UOL Notícias Internacional
 

08/03/2005

Argentina revisita o palco das torturas da ditadura

The New York Times
Larry Rohter

Em Buenos Aires
A Escola Mecânica Naval resiste como uma lembrança silenciosa da tortura ao longo de uma das principais avenidas desta sofisticada capital, uma mancha permanente na consciência argentina. Por muitos anos, foi símbolo do medo, para onde prisioneiros políticos eram levados e nunca vistos novamente. Hoje, é um monumento de vergonha, apesar de a maior parte dos argentinos preferir evitá-lo ou ignorá-lo.

Nicolas Goldberg/NYT

Uma figura humana é fixada no portão da Esma, que foi palco de torturas no regime militar
Na última sexta-feira (4/3), entretanto, os portões da Esma, como é conhecida a escola, abriram-se para que um grupo de defensores de direitos humanos argentinos pudesse visitar o local com colegas americanos. O governo havia convidado os americanos a participarem do seminário "Memória, Verdade e Justiça", e uma visita à Esma, hoje fechada e silenciosa, foi considerada imprescindível.

Durante a ditadura militar, de 24 de março de 1976 até o fim de 1983, 340 instalações foram usadas como centros de detenção, de acordo com os cálculos do grupo de direitos humanos que documenta os abusos da época, Memória Aberta.

A Esma, porém, foi a maior e mais famosa das prisões clandestinas. Calcula-se que até 30.000 indivíduos, insurgentes ou críticos do governo militar, foram torturados e mortos depois de seqüestrados pelas forças de segurança do governo.

"Este é um lugar emblemático. Tem uma história para contar", disse aos visitantes americanos Cristina Fernandez de Kirchner, primeira dama e senadora argentina, durante a rara excursão.

O prédio onde a maior parte da tortura ocorria era o cassino dos oficiais e ainda mostra traços de sua elegância original. Os prisioneiros entravam pela porta principal e eram levados para as salas de tortura no subsolo por um corredor chamado de "Avenida da Felicidade".

Os visitantes na sexta-feira também puderam ver a sala usada como maternidade. Os bebês eram tomados das prisioneiras e dados às famílias de militares. No sótão, ocorriam algumas das piores torturas. Ali, um líder proeminente dos Montoneros, grupo guerrilheiro de esquerda, foi acorrentado a uma parede e morto por injeção letal.

"O que é impressionante em um lugar desses é como parece ordinário. Se você não soubesse o que se passou aqui, acharia que era apenas um prédio", disse Michael Posner, diretor executivo do Human Rights First, no meio da visita.

Outro aspecto surpreendente era a proximidade dos prisioneiros e seus algozes. Os guardas moravam a poucos metros das celas onde os prisioneiros eram mantidos em condições esquálidas. Os presos que eram levados para as sessões de tortura no sótão algumas vezes passavam pelos oficiais da marinha a caminho do almoço.

Kirchner disse que algumas prisioneiras casaram-se com oficiais que conheceram aqui. "É a síndrome de Estocolmo ao extremo", disse ela. "Um exemplo da condição humana que não tem explicação."

Ao todo, 5.000 pessoas passaram pelo complexo, que ocupa um campus arborizado de 17 hectares. Entre elas estava Ricardo Coqueto, 52, carpinteiro e ex-guerrilheiro, um de menos de 200 prisioneiros que sobreviveram. Ele reuniu coragem para participar da excursão.

Ele acredita que foi salvo porque "adquiriu habilidades especiais". Ele foi colocado para trabalhar na prensa, onde a marinha fabricava passaportes falsos, carteiras de identidade, credenciais de polícia e até fraudava moedas estrangeiras para seus agentes secretos: "Lembro-me de fazer libras esterlinas", disse ele.

Com ele, vieram dois de seus enteados, Maria Lucia, 30 e Luis Onofre, 28, que passaram várias semanas presos aqui quando crianças. Coqueto conheceu a mãe dos dois, Ana Maria Soffiantini, nessa prisão em 1977. Depois, se casaram.

Sua enteada, que disse ter vagas lembranças do centro de detenção, onde seu pai biológico foi morto em 1976, caiu em prantos durante a visita. Luis ficou silencioso, mas disse que também estava emocionado. "Agora, finalmente sinto que também faço parte disso", disse ele.

A ditadura militar tentou esconder o que acontecia na Esma. Quando uma delegação da Organização dos Estados Americanos fez uma visita em 1979, os presos foram removidos para uma ilha, chamada de Silêncio, da Igreja Católica Romana.

A escola continuou sendo usada para treinamento militar até o ano passado, quando o governo designou o local como um "espaço para a memória". Na sala 23, alguém, presumivelmente o último residente, deixou essa mensagem a lápis na porta de um armário: "Não tínhamos nada a ver com o que aconteceu, mas, mesmo assim, peço perdão."

Agora que a administração do local foi transferida aos principais grupos de direitos humanos argentinos, eles não conseguem concordar sobre seu destino. Alguns querem um museu e um memorial simples e pequeno; outros, um complexo maior que possa incluir um centro de documentação e uma academia de direitos humanos. Alguns preferem que os prédios sejam destruídos e seja criado um parque, ou que fique como está, como local sagrado.

A chegada de americanos, especialmente de Sara J. Bloomfield, diretora do Museu do Memorial do Holocausto Americano, pareceu reacender o debate.

Enquanto o grupo passeava pelo local, uma representante do grupo das Madres da Plaza de Mayo --mães dos desaparecidos, que continuam chamando a atenção para a era-- pediu ao tradutor que lembrasse aos americanos que "esse é o lugar, não algum modelo ou criação".

Durante a visita, Bloomfield deu algumas idéias, como a de colocar no local um dos aviões usados para jogar os corpos dos prisioneiros no mar, a "transferência", como chamava a marinha. No entanto, a americana tomou o cuidado de fazer apenas comentários gerais.

"Eles têm uma enorme oportunidade e vantagem aqui, porque é um lugar genuíno", não uma montagem, disse ela. "Memória é um processo, então você quer algo que seja emocionalmente e intelectualmente envolvente, e um desafio moral às pessoas." Escola naval ainda desperta memória da violência do regime militar Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host