UOL Notícias Internacional
 

05/03/2005

Americanos atiram em italiana liberada no Iraque

The New York Times
Jason Horowitz

Em Roma
Soldados americanos abriram fogo, nesta sexta-feira (4/3), contra o carro que levava a jornalista italiana liberada por seqüestradores no Iraque. A repórter ficou ferida, e um membro da inteligência italiana que a escoltava morreu.

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, disse em uma conferência com a imprensa que a vítima, Nicola Calipari, protegeu a jornalista, Giuliana Sgrena, quando um veículo blindado americano atirou contra seu carro, que se dirigia ao aeroporto de Bagdá. Duas outras autoridades italianas ficaram feridas, disse Berlusconi.

As Forças Armadas americanas disseram em uma declaração que o carro se aproximou de uma barreira policial em alta velocidade e não respondeu aos sinais dos soldados para que parasse.

Berlusconi, aliado determinado do presidente Bush no Iraque, convocou o embaixador americano na noite de sexta-feira (4/3). Em Washington, a Casa Branca expressou pesar com o incidente e prometeu uma investigação detalhada.

"Desejamos rápida recuperação", disse o porta-voz do presidente, Scott McClellan, para Sgrena, de acordo com a Reuters. "Sentimos pela vida perdida."

A Itália acompanhou ansiosamente o drama de Sgrena, desde seu seqüestro no dia 4 de fevereiro em Bagdá até seu apelo emotivo em um vídeo pedindo por sua vida e sugerindo que todos os soldados estrangeiros --inclusive as forças italianas-- deixassem o Iraque. Dias depois da divulgação do vídeo, dezenas de milhares de italianos marcharam por Roma exigindo sua liberdade.

Os eventos de sexta-feira, desde o alívio pela manhã com a notícia da liberação da jornalista de 56 anos até o choque dos tiros a caminho de casa, pareceram sobrecarregar o país emocionalmente.

"Sobre esta grande alegria, caiu um enorme pesar", disse Berlusconi. "Viramos pedra quando os oficiais nos contaram por telefone."

Os detalhes da liberação de Sgrena não foram divulgados. As autoridades italianas recusaram-se a explicar como ou por quem foi liberada. Berlusconi disse que, depois do incidente, os soldados americanos levaram-na para uma instalação militar para remover fragmentos de seu ombro esquerdo e que ela disse a um membro do governo italiano por telefone que "está bem".

Berlusconi, entretanto, exigiu respostas sobre o azedamento de um dia com tanto potencial para ser doce.

"Como o fogo veio de uma fonte americana, convoquei o embaixador dos EUA", disse Berlusconi aos repórteres. "Temos que ter uma explicação para um incidente tão sério, pelo qual alguém deve ser responsabilizado."

Analistas políticos duvidam que os tiros gerem tensões no relacionamento entre Itália e os EUA ou ameacem a missão dos quase 3.000 soldados italianos no Iraque. No mês passado, o Senado italiano aprovou a extensão do financiamento da missão.

Apesar disso, é provável que o episódio fatal de hoje provoque uma nova rodada de protestos contra a manutenção de tropas italianas no Iraque. Muitos agora se perguntam quanto tempo Berlusconi conseguirá sustentar uma guerra à qual a maior parte dos italianos se opõe.

"Esse incidente vai aumentar o anti-americanismo. Mas não vai prejudicar seriamente a decisão italiana de manter tropas no Iraque", disse James Walston, cientista político da Universidade Americana de Roma.

O professor Walston disse que, em certa medida, a opinião pública italiana e até a política em relação ao Iraque dependerá de como os EUA responderem ao incidente.

Horas depois dos tiros, a Casa Branca emitiu uma declaração expressando seu pesar. O embaixador americano na Itália, Mel Sembler, imediatamente contatou Berlusconi para dar suas condolências, segundo um funcionário da embaixada.

Sembler chegou ao escritório de Berlusconi perto das 23h para uma reunião de uma hora.

De acordo com uma declaração da Terceira Divisão de Infantaria do Exército dos EUA em Bagdá, os soldados tentaram advertir o motorista para que parasse, antes de atirar contra o motor do carro em alta velocidade.

"Perto das 21h, uma patrulha no oeste de Bagdá observou o veículo aproximando-se rapidamente na direção da barreira policial e tentou advertir o motorista para que parasse. Os soldados usaram as mãos, piscaram luzes e deram tiros de advertência", disse a declaração.

O escritório de Berlusconi não divulgou a velocidade do carro que levava Sgrena e Caliparia.

Em sua declaração melancólica, Berlusconi observou o papel crucial que o agente do serviço secreto tinha tido para liberar outros reféns italianos no Iraque a fez um tributo à coragem que exibira ao proteger Sgrena dos tiros.

"Calipari cobriu Sgrena com seu corpo, mas infelizmente foi atingido por um tiro fatal", disse Berlusconi.

No escritório romano do jornal comunista "Il Manifesto", onde Sgrena trabalha, os repórteres celebraram com champanhe as notícias iniciais de sua liberação. Mais tarde, a editora do jornal, Gabriele Polo, disse à televisão Sky Itália que o incidente a caminho do aeroporto mostrava que "tudo que está acontecendo no Iraque é completamente absurdo e louco".

Uma repórter do jornal, Stefania Zaccaio, foi dura em entrevista telefônica: "Os americanos mataram uma pessoa inocente e feriram outra."

Essa não é a primeira vez no Iraque que tiros de soldados americanos inflamaram paixões na Itália. Em 2003, soldados americanos no Norte do Iraque atiraram contra o carro que levava Pietro Cordone, autoridade italiana que chefiava os esforços americanos para recuperar as antiguidades iraquianas saqueadas. Seu tradutor iraquiano morreu. Agente do serviço de inteligência da Itália que a protegia a morre Deborah Weinberg

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