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04/03/2005

Apesar de ameaças, 50 Cent é sucesso romântico

The New York Times
Kelefa Sanneh

Crítico de música do NYT
Em seu livro "What's the Matter With Kansas?" (O que Há de Errado com o Kansas), o autor Thomas Frank argumenta que os políticos conservadores passaram a usar uma estratégia descarada, de lançar a isca e mudar depois. Freqüentemente, eles defendem "valores antigos" durante a campanha, mas voltam sua atenção para questões econômicas depois de eleitos.

Divulgação

Músico está nas paradas do mundo todo com o megassucesso "In Da Club"
"O truque não se desgasta, a ilusão nunca se desfaz", escreve. Ele diz que eleitores que se preocupam com o aborto, por exemplo, acabam elegendo representantes que parecem mais interessados em reduzir os impostos sobre os ganhos de capital.

Ele fica impressionado --ou, mais precisamente, horrorizado-- com esse sistema aparentemente paradoxal: "Vote contra o elitismo e receba uma ordem social na qual a riqueza é mais concentrada do que nunca em nossas vidas."

Apesar do grande sucesso do livro, nada sugere que o cantor de rap 50 Cent está entre os cientistas políticos que o adquiriram. Mesmo assim, seu argumento parece familiar para quem segue sua carreira. Seu novo álbum, "The Massacre", chegou às lojas nesta quinta-feira (3/3).

Talvez não por coincidência, o lançamento está sendo acompanhado de manchetes confirmando a fama de provocador de 50 Cent. A tensão antiga dentro de seu grupo, G Unit, ferveu na segunda-feira, quando 50 Cent e seus protegidos reuniram-se na estação de rádio New York Hot 97, Wqht-FM (97,1) para denunciar o Game, ex-afiliado do G Unit que foi expulso por falta de lealdade e gratidão.

A entrevista foi cortada quando se ouviram tiros fora da rádio, aparentemente entre membros do séqüito de 50 Cent e de Game. Um afiliado de Game foi ferido na perna, segundo a polícia. É improvável que o incidente afaste os fãs das lojas.

Em 2002, 50 Cent já tinha sido contratado (pela Columbia Records), já tinha recebido nove tiros --como lembra sempre as pessoas-- e expulso da indústria da música. Foi então que começou sua impressionante recuperação. Em uma série de fitas e gravações underground, ele se apresentou como um anti-herói malcriado, sem nada a perder; ele se deliciou especialmente em ridicularizar Ja Rule, outro cantor de rap do Queens, conhecido por seus sucessos adocicados.

Ao ouvir os resmungos sarcásticos de 50 Cent ("I'm back in the game, shorty, to Rule and conquer/ You sing for hos and sound like the Cookie Monster" - "Estou de volta na jogada, baixinho, para governar e conquistar/ você canta para prostitutas e parece o Cookie Monster"), imagina-se um combatente das cruzadas, atacando a elite do hip-hop.

Então, no início de 2003, chegou seu "Get Rich or Die Tryin", um dos álbuns estreantes de maior sucesso do hip-hop de todos os tempos. A fama fez 50 Cent se desviar dos "valores antigos" que o elegeram. Nenhum cantor de rap pode vender milhões de discos sem fazer canções românticas, e 50 Cent dominou o subgênero do amor animal, chegando ao topo das paradas com canções sobre o flerte ("In da Club"), sexo ("P.I.M.P.") e até romance ("21 Questions").

Seu sucesso foi do tipo que muda depois de a isca ser mordida: 50 Cent não tinha vindo para elogiar Ja Rule mas para enterrá-lo. E depois, sorrateiramente, substituí-lo.

"The Massacre" (Shady/Aftermath/Interscope) está predestinado a ser outro arraso: é uma coleção de ameaças duras e dissimuladas e paqueras, um álbum quase tão viciador quanto seu predecessor.

