UOL Notícias Internacional
 

08/03/2005

Em Beirute, multidão exige saída de tropas sírias

The New York Times
Jad Mouawad*

Em Beirute
Dois dias após o presidente da Síria se recusar a dizer exatamente qual a extensão da prometida retirada das tropas, ele esclareceu um pouco mais qual é o seu plano nesta segunda-feira (7/3): no final de março, a Síria deslocará os seus soldados no Líbano para mais perto da fronteira. Mas ele não declarou publicamente um prazo para retirar as tropas do país.

Lynsey Addario/The New York Times

Manifestantes em Beirute protestam contra a presença militar da Síria em território libnanês
O presidente sírio, Bashar Assad, e o seu aliado libanês, presidente Emile Lahoud, disseram em um comunicado divulgado nesta segunda, após se reunirem em Damasco, que uma retirada dos 14 mil soldados sírios no Líbano terá que esperar pelas próximas negociações com um futuro governo libanês.

O anúncio ficou muito aquém das expectativas dos manifestantes no Líbano, assim como das exigências do presidente Bush e dos líderes europeus pela retirada total do aparato militar e de inteligência sírio do Líbano.

Em Beirute, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas na segunda-feira, no maior protesto desde a morte de Rafik Hariri, o ex-primeiro-ministro cujo assassinato três semanas atrás desencadeou manifestações semanais lideradas pelos oponentes da presença Síria no Líbano. Eles repetiram as acusações de que a Síria foi a responsável pelo assassinato.

A oposição eclética --composta de políticos cristãos, drusos e muçulmanos sunitas, embora, notavelmente, não conte com a presença de muçulmanos xiitas-- acredita que já marcou pontos preciosos contra a Síria e está ansiosa por usar essa vantagem antes das eleições parlamentares que ocorrerão em maio.

O anúncio feito na segunda-feira aumenta a probabilidade de que as tropas sírias ainda estejam no país quando os libaneses forem às urnas.

Mas os manifestantes se sentiram encorajados pela renúncia, na semana passada, do governo pró-sírio do primeiro-ministro Omar Karami, que deixou o cargo frente às manifestações de rua. A oposição, que acampou na principal praça de Beirute durante três semanas, já está se preparando para outra manifestação na próxima segunda-feira.

"Os sírios estão tentando ganhar tempo, e não creio que terão sucesso", afirma Samir Kassir, analista político libanês. "Isso foi algo obtido pela pressão conjunta das ruas e da comunidade internacional. É um primeiro passo na direção certa. É por isso que não podemos deixar que a pressão diminua agora".

Sob um céu azul e límpido, os manifestantes se reuniram ao meio-dia na Praça dos Mártires, no coração da capital libanesa, onde Hariri está sepultado junto com seis guarda-costas que morreram com ele. A multidão gritou: "Fora Síria!", e "Verdade, liberdade e unidade nacional", que se tornou o grito de guerra dos partidários de Hariri e de outros movimentos de oposição.

Acima da multidão, milhares de bandeiras vermelhas e brancas com o verde do emblema do Líbano, o cedro, eram agitadas em uma das mais poderosas manifestações de unidade nacional que o país já testemunhou desde a sua independência há mais de 60 anos.

"A grande maioria dos libaneses está em harmonia", diz Nassib Lahoud, legislador oposicionista. "Queremos a retirada das tropas sírias, queremos a verdade sobre quem ordenou o assassinato de Rafik Hariri, e queremos a renúncia daqueles responsáveis pela segurança no país".

Os manifestantes marcharam barulhentamente até o local do assassinato de Hariri, em frente aos principais hotéis internacionais da cidade. Quando a manifestação que seguia na frente chegou ao local, a cerca de 1,5 quilômetro, muitos manifestantes ainda saíam da praça em uma caminhada alegre e tumultuada, mas pacífica.

Os soldados sírios entraram no Líbano em 1976, um ano após o início da guerra civil no país. Embora o número de soldados tenha diminuído, após ter alcançado um ápice de 40 mil, a Síria não cumpriu o acordo Taif de 1989, que colocou um fim à guerra e exigiu a retirada dos sírios em dois anos. Muitos soldados ainda estão estacionados nas montanhas ao redor de Beirute, no norte do país, assim como na região de Bekaa, no leste.

Alguns soldados sírios foram vistos levantando acampamento nas imediações de Beirute e se retirando logo após o término da reunião em Damasco. Dirigindo caminhões e jipes de fabricação russa lotados de bens pessoais e utensílios domésticos, soldados sírios seguiram em comboios para Bekaa, a região que fica entre a cadeia de montanhas do Líbano e a fronteira síria.

Apesar das especulações por aqui de que a Síria começaria a retirada do Líbano em breve, o anúncio feito na segunda-feira ficou bem aquém da exigência manifestada pela Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, que pede a retirada imediata de todas as forças estrangeiras do Líbano.

O chanceler alemão Gerhard Schröder e o presidente francês Jacques Chirac disseram em uma declaração divulgada na segunda-feira que esperam que a Síria retire as suas tropas e serviços de inteligência do Líbano "completamente e o mais rapidamente possível".

Uma retirada traz o risco potencial da reabertura das rivalidades sectárias que flagelaram o Líbano no passado.

Isso foi algo que Assad enfatizou durante um raro discurso no parlamento sírio no último sábado. Ele observou que existem centenas de milhares de refugiados palestinos no Líbano e disse que o movimento de resistência libanês --uma referência ao Hezbollah, o grupo militante xiita rotulado como terrorista por Washington-- tem o direito de manter as suas armas. Ele advertiu também contra um acordo separado de paz entre Líbano e Israel, que não inclua a Síria.

Convocando os seus próprios simpatizantes para saírem às ruas, o Hezbollah deverá fazer uma manifestação maciça na terça-feira. O grupo, que conquistou vasto apoio aqui por ajudar a expulsar o exército israelense em 2000, tem se equilibrado entre os seus laços com a Síria e a crescente oposição popular à presença militar síria.

A marcha da segunda-feira foi a primeira desde o discurso de Assad no sábado, no qual este falou pela primeira vez sobre uma retirada Síria. Mas a fala do líder sírio enfureceu muita gente que achou que Assad desprezou o número de manifestantes. O que irritou especialmente alguns foi a observação de Assad de que os câmeras que filmaram as manifestações deveriam ter aberto o ângulo das imagens para demonstrar que os manifestantes eram na verdade poucos.

Isso gerou slogans criativos durante a passeata de segunda-feira. Todas as vezes que os manifestantes viam uma equipe de televisão, gritavam: "Abram o ângulo", ou "Bashar, não minta. Você não vê quantos nós somos?".

Eles debocharam também do presidente do Líbano, aliado incondicional da Síria e adepto da natação, gritando ritmicamente em árabe: "Oh, Lahoud, oh Lahoud, por que você não sai pela fronteira nadando?".

A manifestação da segunda-feira não poderia ter sido sequer imaginada há alguns meses, diz Mona, uma pintora que não quis divulgar o sobrenome por temer represálias.

"A comunidade internacional abandonou o Líbano, deixando o país nas mãos da Síria, a fim de manter a sua coalizão e libertar o Kuait", diz ela , referindo-se à Guerra do Golfo Pérsico de 1991. "Eles tinham petróleo e nós só tínhamos azeite de oliva. Mas agora estamos pedindo a mesma coisa. Todos aqui são a favor da independência do Líbano".

*Colaborou Hassan M. Fattah, no Líbano. CS da ONU determinou a retirada das tropas estrangeiras do Líbano Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h50

    0,27
    3,149
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h51

    0,28
    64.865,43
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host