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07/03/2005

Mais caro álbum do Guns N' Roses nunca foi produzido

The New York Times
Jeff Leeds,

Em West Hollywood, Califórnia
Sob a tênue luz vermelha do Rainbow Bar and Grill, Tom Zutaut saboreia a sua bebida e cospe um pouco de arrependimento. Faz 19 anos desde que ele assinou um contrato da então desconhecida banda de rock Guns N' Roses com a Geffen Records, algo que os transformou em superastros com vários discos de platina. Naquela época, o Rainbow era o bar preferido dos membros do conjunto.

Chang W. Lee/The New York Times

Axl Rose em show do MTV Music Awards em 2002
Anos após ter deixado a gravadora, ele retornou em 2001 para tentar convencer Axl Rose, o magnético líder da banda e, à época, o seu único integrante original, a completar um dos álbuns mais intensamente aguardados pela indústria fonográfica: um trabalho cujo título seria "Chinese Democracy". O prazo para sua entrega expirou há 2 anos.

"Eu realmente pensei que o convenceria a apresentar a gravação", diz Zutaut, que passou nove meses tentando. "E chegamos perto".

Ele fala em termos relativos. Zutaut é apenas um de uma série de executivos e produtores acionados no decorrer dos anos para tentar fazer com que este complicado álbum se tornasse realidade. O trabalho desses profissionais consistiu em procurar por todos os meios convencer o recluso astro do rock a compor, cantar, gravar, ou simplesmente aparecer em público. Assim como todos os outros que tentaram, Zutaut também voltou de mãos abanando.

Rose começou a trabalhar no álbum em 1994, gravando esporadicamente com uma lista de músicos que estava sempre mudando, passando por pelo menos três estúdios de gravação, quatro produtores e uma década de confusão na indústria musical.

O cantor, que, segundo seus agentes, não quis fazer comentários para este artigo, passou por problemas pessoais durante o período, lutando contra processos e demônios pessoais e afastando-se da luz dos holofotes. Isso só fez com que se multiplicassem as fofocas sobre o seu suposto interesse em cirurgia plástica e terapia de "regressão a vidas passadas".

No decorrer desse período, ele acumulou mais de US$ 13 milhões em custos de produção, segundo documentos da Geffen, o que provavelmente faz da sua obra-prima inacabada a mais cara gravação nunca entregue. Conforme a produção se arrastava, foi revelada uma das fraquezas fundamentais da indústria fonográfica: quanto mais as gravadoras dependem de astros consagrados como Rose, menos elas os controlam.

É uma história que se aplica à criação de quase todo álbum famoso. Mas no caso de "Chinese Democracy", houve um desfecho surpreendente: o cantor que se autodefine como um mestre da Hollywood predatória na sua música de sucesso "Welcome to the Jungle" passou a ser conhecido, em vez disso, como o detentor do mais notório elefante branco da indústria.

Na badalada da meia-noite em 17 de setembro de 1991, o Guns N' Roses era a maior banda do mundo. Centenas de lojas de discos ficaram abertas até tarde, ou reabriram as suas portas, a fim de se beneficiarem das primeiras vendas, naquela noite, de "Use Your Illusion", volumes um e dois, o novo álbum duplo da banda.

No auge daquela promoção --e no seguimento da formidável estréia da banda em 1987-- o conjunto estabeleceu um recorde. Pela primeira vez na história do rock, dois álbuns de um só conjunto emplacaram o primeiro e o segundo lugares na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos.

Mas por volta de 1994 a sorte da banda mudara.

Após anos de dependência em drogas, polêmicas quanto a letras de músicas, explosões de cólera no palco e rebeliões de fãs, os membros do conjunto começaram a se desagregar. O líder e cantor foi alvo de processos judiciais, e "The Spaghetti Incident", a coletânea de versões de clássicos do punk, gerou críticas diversas e vendas decepcionantes.

Os integrantes da banda --do que restou dela-- reagruparam-se no Complex, um estúdio de Los Angeles, em uma grande sala de gravação, munida de uma mesa de sinuca e uma máquina de fliperama com um tema do Guns N' Roses, a fim de se prepararem para o novo álbum, que os executivos da Geffen esperavam lançar em algum momento do ano seguinte. Mas eles logo começaram a sofrer daquele mal que mostrou ser historicamente fatal para as bandas de rock: o tédio.

"Eles tinham dinheiro suficiente para não precisarem fazer nada", diz um analista antigo da banda, e uma das 30 pessoas envolvidas com o álbum que foi entrevistada para este artigo. Ele não quis que seu nome fosse revelado, assim como vários outros que assinaram uma cláusula de sigilo enquanto trabalhavam com Rose. "Não dava para colocar todos no estúdio ao mesmo tempo".

Rose nomeou a si próprio o líder do projeto, mas ele parecia não saber em que rumo liderar. Conforme disse recentemente Slash, o antigo guitarrista da banda, referindo-se ao estilo de composição do cantor: "Parecia uma ditadura. Não passávamos muito tempo colaborando. Ele se sentava em uma cadeira e ficava observando. Havia um refrão aqui, outro ali. Mas eu não sabia para onde a música rumava".