Os tiros de segunda-feira parecem se encaixar com a imagem de 50 Cent, mas se você ligar o rádio agora provavelmente vai ouvir um personagem ligeiramente diferente. Na semana passada, 50 Cent estava por trás de três das seis canções favoritas nos EUA, todas elas cheias de frases para pegar mulher em boate.

Uma delas é a simples e sinuosa música dançante "Disco Inferno" (na qual 50 Cent rima: "Li'l mama, show me how you move it/ Better yet, put your back into it"). Assim como "Candy Shop" (um dueto com sua protegida do R&B Olivia), veio do "The Massacre". A terceira é "How We Do", uma colaboração com o mais novo inimigo de 50 Cent, Game, na qual 50 Cent interrompe seu discurso duro para ronronar "Touch me, tease me, kiss me, please me/ I give it to you just how you like it, girl" (toque-me, provoque-me, beije-me, agrade-me/ eu te dou do jeito que você gosta, garota).

Suas ameaças podem tê-lo eleito, mas são as paqueras que o mantêm no cargo.

Alguns rappers encantam com batidas selvagens ou letras que pegam instantaneamente, mas o estilo de 50 Cent sempre foi ao mesmo tempo mais e menos sutil: é um compositor talentoso, especializado em faixas óbvias, mas quase irresistíveis, que quanto mais você ouve, mais gosta.

Em "Get Rich or Die Tryin", 50 Cent freqüentemente parece mais convincente quando critica os homens do que quando está paquerando as mulheres. Mas agora a situação se inverteu. Sua voz parece melhor quando está mais quieta, e seu ritmo fica mais agradável quando é preguiçoso.

Para "Get in My Car", o produtor Hi-Tek contribuiu com uma batida indolente e uma frase de guitarra esperta de cinco notas, enquanto 50 Cent mostra seu charme perverso, anunciando, "não tenho frase para pegar mulher" --porque, é claro, ele não precisa.

Para "So Amazing", 50 Cent usa um texto de amor durão enquanto Olívia canta um refrão de R&B. "A Baltimore Love Thing" leva essa fórmula para uma direção inteligente e inesperada: as promessas de devoção parecem surpreendentemente doces ("If you give birth, I'll already be in love with your kids": se você der a luz, já estarei apaixonado por seus filhos), até que você entende que a protagonista é a heroína, cantando para o viciado.

Como os melhores políticos, 50 Cent tem um talento para unir as noções diferentes, aparentemente incompatíveis, e criar um pacote atraente. Ele faz ataques e apelos com o mesmo sorriso maldoso, que ajuda a persuadir os ouvintes a ignorar suas aparentes contradições.

(Para começar: histórias da vida dura nas ruas do Queens ficam pouco convincentes vindas de um homem que mora em Farmington, Connecticut).

Então, apesar de 50 Cent estar longe de ser o herói das fitas que foi em 2002, ainda encontra tempo para comprar briga. "Piggy Bank" inclui insultos a Fat Joe e Jadakiss, que prometeram responder e cuja fama é pior do que a de 50 Cent.

Mas o que é realmente memorável sobre essa canção não são os ataques, mas o coro hipnótico, como uma provocação colegial: "Clickerty-clank, clickety-clank/ The money goes into my piggy bank" (o dinheiro vai para meu cofrinho).

Seus inimigos podem responder como quiserem, mas para os rappers e políticos e muitos outros, os "valores antigos" não se comparam às questões financeiras.

Se o "Massacre" não é tão excitante quanto "Get Rich or Die Tryin", em parte é porque não é tão surpreendente: já sabemos quem é 50 Cent e como funciona sua estratégia. Mas em faixas como "Ski Mask Way", uma rima de uma mente criminosa e uma batida aveludada de Disco D, fica claro que nada disso importa: como muitos outros antes dele, 50 Cent descobriu que dar o que as pessoas querem nem sempre é o mesmo que dar o que estão pedindo. Como todos os melhores esquemas, este não tem fim: o truque nunca se desgasta, a ilusão nunca se desfaz. Músico norte-americano lança seu segundo álbum, "The Massacre" Deborah Weinberg

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