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06/03/2005

Igrejas negras lutam por seu papel na política

The New York Times
Neela Banerjee
Um cabo-de-guerra está em andamento dentro das igrejas negras sobre quem fala pelos afro-americanos e qual papel exercer na política, promovido por um clero conservador negro que está procurando se aliar mais estreitamente com o presidente Bush.

A luta, principalmente entre os protestantes negros, está transcorrendo nos púlpitos, convenções religiosas, editoriais de opinião e nas ondas de rádio, e o próprio presidente iniciou seu segundo mandato com uma reunião na Casa Branca com o clero e líderes cívicos negros que apoiaram sua reeleição.

O bispo Harry R. Jackson Jr., o pastor da Igreja Cristã Esperança em College Park, Maryland, faz parte de uma nova geração de líderes que aprecia a posição republicana nos valores sociais. Ele parafraseia Newt Gingrich enquanto percorre o país para promover um "Contrato Negro com a América para Valores Morais", cujas principais prioridades incluem a oposição ao casamento de mesmo sexo e o aborto.

"Historicamente, quando sociedades saem de ordem, há um desenfreado casamento de mesmo sexo", disse Jackson em uma entrevista. "O que tende a acontecer é que as pessoas tendem a desvalorizar a instituição do casamento como um todo. As pessoas começam a criar crianças sem dois pais, e a comunidade negra já tem este número incrivelmente alarmante e, se posso dizer, vergonhoso de bebês que nascem sem pais."

Ele disse que espera coletar um milhão de assinaturas de apoio neste ano.

Esforços como o de Jackson provocaram uma profunda reação de outros pastores negros, que não gostam de empregar suas energias no combate ao casamento de mesmo sexo.

"Opressão é opressão é opressão", disse o reverendo Kelvin Calloway, pastor da Segunda Igreja Metodista Episcopal Africana em Los Angeles. "Só porque não somos aqueles que estão sendo oprimidos agora, não devemos defender aqueles que estão sendo oprimidos? Este é o mandato bíblico. É disto que se trata Jesus."

No coração do debate, dizem os líderes religiosos, está se permanecem concentrados basicamente em questões como a criação de empregos, educação, ação afirmativa, reforma carcerária e atendimento de saúde, que aproximam os negros do Partido Democrata, ou se colocam mais ênfase em questões de moralidade pessoal, como oposição ao casamento de mesmo sexo e o aborto, o que os coloca dentro do campo republicano.

"Eu acho que há um movimento entre os evangelistas afro-americanos que estão extremamente preocupados com as questões de família e aborto, e nossa liderança tem que fazer algo a respeito", disse o reverendo Herbert H. Lusk II da Filadélfia, que foi um dos pastores que se encontraram com Bush em janeiro.

A maioria dos pastores negros se alinha há muito tempo com os democratas, e os senadores John Kerry e John Edwards passaram os domingos em igrejas negras nas últimas semanas de campanha para obter o voto negro.

Mas a Casa Branca tem atraído a simpatia do clero negro -por sua posição em questões sociais, seu esforço para dar aos grupos religiosos um papel maior na prestação de serviços sociais financiados por recursos federais e idéias como a iniciativa proposta por Bush de combater a violência de gangues, uma preocupação de alguns pastores negros que o apóiam, como o reverendo Eugene F. Rivers de Dorchester, Massachusetts.

Apesar de apenas 11% dos eleitores negros terem votado em Bush, segundo pesquisas de boca-de-urna, os conservadores apontam que ainda assim foi um aumento em comparação a 8% em 2000, e os republicanos buscam expandir tais números.

Alguns pastores negros dizem que os republicanos não avançarão mais. Ao ser perguntado se o casamento de mesmo sexo mobilizaria os afro-americanos, o reverendo Jesse Jackson disse: "Ora, ele não entrou no 10 mais de Moisés, e Jesus não o mencionou". Ainda assim, buscando ampliar seu próprio poder político, os líderes de quatro convenções batistas negras, representando 15 milhões de fiéis, se reuniram em janeiro para elaborar sua primeira posição unida em quase um século em questões econômicas e sociais e para enterrar antigas diferenças.

No final dos quatro dias de encontro, os ministros pediram pelo fim da guerra no Iraque e pela retirada das tropas americanas. Eles declararam sua oposição à confirmação de Alberto R. Gonzales como secretário da Justiça. Eles declararam sua oposição à transformação dos cortes de impostos promovidos pelo presidente em permanentes, e alertaram que reduções nos gastos em programas de saúde para crianças seriam "imorais".

