políticas, mas, segundo ele, anda e fala como psicólogo- está acostumado a menosprezar a convenções. No início dos anos 70, quando a igualdade para as mulheres ainda era novidade, ele participou do conselho de Nova York da Organização Nacional das Mulheres. Em 2003, em San Diego, concorreu à nomeação para o cargo de governador da Califórnia pelo partido Democrata, promovendo leis que forçassem os tribunais a darem aos pais divorciados o mesmo tempo que as mães com os filhos. Ele tem um negócio lucrativo como especialista em casos de custódia e assessoria para questões de paternidade. (Não tem filhos, mas foi padrasto de vários.)

Recentemente, esteve em Manhattan para divulgar um livro, almoçou com a repórter e elaborou sua tese de que as mulheres devem parar de usar "o poder da vítima" e começar a usar seu verdadeiro poder de ganhar, como disse.

"Empresas como IBM oferecem bolsas às mulheres para estudarem engenharia há anos. As engenheiras ganham mais que os homens", disse ele, observando ainda que sua atual mulher e a ex, ambas executivas, fazem mais dinheiro que ele.

Mesmo quando era criança, Warren Farrell tinha pouca paciência com os papéis atribuídos aos sexos pela sociedade. Sua família era convencional: uma casa suburbana em Nova Jersey, três filhos (ele era o mais velho) um pai contador que era definitivamente o chefe de família.

Mas o jovem Warren recusou-se a seguir a opinião das pessoas sobre um comportamento correto para um menino. Na sétima série participou -e ganhou- de um concurso de beleza para meninos. "Fui eleito príncipe da sala", lembra-se rindo orgulhoso. Na oitava série, foi rotulado de gênio da matemática, mas achava o assunto monótono. Apesar de ser alto e atlético, detestava lutar então, é claro, atraia as provocações dos valentões da escola. Finalmente, brigou com um deles. Venceu e ganhou seu respeito.

"Fiquei triste -vencer uma luta é uma razão estúpida para respeitar uma pessoa", disse ele.

Farrell sempre suspeitou que as mulheres tendiam a se boicotar. Certo dia, quando era professor de política urbana na Rutgers, ele participou de uma convenção na qual uma participante, uma jovem e atraente mulher, queria se expressar, mas teve pânico de se expor. "Estimulei-a a falar e, quando ela o fez, arrasou", disse ele. Ela e Farrell logo se casaram e, depois que se tornou uma executiva famosa, sua mulher ofereceu de pagar as contas enquanto ele fazia doutorado em ciências políticas na Universidade de Nova York. (Ele pediu que seu nome não fosse publicado para proteger sua privacidade). Ele fez sua dissertação sobre o movimento feminista.

"A renda da minha mulher permitiu-me que fizesse o que realmente eu gostava", disse ele. "Compreendi que a liberação da mulher também é a liberação do homem."

Depois que se divorciaram -continuam amigos- Farrell mudou-se para San Diego, onde vive até hoje. Dez anos atrás ele conheceu e se casou com Liz Dowling, empresária californiana que tem duas filhas -Alex, 17 e Erin, 18. Apesar de ter escrito extensivamente sobre questões como abuso sexual e paternidade, ele diz que não vêm de experiências pessoais. "Sempre fui motivado a impedir as pessoas a agirem de forma disfuncional".

Tudo isso serviu de boa introdução aos seus pensamentos sobre como a mulher pode impedir a auto-sabotagem que tantas vezes reduz seus salários. Felizmente seus conselhos não envolvem trabalhar a linguagem corporal, atitude, roupa e comunicação; as mulheres já são melhores em todos esses quesitos que os homens, disse ele. Mas fez outras observações:

- Pode haver bons empregos em campos que você acha que odeia. Então você não leva jeito para reparos na casa? "Uma mulher com capacidade de organização pode dirigir uma empresa de construção sem jamais ter pregado um prego", disse Farrell. Você gosta de medicina, mas não suporta sangue? "Farmacêuticos às vezes ganham tanto quanto médicos", disse ele, e podem ter maior controle sobre suas vidas.

- Empregos perigosos para homens podem ser seguros para mulheres. Mulheres no exército raramente são enviadas para a frente de batalha, disse Farrell. Estudos mostraram que as mulheres motoristas de táxi em geral trabalham de dia; as funcionárias dos correios recebem rotas mais seguras e os mineiros tentam manter suas colegas mulheres longe do perigo. "Quando as mulheres precisam de proteção, os homens competem entre si para dá-la", disse ele.

- Muitos empregos pagam mais às mulheres que os homens. Alguns deles, como executivo de propaganda, fonoaudiólogo ou estatístico -estão em campos que há muito recebem mulheres. Muitos, porém, são empregos que as mulheres erroneamente acreditam estarem fechados para elas, como serviços funerários, mecânica, terapeuta de radiação e engenheira de vendas. O Escritório de Estatísticas do Trabalho fornece comparações salariais para muitas categorias.

- Um pouco de treinamento extra pode dar muito dinheiro. Você tem facilidade com números? "Analistas financeiros fazem muito mais dinheiro que contadores", disse Farrell. Da mesma forma, uma anestesista faz o dobro que uma enfermeira regular.

- Empregos de "linha" são melhores que os administrativos. Os homens há muito compreenderam que empregos de manufatura e vendas -no jargão, trabalhos na linha- são melhores para a carreira do que empregos de apoio ao staff, em recursos humanos ou relações públicas. "Os diretores executivos são selecionados entre os que assumem responsabilidades de produção dentro da companhia", disse ele, "Então esses campos pavimentam o caminho para mulheres que querem romper os chamados telhados de vidro."

- Não há problema trocar um rendimento maior para ter mais tempo com as crianças e os hobbies. Reconheça que a sociedade não forçou essa escolha sobre você. "Sinta-se poderosa e feliz por ter controle sobre sua vida", disse Farrell. "É melhor do que se sentir uma vítima revoltada da discriminação." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host