UOL Notícias Internacional
 

09/03/2005

Gigantesco protesto no Líbano exige a permanência das tropas da Síria no país

The New York Times
Hassan M. Fattah

Em Beirute, Líbano
Centenas de milhares de manifestantes lotaram uma praça central em Beirute, nesta terça-feira (8/3), respondendo a uma convocação do grupo militante xiita Hezbollah. O movimento se opôs a uma resolução da ONU que pedia a retirada da Síria e o desarmamento da Hezbollah.

Norbert Schiller/The New York Times

Cerca de 400 mil pessoas manifestaram-se em Beirute contra a ingerência de EUA e de Israel
A multidão, que veio de ônibus de subúrbios do sul, foi um desafio à oposição do Líbano, que tentou provar que representava a maior parte dos libaneses. "Hoje, você decide o futuro da sua nação. Hoje, você responde ao mundo. Não querem dizer nada, essas centenas de milhares?" disse à multidão o líder da Hezbollah, xeque Hassan Nasarallah.

Foi a primeira vez em anos que o líder da Hezbollah, conhecida por sua habilidade de organizar grandes manifestações, aventurou-se para fora de seu reduto, acrescentando importância ao evento.

O comício numeroso elevou as tensões nas demonstrações políticas pelas ruas de Beirute, assumindo uma magnitude que não se via desde os anos 70.

Durante semanas, a Hezbollah permaneceu silenciosa enquanto a revolta crescia no Líbano. O grupo não chegou a defender a oposição, mas permaneceu relativamente neutra em seu apoio à Síria, que começou a transferir seus 6.000 soldados para o vale de Bekaa, no oeste do Líbano.

Na ausência da voz da Hezbollah, a oposição, composta de uma variedade de grupos cristãos, drusos e sunitas, dominou o cenário político, lutando para ser a voz da maioria do Líbano e exigindo a retirada síria, a renúncia dos chefes de segurança do Líbano e uma investigação independente da morte do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri.

No dia 28 de fevereiro, a oposição conseguiu forçar a renúncia do primeiro-ministro Omar Karami. O presidente pró-Síria do Líbano, Émile Lahoud, deve nomear um governo interino nos próximos dias.

No entanto, o Hezbollah saiu com toda força nesta terça em apoio à Síria e resistiu aos esforços crescentes de desarmar o partido, que mantém uma milícia de cerca de 20.000 homens.

"Vocês estão errados em seus cálculos no Líbano. O país não será dividido", disse Nasrallah, voltando suas palavras contra o governo Bush.

"O Líbano não é a Somália; o Líbano não é a Ucrânia; o Líbano não é a Geórgia", acrescentou.

O movimento de oposição, que cresceu dramaticamente após o assassinato de Hariri, atraiu elogios do governo Bush, que apontou para o movimento como uma história de sucesso da política americana de estímulo à democracia no Oriente Médio.

"A liberdade vai prevalecer no Líbano", disse o presidente Bush em discurso nesta terça-feira. "O povo americano está do nosso lado. Milhões na Terra estão do nosso lado."

Mas a escala da manifestação de hoje foi uma mensagem dramática.

O comício ocorreu na Praça Riyadh Al Solh, a poucos blocos da Praça dos Mártires, onde o movimento de oposição fez suas demonstrações nas últimas semanas. Oficialmente, foi patrocinado por 30 partidos políticos, inclusive a Falange Maronita, contra quem a Hezbollah lutou batalhas sangrentas durante a guerra civil.

Mas o comício era inteiramente da Hezbollah, completo, com cartazes bem produzidos, hinos, controle de multidão e infra-estrutura da polícia secreta para manter a paz.

"Quero mostrar aos americanos, aos franceses e à ONU que somos a maioria dos libaneses e que temos uma voz", disse Youness Ismail, 26, proprietário de restaurante no subúrbio. "Só o que fizeram foram promessas que nunca mantiveram, e agora estão tentando usar a comunidade internacional para voltar a nos ocupar."

Como a oposição, os manifestantes levaram bandeiras do Líbano e clamaram pela união nacional, ao mesmo tempo em que exigiram o esclarecimento da verdade por trás do assassinato de Hariri.

No entanto, o mar de pessoas também gritou contra a "interferência estrangeira" dos EUA e da Europa, carregou fotos do presidente da Síria, Bashar Al Assad, e cartazes declarando que os "EUA são a fonte do terrorismo".

A mensagem da oposição era em grande parte positiva, mas o Hezbollah incitou o medo de sabotagem israelense, de insegurança e divisão.

"Esqueça seus sonhos para o Líbano", disse Nasrallah aos líderes israelenses. "Não há lugar para vocês no Líbano."

A multidão também era claramente diferente daquela presente nos comícios da oposição, com a maior parte dos manifestantes reapresentando a classe operária xiita, diferente da classe mais alta predominantemente cristã da oposição.

O líder da oposição, Jibran Tiweini, editor do jornal libanês "An Nahar", insistiu que a manifestação era "uma festa de adeus e não uma demonstração de apoio à Síria".

"Se eles quisessem desafiar, teriam trazido as bandeiras amarelas do partido", disse ele. "Mas o Hezbollah não quer queimar suas pontes", acrescentou, "porque terá que voltar ao povo libanês, quando tudo estiver terminado".

Os manifestantes da oposição que vêm acampando na Praça dos Mártires expressaram frustração diante da manifestação da Hezbollah.

"Que vergonha. Estão levando bandeiras e retratos de líderes estrangeiros", disse Sanan Sanan. "São como nós --não querem interferência estrangeira dos EUA, de Israel ou da França. Mas nós também queremos colocar os sírios para fora." Hezbollah mostra sua força ao mobilizar a população mais pobre Deborah Weinberg

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