Eles dizem que estão tentando combater a crescente influência dos evangélicos brancos na política nacional. "Eles têm no momento uma voz forte na política nacional, e às vezes parece que são a única voz", disse o reverendo dr. William J. Shaw, presidente da Convenção Nacional Batista dos Estados Unidos, sobre os evangélicos brancos. "E nosso desafio é ser uma voz que soe baseada na Bíblia e que não forneça uma aprovação em branco para a política do governo como outros fizeram. Este é um momento perigoso em que os evangélicos brancos ditam a política do governo."

Mas eles também questionam os conservadores em suas próprias fileiras, os acusando de estarem sendo seduzidos pelo programa de "iniciativas baseadas na fé" de Bush, para canalizar recursos federais para programas sociais dirigidos pelas igrejas, e perguntando quanto controle eles realmente têm.

"De onde veio isto?"disse o reverendo Madison Shockley, pastor da Igreja Peregrina Unida de Cristo em Carlsbad, Califórnia, que juntamente com Calloway escreveu um artigo de opinião no "The Los Angeles Times" em resposta ao "Contrato Negro com a América". "Isto veio de Bush e da direita cristã, e a isca é o dinheiro para programas religiosos."

Mas alguns ministros negros conservadores dizem que finalmente sentem que têm um lar político. O reverendo O'Neal Dozier do Centro Mundial da Igreja Cristã em Pompano Beach, Flórida, disse que por anos lutou para organizar um grupo ecumênico local de ministros preocupados com questões como aborto e casamento de mesmo sexo. Agora, a participação nestas reuniões aumentou consideravelmente, e Dozier espera 200 ministros, negros e brancos, no próximo encontro em abril.

"Eu não acho que a velha guarda seja tão forte agora. Nós estamos no Sul da Flórida e o Sul da Flórida é altamente democrata, mas os pastores que vejo estão começando a mudar, e em conseqüência da mudança deles, muitos fiéis também mudarão", disse Dozier, que também participou do encontro com Bush em janeiro. "Toda mudança social precisa começar no púlpito."

Os evangélicos brancos também estão participando da discussão. Ministros como o reverendo Lou Sheldon, presidente da Coalizão de Valores Tradicionais, uma organização que conta com 43 mil igrejas, estão organizando os ministros negros em grandes cidades em torno das questões de sexualidade. "Nós estamos procurando o clero afro-americano que tem autoridade local, e os estamos convidando para um encontro sobre casamento, apenas um único tema", disse Sheldon.

Mesmo antigos amigos estão sendo puxados em direções opostas. Shaw e Lusk, por exemplo, têm muito em comum.

Shaw comanda a maior denominação negra do país, a Convenção Nacional Batista dos Estados Unidos, da qual Lusk e sua congregação são membros. As igrejas onde cada um pregou por décadas ficam a uma distância de 20 minutos uma da outra na Filadélfia, e cada um prega política.

Na Igreja Batista White Rock, Shaw já se manifestou contra a proibição constitucional ao casamento de mesmo sexo. Ele diz que não acredita que a Bíblia permita tais uniões, mas ele rejeita a proibição do governo a elas.

"Minha posição quanto ao casamento de mesmo sexo é que não é determinante em questões morais", disse Shaw. "O casamento é mais ameaçado pelo adultério, e não temos uma proibição constitucional a isto. O álcool é uma ameaça à estabilidade da família, mas não temos uma proibição constitucional para ele."

De seu próprio púlpito, Lusk segue na direção oposta. Nas missas de domingo, antes do Dia dos Namorados em sua Igreja Batista do Grande Êxodo, Lusk convidou os fiéis para um jantar dos namorados na noite seguinte. Mas ele os alertou para que não comparecerem com namorados do mesmo sexo. "Nós estamos vivendo em tempos perigosos", disse Lusk na missa. "Nós estamos vivendo em um tempo onde os pregadores parecem confusos, em que estão confundindo sua sociologia com sua teologia."

Lusk diz que as prioridades divergentes dos politicamente liberais e do clero conservador não precisam fraturar a comunidade negra. Ele disse que vê a si mesmo como uma ponte entre a Convenção Nacional Batista e a Casa Branca.

"Você não acerta estas coisas". disse Lusk sobre as agendas de negros liberais e evangélicos conservadores. "Você concorda em discordar sem ser ofensivo."

"Quando eu era pequeno, a Klan em Memphis me negou o direito de pensar no que queria", ele acrescentou. "Nós não devemos chegar a um ponto em nossas vidas em que nosso próprio povo nos negue o mesmo direito de pensar. Eu acho que o dr. Shaw e outros líderes entendem isto." George El Khouri Andolfato

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