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07/03/2005

Brazilian Girls e outros artistas globais ali ao lado

The New York Times
Jody Rosen

Em Nova York
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    Às 2h de uma gelada manhã de janeiro, cerca de 80 pessoas lotaram o Nublu, um minúsculo clube noturno no East Village, para assistir uma apresentação da banda Brazilian Girls.

    O Nublu é um desses lugares definitivamente urbanos, um oásis chique escondido em uma rua comercial. O espaço é freqüentado por jovens cheios de estilo -brancos, negros e outros- falando uma babel de idiomas. No centro do salão (não há palco), estava a figura magra de Sabina Sciubba, líder do Brazilian Girls, cantando "Die Gedanken Sind Frei" (os pensamentos são gratuitos).

    A letra da música foi tirada de um poema alemão do século 13; o baixo puxa a música para a languidez espacial do dub reggae; o mix envolve sons eletrônicos, e a forma de cantar recitando de Sciubba lembra o hip-hop e o cabaré de Weimar. Saindo do frio invernal para o Nublu, a pessoa pensa que chegou ao caldeirão musical mais quente do mundo.

    Como é o pop de Nova York? Nos últimos anos, algumas cenas atraíram todas as atenções: o rock de garagem do Lower East Side e Willimsburg, Brooklyn; o renascimento do dance-punk do selo DFA do Brooklyn; e, como sempre, o hip-hop, o som local que conquistou o mundo.

    No entanto, uma cidade de 8 milhões de habitantes não pode ser definida por apenas alguns estilos musicais. Dois novos álbuns do Brazilian Girls e Ivy, bandas de Manhattan com pedigrees intercontinentais e tendências cosmopolitas, oferecem vislumbres de uma cidade diferente: Nova York como uma sala de estar global, o meio do caminho geográfico e espiritual entre a Europa e a América Latina, onde músicos intrépidos podem escolher de uma coleção mundial de sons urbanos.

    É difícil imaginar uma garota-propaganda melhor para o pop poliglota de Nova York do que Sciubba. Nascida em Roma, cresceu em Munique e Nice e mora em Nova York desde 2000. Esbelta e glamorosa, lembra vagamente a jovem Ingrid Bergman. Se sua aparência, por si só, não for suficiente para convencê-lo de sua origem euro-fabulosa, ouça-a cantando em cinco línguas diferentes no disco de estréia auto-intitulado Brazilian Girls.

    Nas apresentações, ela irradia a altivez de estrela do rock e parece ter a intenção de tirar o título de Bjork da moda pop mais maluca, enfaixada por luminárias de papel ou embrulhada em cortinas. "Vejo tudo, mas o público não consegue me ver", explica.

    No primeiro disco da banda, a voz de penumbra de Sciubba nunca se detém em um estilo único. Uma balada em escala menor gaulesa encontra um sample de tangos antigos e uma passagem de drum-and-bass tagarela; um poema de Pablo Neruda é coberto por efeitos de produção estilo dub; batidas de quatro por quatro brigam com trombetas de ska e frases da bossa nova.

    Nos últimos anos, houve inúmeras tentativas de combinar ritmos dançantes com a música global, com resultados desastrosamente cafonas. O Brazilian Girls teve sucesso, em grande parte porque é uma banda de verdade. O grupo formou-se em abril de 2003, no Nublu, quando começou a tocar junto em sessões tarde da noite.

    Em vez de ensaiar, a banda permitia que suas músicas se desenvolvessem de improvisos semanais diante do público do Nublu. O Brazilian Girls rapidamente refinou o som construído em torno da voz de Sciubba e uma seção rítmica criativa: Didi Gutman, tocando uma mistura de loops, samples e teclado; o baixo exagerado de Jesse Murphy; e a bateria extraordinariamente fluida de Aaron Johston. Logo, a banda entrou nos estúdios de gravação para capturar suas músicas enquanto estavam frescas.

    O resultado é uma coisa rara: um disco de festa de composições bem formadas. "Ships in the Night" tem uma melodia digna de Kurt Weill e um letra ácida sobre um caso de uma noite que acaba em furto: "When you alight, mein liebe /Look in your wallet, all you'll find/The little note I've left behind" (Quando você sair, meu querido, olhe em sua carteira e vai encontrar apenas a nota que deixei). Sciubba especializa-se em olhar com preconceito e ironia para o amor e o desejo, em canções que vão desde piadas da cultura popular até a poesia; a narração de "Long" reclama de esperar "por um tempo mais longo que seus cabelos nos anos 80/ mais tempo que o mais longo inverno/ mais tempo do que o amor".

    É nessas letras engraçadas, cansadas do mundo e ocasionalmente profanas sobre sexo, maconha, comer sorvete no parque, dançar a noite toda e bares de esquina que surge o jeito nova-iorquino: Brazilian Girls se aproveita de sons dos quatro cantos do planeta, mas o mundo que descreve não existe em lugar nenhum ao norte da Rua 14. "Realmente tentamos capturar o ambiente do Nublu com nossas músicas", diz Murphy. "Estamos tentando manter viva essa estética da cidade."

