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04/03/2005

Habilidade do papa como comunicador é testada

The New York Times
Ian Fisher*

Na Cidade do Vaticano
Vários anos atrás, um cardeal americano que estava visitando o papa João Paulo 2º aqui perguntou se uma equipe de televisão local poderia filmar os dois juntos.

Lynsey Addario/The New York Times

Mulher dirige-se a um vaso com água benta ao entrar em uma das catedrais do Vaticano
"O papa olhou para ele, sorriu e disse: 'Se não acontece na televisão, não acontece'", lembrou o arcebispo John Patrick Foley, o chefe de comunicações do Vaticano. "Ele está ciente do poder da mídia."

Agora uma traqueostomia deixou o papa quase incapaz de falar, mas tal consciência continua evidente. O próprio papa, segundo relatos, pediu para ser levado de cadeira de rodas até a janela de seu hospital no domingo passado, aparecendo por menos de dois minutos mas tranqüilizando os fiéis, por meio de um número enorme de câmeras de televisão, com um leve gesto sem palavras indicando o local do corte em sua garganta.

Foi uma atuação plenamente em sintonia com os momentos de maior saúde de seus 26 anos de pontificado, durante os quais ele se concentrou menos na administração diária da Igreja Católica Romana, segundo a maioria das opiniões, em prol da divulgação da mensagem por meio de viagens, televisão e até mesmo da Internet, mais do que qualquer outro papa poderia.

Mas um semana depois de ter sido hospitalizado pela segunda vez em um intervalo tão curto, muitas perguntas estão surgindo: será que um papa que agora não pode falar bem, que dificilmente manterá sua desgastante agenda de aparições públicas, conseguirá continuar promovendo a mensagem da Igreja?

Será que um tipo de papado virtual --imagens eletrônicas dele combinadas com mensagens lidas por outros ou postadas pela Internet-- poderá substituir sua própria voz antes imponente em questões importantes para a Igreja, como guerra, pobreza e aborto? E se puder, por quanto tempo?

Com tanta solidariedade para com o papa doente, de 84 anos, as vozes públicas de ceticismo são poucas, apesar de repetirem muitas preocupações particulares dentro da administração da Igreja e entre os fiéis.

"A curto prazo, ele poderia realizar algum tipo de coletiva de imprensa na qual seria capaz de escrever sua mensagem", disse o padre Michael A. Fahey, um jesuíta e professor de teologia da Universidade Marquette em Milwaukee. "Mas eu não acho que isto ajudará a atender as necessidades de longo prazo da Igreja."

"Segundo meu ponto de vista, a fala é apenas parte do problema", disse ele, acrescentando que admira profundamente a coragem do papa durante sua doença. "Ele realmente não tem o mesmo vigor e capacidade para realmente administrar e fornecer o tipo necessário de liderança presente no local."

Mas outros argumentam que a força de João Paulo sempre foi a de um comunicador, e que ele não precisa de palavras para transmitir o papel que estabeleceu no crepúsculo de seu pontificado --a transmissão de uma mensagem espiritual de dignidade na velhice.

"Eu acho que posso viver com um papa que se comunique raramente e não verbalmente", disse Andréa Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, um movimento leigo católico sediado em Roma.

"Nós estamos em uma situação nova e excepcional, mas também uma situação que existiu no passado. Na Praça de São Pedro, antes dos microfones, o que os fiéis ouviam? Eles ouviam muito pouco."

"Pode parecer decepcionante, pode parecer menos eficiente, mas a mensagem de Wojtyla é a mensagem de um homem real, porque a doença faz parte da vida", ele acrescentou, usando o sobrenome do papa.

Muitos observadores do Vaticano apontam dois eventos recentes ligados à doença do papa como possíveis indicações do futuro: quando João Paulo deixou o hospital em 10 de fevereiro, após passar nove dias lá em tratamento por gripe e problemas respiratórios, ele o fez não em uma ambulância, mas sentado e acenando atrás das divisórias de vidro transparente de seu veículo.

Então, no domingo passado, em meio à preocupação pela segunda internação ocorrida três dias antes, ele apareceu na sua janela do complexo do Hospital Gemelli, em Roma, fazendo o sinal da cruz e tocando o ponto em sua garganta onde um tubo tinha sido inserido para ajudá-lo a respirar.

"Ele estava dizendo: 'Eu ainda posso me comunicar com gestos'", disse Giuseppe De Carli, chefe da divisão de cobertura do Vaticano da televisão pública italiana. "Ele está claramente dizendo que pode ser papa do hospital, que pode ser papa em silêncio."

A poucos quilômetros de distância da Praça de São Pedro, suas palavras foram lidas por um assessor, enquanto uma foto de um João Paulo mais jovem e com mais saúde era exibida em imensas telas de televisão ao ar livre.

De Carli credita grande parte da eficácia do papa como comunicador aos seus dias como ator na Polônia.

"Ele olha direto para a câmera; ele domina as massas, especialmente os jovens; ele faz pausa para aguardar pelo aplauso", disse ele. "Ele entende as pausas, silêncios, o timing. Ele faz uso disto. É seu carisma."

Mas apesar de o papa não estar falando publicamente, seus assessores claramente o estão fazendo por ele. Ao longo de ambas hospitalizações recentes, uma série de proclamações e nomeações foram emitidas em seu nome. E importantes autoridades do Vaticano forneceram uma dose constante de relatos principalmente positivos, mesmo que breves, sobre sua saúde.

Nesta quinta-feira (3/3), seu principal porta-voz, Joaquin Navarro-Valls, disse aqui aos repórteres que a saúde do papa continua melhorando, que ele está envolvido nos assuntos da Igreja e que está obtendo progresso na terapia para ajudá-lo a falar e respirar melhor. Mas Navarro-Valls disse que não se sabe se o papa receberá alta do hospital antes do Domingo de Páscoa, em 27 de março.

"Ele tem um grande desejo de voltar ao Vaticano, o que parece óbvio, mas ao mesmo tempo o papa aceita o conselho dos médicos", disse Navarro-Valls.

Se as pressões são altas sobre João Paulo para que tranqüilize os fiéis, elas se devem em parte por causa das expectativas que ele elevou assim que transformou a face pública do papado. A pressão sobre papas anteriores para que aparecessem em público ou na televisão era menor. Nos últimos meses antes de sua morte em 1978, notaram especialistas, o papa Paulo 6º raramente saía do Vaticano.

Mas após ter sido escolhido papa, João Paulo 2º buscou mudar o relacionamento do antigo posto com a nova mídia de massa, que podia projetar rapidamente a si mesmo ao redor do globo. Ele se encontrava com repórteres e respondia suas perguntas, como também fez com grupos de fiéis --e perdoou o homem, Ali Agca, que tentou matá-lo em 1981.

*Colaboraram Jason Horowitz e Elisabetta Povoledo. Doença é desafio ao relacionamento de João Paulo 2º com a mídia George El Khouri Andolfato

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