UOL Notícias Internacional
 

28/02/2005

Sucesso traz surpresa ao PT: confusão interna

The New York Times
Larry Rohter

No Rio de Janeiro
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    Este deveria ser um momento de grande satisfação para o Partido dos Trabalhadores. Enquanto líderes e seguidores fiéis do partido comemoram seu 25º aniversário, a sigla está firmemente no poder com a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em altos níveis, o número de afiliados aumentando, as finanças reforçadas e sua imagem no exterior reluzente.

    Mas, no Brasil, o PT, maior partido de esquerda da América Latina, está marcando a data com o que a mídia brasileira descreve como uma "crise existencial". Defensores e críticos estão igualmente questionando os princípios, as políticas, os métodos e a estrutura do partido, juntamente com a mais humilhante derrota política -na votação para presidente da Câmara- que o partido já sofreu desde que Lula assumiu o cargo, em janeiro de 2003.

    O problema fundamental do partido, como disseram repetidamente políticos e acadêmicos, é que mesmo depois de dois anos no poder ele parece incapaz de decidir se quer ser um partido no governo, um partido de oposição ou as duas coisas ao mesmo tempo. O partido parece assumir cada uma dessas posições em momentos diferentes, e algumas das críticas mais sérias a Lula vêm de suas próprias fileiras, criando uma aparência de confusão e indecisão.

    "É verdade que temos um problema com nossa vocação para ser governo", disse em entrevista Jorge Viana, um dos três únicos governadores do PT e aliado íntimo de Lula. "Exercemos o papel de oposição muito bem, mas agora que conquistamos o poder não estamos mostrando a mesma unidade de ação."

    As pessoas de fora tendem a considerar o problema uma questão ideológica. Elas vêem uma divisão entre pessoas como Lula e o círculo a seu redor -que tiveram de aprender a enfrentar as realidades do poder- e outras facções mais tradicionais, fiéis a um programa marxista-leninista ao qual o presidente e seus aliados renunciaram na prática.

    "Existe uma esquizofrenia não resolvida entre as tendências reformistas e revolucionárias dentro do partido", disse Denis Rosenfield, professor de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor do livro "O Partido dos Trabalhadores na Encruzilhada". "O problema é que ambos são o verdadeiro PT, então vemos o incentivo às invasões de fazendas por agricultores e ao mesmo tempo representantes do agronegócio sendo indicados para o gabinete."

    O sociólogo Francisco de Oliveira, que foi um dos fundadores do partido mas hoje é seu crítico, acusa Lula de abandonar os princípios básicos do PT, especialmente em questões econômicas, em sua ânsia de conquistar o poder depois de perder três disputas para a presidência. O Brasil "ainda está esperando o primeiro ano do governo do PT", afirma Oliveira, porque o governo Lula é apenas a continuação dos que o antecederam.

    Oliveira e outros analistas de esquerda culpam o que eles consideram um pragmatismo excessivo pelas derrotas do partido nas eleições municipais de outubro passado. Nelas, o partido conseguiu postos em cidades de tamanho médio do interior, onde sempre foi fraco, mas foi derrotado em dois de seus enclaves urbanos tradicionais, São Paulo e Porto Alegre.

    "O partido perdeu sua aura transformadora, e isso vai pesar muito em 2006", quando ocorrerão as próximas eleições presidenciais, prevê Oliveira. "Lula vai descobrir que ganhar um segundo mandato não é tão fácil quanto ele pensa."

    Em outubro, os eleitores de Fortaleza, com 2 milhões de habitantes, viram o estranho espetáculo de a equipe de Lula apoiar o candidato do Partido Comunista, em vez de o indicado pelo PT. Mas a candidata desobediente do PT, Luzianne Lins, ganhou com folga e tornou-se um símbolo da resistência ao estilo administrativo da liderança, considerado de cima para baixo, imperioso.

    Em uma aparição no Fórum Social Mundial em Porto Alegre no mês passado, Lula foi bem recebido pelos delegados estrangeiros, mas vaiado por alguns membros de seu próprio partido. Ele comparou os dissidentes aos filhos pródigos que um dia voltarão ao partido e serão recebidos de braços abertos, depois de reconhecer os erros de seu procedimento.

    Mas, num esforço para impor mais disciplina, líderes do PT expulsaram um punhado de senadores e deputados em dezembro de 2003, alguns dos quais ajudaram a fundar um novo partido, o Partido Socialismo e Liberdade. Essa medida, porém, só provocou acusações de autoritarismo ou "centralismo democrático sem socialismo", como disseram alguns críticos, e ao que parece não conteve a rebeldia interna.

    Neste mês, por exemplo, dois candidatos do PT concorreram à presidência da Câmara dos Deputados. Um deles, impopular junto à base, foi escolhido por líderes do partido, enquanto o outro desafiou repetidas advertências de que seria punido se não retirasse sua candidatura e apoiasse o favorito de Lula.

    Embora o PT tenha a maior bancada, ambos os candidatos acabaram perdendo, e o vencedor, Severino Cavalcanti, é de um pequeno partido de direita. Sua vitória de surpresa em fevereiro foi amplamente interpretada como uma forte crítica dos pequenos partidos aliados do governo que estão revoltados com o que consideram arrogância e desprezo no tratamento que recebem do PT.

    "Eu perdi, mas a derrota é do governo", disse Luiz Eduardo Greenhalgh, que era a opção do partido. Sem sentido, replicou Lula, ainda irritado com a votação. "O governo não concorreu ao cargo, foi o partido", ele disse.

    Mais fogos de artifício podem ser esperados para o próximo mês, quando o PT se reunirá em assembléia e realizará uma série de discussões para comemorar seu 25º aniversário. O mais próximo assessor de Lula, José Dirceu, foi citado como chamando os eventos de "nitroglicerina pura", por causa das oportunidades que oferece para os descontentes do partido criticarem a liderança e explorarem as contradições internas que continuam sem solução.

    Em outro nível, o PT pode ter-se tornado vítima de seu próprio sucesso. Nos anos 80 era realmente um partido de trabalhadores, intimamente ligado aos sindicatos de São Paulo, e mais tarde também se tornou a voz dos funcionários públicos descontentes. Mas, com seu recente crescimento, essa base social mudou, e com ela o caráter do partido e seu estilo político.

    "Existe até uma ala de empresários, e isso é uma fonte de queixas dos velhos militantes, com os quais sempre se pôde contar para ir às ruas em cruzadas políticas", disse Alexandre Barros, um consultor político em Brasília. "O novo membro do partido é um cidadão comum de classe média, que vota e fala positivamente sobre o partido, mas não se envolve em política de massa."

    Mas Viana disse que esses problemas são um subproduto do sucesso e não devem ser interpretados como evidência de falta de objetivo ou direção. "Não é o partido que está em crise de identidade; são apenas algumas pessoas do partido que têm esse problema", ele disse. Partido faz 25 anos com o que a mídia chama de "crise existencial" Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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