    Cerca de 5 km ao norte de Nublu, em uma área cheia de galerias de West Chelsea, você vai encontrar o Ivy, que por mais de uma década vem refinando sua própria estética cuidadosamente cosmopolita de Nova York. O Ivy é um grupo de bairro. O baixista Adam Schlesinger e a equipe de marido e mulher -o guitarrista Andy Chase e a cantora Dominique Durand- vivem em apartamentos em lados opostos de uma rua estreita. A quatro quadras dali, em um estúdio de gravação de Schlesinger, Chase e James Iha, que era do Smashing Pumpkins, o Ivy gravou "In the Clear", seu quarto disco completo, que chegou às lojas na última semana.

    Como o Brazilian Girls, o Ivy tem à frente uma cantora carismática com um sotaque do Velho Mundo. Durand é parisiense que se mudou para Nova York em 1989; cinco anos depois, entrou para a carreira musical por acaso, quando Chase e Schlesinger convenceram-na a tentar cantar em um dos primeiros demos do Ivy, "Can't Even Fake It". Sua voz -de crooner sem vibrações, que lembra Astrud Gilberto e Chet Baker- tornou-se a marca do Ivy, refletindo as músicas polidas e bonitas da banda com uma saudade melancólica. Em discos como "Apartment Life" (1997) e "Long Distance" (2001), o Ivy alterou o volume e a catarse do rock'n'roll, acrescentando vinhetas sobre os sonhos e desapontamentos dos moradores da cidade em músicas que tiravam inspiração no pop do Brill Building, baladas de jazz, bossa nova, trip-hop e outros estilos urbanos.

    Os discos de Ivy tiveram ótima crítica, mas vendas modestas; a banda conseguiu se manter vendendo suas músicas para a televisão e cinema e desenvolvendo uma série de iniciativas musicais extracurriculares. Chase produziu discos para bandas parecidas, inclusive a francesa Tahiti 80, e toca em dois outros grupos, Brookville, um projeto solo, e Paco, uma colaboração com Durand e o compositor Michael Hampton. Schlesinger é produtor e compositor prolífico, atualmente compondo músicas para o musical de John Waters "Cry Baby". Além disso, fundou a banda Fountains of Wayne, de poetas pop dos subúrbios de Nova Jersey, onde cresceu. (Em Fountains of Wayne e Ivy ele tem expressões perfeitas para sua dupla inspiração: uma banda de canções prepotentes do subúrbio e outra para músicas sofisticadas de Manhattan.)

    "In the Clear" é um disco de Ivy por excelência: um pop luxuoso, de várias camadas, que parece ao mesmo tempo clássico e totalmente contemporâneo. Pela primeira vez, a banda escreveu músicas no estúdio, e Chase e Schlesinger combateram seus impulsos perfeccionistas de produção. "Queríamos um disco um pouco mais visceral, com um som mais parecido com o de uma banda ao vivo", disse Chase.

    Talvez não pareça ao vivo, mas músicas como "Thinking About You" e "Corners of Your Mind", que colocam os vocais altamente distorcidos de Durand contra uma parede de guitarras, são bem mais pesadas do que a banda jamais gravou. Se o resto de "In the Clear" for assim, é um bom álbum.

    O tino da banda para baladas atraentes está intacto, como em Europhilia; "I've Got You Memorized" e "Keep Moving" têm uma sensação presunçosa de euro-disco, que pode em parte ser devido à presença de Steve Osborne, famoso por seu trabalho com o New Order e Happy Mondays, que mixou várias faixas do disco. Em "In the Clear", canções pop são interrompidas por toques inesperados: uma onda de guitarra, um solo de trompete, um impressionante arranjo de cordas estilo soul dos anos 70. E Ivy não tem medo da grandeza. A primeira música do disco, "Nothing but the Sky" é uma balada que vai crescendo, entremeada de acordes de piano retumbantes, distorções eletrônicas e feedbacks de guitarra.

    A música se encaixa no assunto do Ivy, ou seja, pequenas histórias de relacionamentos desgastados e alienação contra o cenário noir da grande cidade. Repetidamente as canções voltam às cenas de solidão urbana. "Dark stars in the summer skyline /Long nights with the headphones on" (estrelas escuras no horizonte do verão/ noites longas com headphone nos ouvidos), canta Durand em uma música; "Four in the morning, and I've got that feeling /Lights open and I'm staring at the ceiling" (quatro da manhã, e tenho aquela sensação/ luzes acesas e estou olhando para o teto) é o refrão de outra. Schlesinger identifica o tema como "uma coisa verdadeiramente nova-iorquina".

    "Em Nova York, há essa noção de que nunca se está de fato sozinho fisicamente", disse ele. "Não há muito espaço, e você tem que se voltar para dentro para encontrar momentos privados em sua mente". Há vários momentos desses em "In the Clear", um disco perfeito para o iPod de nova-iorquinos apressados: músicas para escapar à multidão enlouquecida. Deborah Weinberg
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