A Geffen também seguia em direção a um destino incerto: o seu fundador, David Geffen, se aposentou, e a sua parceira empresarial, a MCA Incorporation, foi vendida para a gigante do setor de bebidas Seagram, presidida por Edgar Bronfman Jr. Com todas essas mudanças vertiginosas, e com o antigo material do Guns N' Roses ainda responsáveis por milhões de novas vendas, os executivos resolveram deixar a banda em paz para que ela compusesse e gravasse por si própria.

No entanto, "Sympathy for the Devil", lançado como parte da trilha sonora de um filme, seria a última contribuição para o catálogo original da banda. Slash deixou o conjunto em 1996. O baterista Matt Sorum e o baixista Duff McKagan foram os próximos a pularem do barco. Isso fez com que, dos membros originais, só restasse Rose.

Mas em vez de começar algo novo, ele optou por manter o nome da banda e equipá-la com novos músicos. A Geffen não se sentia capaz de contrariar a vontade de Rose. A gravadora estava em uma situação difícil e apostava que os fãs ainda correriam para o cantor, ainda que este tivesse reconstruído a banda à sua volta.

E a Geffen tampouco estava em uma posição que a possibilitasse impulsionar Rose para frente. Em 1997, Todd Sullivan, que à época era um talentoso executivo da companhia, enviou a Rose uma amostra de CDs produzidos por diferentes artistas, e o encorajou a escolher um deles para trabalhar em "Chinese Democracy". Sullivan diz que recebeu um telefonema informando-o que Rose passara com o carro sobre os álbuns.

O cantor encorajou todos os membros da banda a gravarem suas idéias para rimas e refrões, em horas e horas de fragmentos sonoros que ele esperava processar e transformar em composições completas.

"A maior parte do material que ele tocou para mim consistia de simples esboços", recorda Sullivan. "Eu disse a ele: 'Olha, Axl, isso aqui é algo realmente grande e promissor. Por que você simplesmente não se esforça e termina algumas dessas músicas?'. Ele respondeu: 'Humm, me esforçar e terminar as músicas?'. No dia seguinte recebi um telefonema de Eddie - Eddie Rosenblatt, presidente da Geffen - me informando que eu estava fora do projeto".

No princípio de 1998, Rose transferiu a banda que havia montado para a Rumb Recorders, um estúdio de três salas de gravação no coração de San Fernando Valley, onde o Guns N' Roses haviam gravado parte da sua estréia de sucesso, "Appetite for Destruction".

A equipe transformou o estúdio em um playground para astros de rock: tapeçarias, luzes verdes e amarelas, equipamento computacional de última geração, e cerca de 60 guitarras sempre de prontidão, segundo pessoas envolvidas na produção.

Mas Rose não estava lá para diversão e jogos. "O que Axl queria fazer era o melhor disco já lançado. Era uma tarefa impossível. Dava para se trabalhar interminavelmente, que foi o que eles fizeram", relembra um especialista em gravações.

Enquanto tempo e dólares desciam pelo ralo, a pressão sobre a Geffen aumentava. A ausência de produções persistia, tornando-a mais dependente do que nunca dos seus roqueiros famosos. "O fato que salvaria a todos seria um álbum do Guns N' Roses. Mas este jamais saía", conta um especialista que não quis que o seu nome fosse revelado.

A gravadora pagou a Rose US$ 1 milhão para pressioná-lo a fazer o álbum, com a inusitada promessa de mais US$ 1 milhão caso ele entregasse "Chinese Democracy" até 1º de março do ano seguinte. A Geffen também ofereceu a um dos produtores recentemente contratados por Rose royalties extras caso o álbum fosse lançado antes desse prazo.

Mas ele jamais recebeu esse dinheiro. O produtor, cujo apelido é Youth (o seu verdadeiro nome é Martin Glover), começou visitando o cantor no salão da piscina da sua fechada mansão em Malibu, a fim de tentar ajudá-lo a se concentrar na composição. Mas tal colaboração não teve mais sucesso que as anteriores.

"Ele se esquivou, disse que 'não estava pronto'", conta Youth. "Rose estava bastante isolado. Não havia muita gente na qual ele podia confiar. Era muito difícil penetrar nos muros que ele construíra à sua volta".

Quem substituiu Youth foi Sean Beavan - um produtor que trabalhou anteriormente com ícones do rock como Marilyn Manson e Nine Inch Nails - e sob a sua orientação os fragmentos de rimas e refrões gravados pela banda começaram vagarosamente a tomar forma.

Mas os custos saíram de controle. A equipe alugou um conjunto de equipamentos especializados, por exemplo, por mais de dois anos - a um custo de centenas de milhares de dólares - para usá-lo talvez por 30 dias, segundo um profissional envolvido com a produção.

Rose aparecia esporadicamente, em algumas semanas apenas um ou dois dias. Em outras sequer dava as caras. "Era o caos desorganizado", conta essa mesma pessoa. "Nunca houve um sistema de produção em vigor. E, em meio a isso, havia sempre festas, diferentes computadores que Axl testava ou comprava. Houve períodos nos quais ficamos semanas sem gravar nada". Sucesso dos anos 90, banda está acostumada a bater recordes Danilo Fonseca

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