UOL Notícias Internacional
 

01/03/2005

Uruguai se volta à esquerda com novo presidente

The New York Times
Larry Rohter

Em Montevidéu, Uruguai
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    Quando der posse ao seu novo presidente nesta terça-feira (1/3), o minúsculo Uruguai fará uma clara ruptura com seu passado. Depois de 150 anos em que dois partidos moderados alternaram-se no poder, os uruguaios voltaram-se decisivamente para a esquerda.

    Mas mais do que isso, o momento carrega grande simbolismo para a região. A mudança no Uruguai, com uma população de menos de 4 milhões de habitantes, consolida o que se tornou o novo consenso de esquerda na América do Sul. Três quartos da região de 355 milhões de habitantes hoje são governados por líderes de esquerda, todos surgidos nos últimos seis anos para redefinir o que a esquerda significa hoje em dia.

    Não é tanto uma maré vermelha, mas cor de rosa, em que o socialismo doutrinário é menos influente do que o pragmatismo --mudança importante no tom e na política que torna esse momento político decididamente novo.

    Do Brasil à Argentina, Equador e Venezuela, apesar de diferenças importantes de estilo e substância, esses novos líderes estão unidos em sua convicção de que as reformas de livre mercado dos anos 90 fracassaram, e se concentram na igualdade e bem-estar social, mas não ao ponto de quebrar o banco.

    Eles são simpáticos aos símbolos e retórica do passado revolucionário de esquerda, amigáveis a Fidel Castro e frequentemente anti-EUA em seu discurso, mas continuam buscando políticas econômicas favoráveis aos interesses americanos e sensíveis às percepções de Wall Street. Nenhum deles, por exemplo, pensou em nacionalizar empresas estrangeiras, como fizeram Castro e Salvador Allende.

    Os governos podem ser descritos como representando "tendências dentro de um espectro que permite várias colorações", nas palavras de Gilberto Dupas, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

    De fato, apesar de muitos dos novos líderes terem raízes na esquerda revolucionária, hoje parecem menos inspirados em Che Guevara do que em Felipe Gonzalez, socialista que foi primeiro-ministro da Espanha. Eles mostraram que estão dispostos a seguir as regras do jogo, mesmo que elas os forcem a abandonar seus amados objetivos ideológicos.

    Esse pragmatismo deixou o governo Bush menos abertamente antagonista do que teria sido no passado, com a clara exceção do presidente Hugo Chávez, na Venezuela, que é mais combativo e provocativamente populista do que a maior parte.

    Mesmo assim, em geral, a atitude em relação aos EUA tem sido caracterizada por um distanciamento educado, como aqui e nos vizinhos Brasil e Argentina. As reformas econômicas sendo rejeitadas são associadas a Washington e às instituições financeiras que patrocina --o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

    "Há um consenso crescente contra a forma como os EUA estão usando seu poder", disse Marta Lagos, diretora de uma firma de opinião pública chilena, Latinobarometro, que regularmente conduz pesquisas de opinião em torno do continente. "Há dez anos, essa era uma atitude típica da elite, mas agora, vemos isso em toda parte, independentemente da classe ou nível educacional."

    Assim, os governos passaram a buscar um caminho do meio entre o capitalismo sem rédeas dos anos 90 --o que Chávez invariavelmente chama de "neoliberalismo selvagem"-- e a dependência do Estado como principal motor de desenvolvimento.

    Aos olhos da esquerda, parece que se venderam.

    Outros vêem nisso um sinal de amadurecimento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, por exemplo, seguiu as mesmas políticas de contenção fiscal e abertura ao investimento estrangeiro que criticou como candidato, e o presidente Lucio Gutierrez, do Equador, manteve a política de seus predecessores, que adotaram o dólar como moeda nacional.

    Até a Argentina, onde o presidente Nestor Kirchner desafiou o FMI e forçou os credores estrangeiros a aceitarem enormes perdas em seus títulos da dívida, acumulou grandes superávits orçamentários.

    "Você tem que ver grande parte do que dizem como um bom uso da comunicação, com o propósito de manter sua popularidade. É um jogo de retórica interna. No entanto, quando são colocados contra a parede, têm que fazer decisões pragmáticas", disse Eduardo Gamarra, diretor do Centro da América Latina e Caribe na Universidade Internacional da Flórida em Miami.

    Agora é a vez do Uruguai. Esse pequeno país espremido entre o Brasil e a Argentina recebe no poder Tabaré Vázquez, médico de 64 anos, e a coalizão chamada Encontro Progressivo/Frente Ampla/Nova Maioria.

    O novo presidente se descreve orgulhosamente como homem da esquerda e diz que suas primeiras medidas incluirão a restauração de relações diplomáticas com Cuba e re-exame do acordo de investimento com os EUA.

    "Mudamos porque o mundo mudou. Vivemos em um mundo unipolar, no qual tentativas de socialismo fracassaram e não há mais alternativas. Temos que adotar uma linha pragmática", disse o senador Jose Mujica, proeminente ex-líder guerrilheiro que hoje preside o Congresso.

    A ascensão do médico indica a profunda mudança na região nos últimos 10 anos. No início dos anos 90, o "Consenso de Washington" -nome dado à receita promovida pelos EUA de mercado aberto, privatização e orçamento estabilizado- parecia ter dominado tudo. Os eleitores gostaram de ver a inflação, tradicional problema da região, ser rapidamente controlada.

    No entanto, na última década, o comércio livre e o maior investimento estrangeiro não conseguiram reduzir a diferença entre os ricos e os pobres, e deixaram milhões de pessoas de fora da economia, olhando para ela com ressentimento. Entre 1998 e 2003, descontada a inflação, a América Latina como um todo não cresceu nada, de acordo com os dados do FMI.

    Como resultado, em um país atrás do outro, atraíram mais eleitores os candidatos que, como Vázquez, prometem que o Estado terá um papel maior e não deixará o mercado totalmente auto-regulado.

    O argumento igualitário ressoou de forma particularmente forte aqui e na Argentina, dois países que já foram de classe média e decaíram nos últimos anos. Conhecido como a "Suíça da América do Sul", o Uruguai tinha uma estrutura de bem-estar social cujos remanescentes foram levados pelas crises dos anos 90.

    "O que todos têm em comum é que favorecem medidas para incorporar o segmento da população que vinha sendo excluído pelo mercado", disse Lagos. "Há também uma grande rejeição do FMI e do Consenso de Washington."

    A mudança teve conseqüências políticas para os EUA. Com Washington ainda promovendo o comércio livre e a liberação econômica, muitas nações da América do Sul começaram a flertar com a China para buscar algum contrapeso.

    No entanto, seu foco principal tem sido o de estimular o comércio e a integração entre si, de forma similar, mas muito menos evoluída, que a União Européia.

    O Brasil e a Venezuela, em particular, vêm se aproximando do que Lula chamou de "aliança estratégica", quando visitou o presidente Chávez no meio do mês.

    Durante a visita, os dois países assinaram acordos que envolveram desde o financiamento de projetos de irrigação e metrô em Caracas até uma joint-venture para construir uma planta de lubrificantes de automóveis em Cuba. Chávez também falou de "cooperação militar" com o Brasil e expressou interesse em comprar até 24 aviões de patrulha brasileiros.

    "Em vez de Estados Unidos e Europa, Brasil , Argentina e Colômbia", disse Chavez, explicando suas preferências comerciais. "Mesmo que saia um pouco mais caro, é necessário tornar isso uma prioridade. Não é um acordo de um dia, os frutos virão no longo prazo." Posse de Vázquez consolida o consenso político da América do Sul Deborah Weinberg
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