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01/03/2005

Oscar 2005 foi uma cerimônia estacionada no passado com apego às velhas glórias

The New York Times
Caryn James

Crítica de cinema
Quando Chris Rock entrou no palco para apresentar a cerimônia dos prêmios da Academia na noite deste domingo (27/02), foi aplaudido pelo simples fato de estar lá --um sinal encorajador de que a platéia, tão fortemente ligada ao sistema, estava a fim de um show mais inovador e irreverente, com um certo frescor sintonizado com o futuro. Essa ilusão durou menos de cinco minutos.

Monica Almeida/The New York Times

O ator Chris Rock, que apresentou a cerimônia
Todos aqueles eleitores do Oscar na platéia não acharam graça quando Rock começou a pegar no pé do pessoal da indústria cinematográfica, assim como ele já havia feito no começo da cerimônia, quando chamou Jude Law de astro de segunda categoria.

Antes do final da noite, Sean Penn devolvia a piada com um comentário pomposo de que Law "é um de nossos melhores atores". Foi um momento de auto-importância e sem humor, antes de anunciar Hilary Swank, num resultado totalmente previsível, como melhor atriz por "Menina de Ouro".

O combate entre Rock e Penn e também o mini-arrastão final de prêmios principais para a "Menina" criaram o flagrante perfeito sobre o dilema que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas enfrenta --a instituição sabe que deve avançar em direção ao século 21, mas simplesmente odeia essa idéia.

A simples presença de Chris Rock sugere que o pessoal do Oscar sabe que precisam dar uma sacudida geral, nem que seja para competir com a longa parada de cerimônias de prêmios televisionados que agora precedem os Oscars e que sugam uma boa parte da distinção e do glamour dos prêmios da Academia.

A resposta morna, até para mais leves irreverências do apresentador, e a afeição à essa "Menina de Ouro" tão feita à moda antiga enviam uma mensagem poderosa --a Academia prefere se manter entrincheirada no passado, apegada às suas glórias passadas.

Essa atitude também ajuda a explicar por que o show desse ano foi ainda mais monótono que o normal. Chris Rock, provavelmente o melhor comediante americano, não é bobo. Ele sabe mais do que simplesmente tentar transformar os Oscars no Chris Rock Show.

As poucas tentativas que ele fez para dar seu toque pessoal não surtiram efeito, como ficou bem evidente num quadro pré-gravado, em que ele entrevistou espectadores negros que adoraram a comédia idiota dos irmãos Wayans, "As Branquelas", mas que não viram indicados a melhor filme como "O Aviador" ou "Em Busca da Terra do Nunca".

Esse quadro, ao sugerir que os Oscars estão fora de sintonia com uma ampla faixa de espectadores, tocou no que provavelmente é o maior temor da Academia, e atingiu a platéia do Kodak Theatre como uma pancada silenciosa.

Já que Rock apresentou poucas falas improvisadas, os melhores momentos dele vieram quando exibiu a cara-de-pau irônica e impassível, como ao apresentar "o superstar da comédia Jeremy Irons". Mas não é necessário chamar Chris Rock para fazer esse tipo de humor.

Ele logo foi ficando engessado e prisioneiro do formato mortífero, que leva os Oscars a sério demais, para o bem deles, e que já sabotou apresentadores promissores como David Letterman e Steve Martin. Por que alguém esperaria algo de diferente, quando o produtor do programa, Gil Cates, já havia desenvolvido esse velho show moribundo umas 11 vezes antes do domingo?

A simples idéia de ter Gil Cates e Chris Rock discutindo comédia já faz lembrar um quadro do "Saturday Night Live".

Monica Almeida/The New York Times

Hillary Swank leva o prêmio de melhor atriz por "Menina de Ouro"
E com "Menina de Ouro" conquistando três dos quatro maiores prêmios (melhor filme, Clint Eastwood como melhor diretor e Hillary como melhor atriz), esses prêmios já indicam como os eleitores do Oscar ficam felizes com essa ligação com o passado.

O filme pode ser sobre uma lutadora de boxe, mas é moldado de acordo com uma sensibilidade totalmente retrô. É uma regressão não só aos filmes da era do boxe, dos anos 30, como ao estilo de outros filmes vencedores de Oscars que destacaram párias lutadores, como "Rocky".

"Menina de Ouro" é, em sua essência, "Rocky, o Lutador" com um final trágico, o típico filme familiar que a Academia abraça com facilidade. (As queixas de alguns grupos de advogados sobre o tema abordado pelo filme, o suicídio assistido, não chegaram a ter muita repercussão.) Mas no futuro o entusiasmo por um filme tão pouco original poderá parecer tão exagerado como hoje em dia encaramos o Oscar que "Rocky, o Lutador" recebeu.

O filme mais original a receber um punhado de indicações esse ano, "Sideways, Entre Umas e Outras", seguiu o caminho de outro bom filme inovador, "Encontros e Desencontros", que em 2003 também foi indicado para melhor diretor e melhor filme e que, como "Sideways", venceu apenas como melhor roteiro. A sina de "Sideways", assim como a escolha de Chris Rock como apresentador, indica que a Academia até deixa um pouco de ar fresco entrar, mas logo fecha a janela, antes que uma brisa de verdade entre para valer.

Só que os Oscars precisam mesmo, e desesperadamente, escapar dessa aura de deja vu. Depois dos Globos de Ouro, dos Broadcast Film Critics Awards (prêmios da associação de críticos), dos Screen Actors Guild Awards (prêmios da associação de atores) e outros, os telespectadores já viram Hillary Swank agradecer a Clint Eastwood e à sua treinadora de boxe mais de uma vez. Já haviam visto Jamie Foxx levar o prêmio de melhor ator por "Ray", e já haviam acompanhado suas lágrimas de gratidão à avó falecida.

Monica Almeida/The New York Times

Clint Eastwood beija sua mulher após ser aclamado pela Academia
Não só não aconteceram surpresas nas categorias principais, como também não houve nem um pouco daquela emoção contagiosa que os vencedores às vezes demonstram. Como seria possível Hillary Swank e Jamie Foxx não esperarem ganhar a estatueta? Até mesmo o obrigatório esguicho de lágrimas pelo rosto parecia mais ser o cumprimento de uma profecia --ou talvez um alívio-- do que propriamente uma genuína expressão de emoção.

O momento mais inesperado na recepção de um prêmio aconteceu quando Eastwood, de 74 anos, agradeceu à mãe de 96 anos, que estava lá, sentada na platéia. Como Clint disse ao aceitar o prêmio de melhor diretor, ele viu Sidney Lumet, que tem 80, receber o prêmio especial de reconhecimento à carreira e subitamente percebeu que é "apenas um garoto".

Eastwood estava tão charmoso como sempre, e parece estar assim tão vivo em termos criativos, o que é ótimo para ele. Mas nesse mundo dos Oscars, onde se olha tanto para trás, a idéia de um garoto ter 74 anos está terrivelmente próxima da realidade. E essa é a piada que deveria ter enervado a platéia do Kodak Theatre. Fato de grande vencedor ser um "menino de 74 anos" é sintomático Marcelo Godoy

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