UOL Notícias Internacional
 

09/03/2005

Itália contesta a justificativa para o ataque à refém

The New York Times
Edward Wong

Em Bagdá
O ministro de Relações Exteriores italiano, Gianfranco Fini, questionou publicamente nesta terça-feira (8/3) o relato dos militares americanos sobre o ataque contra o carro que conduzia a refém italiana liberada para o aeroporto de Bagdá, matando o agente de inteligência italiano que tinha negociado sua liberação.

Horas mais tarde, o comando americano em Bagdá anunciou que estava abrindo uma investigação de alto nível sobre o incidente.

Fini enfatizou que os tiros foram um "acidente". Entretanto, disse ao Parlamento em Roma que os militares americanos tinham autorizado o agente italiano, Nicola Calipari, a viajar para o aeroporto, que o carro que levava os italianos não estava em alta velocidade, que não havia uma barreira óbvia na estrada e que o motorista não recebeu advertências dos soldados americanos antes de atirar.

"Certamente foi um acidente, um acidente causado por uma série de circunstâncias e coincidências", disse Fini. "Isso não impede, mas até mesmo obriga o governo a exigir que se esclareçam os itens nebulosos, que as responsabilidades sejam atribuídas e os culpados punidos."

A refém libertada, Giuliana Sgrena, 56, disse que os soldados podem ter aberto fogo deliberadamente sobre ela porque a Casa Branca publicamente se opôs a qualquer tentativa de negociação com seqüestradores no Iraque. Fini negou, dizendo que a afirmativa não tinha base.

As Forças Armadas americanas disseram que não tinham sido avisadas da passagem do carro dos italianos e que este não respondeu aos sinais dos soldados para que parasse, usando as mãos, luzes e tiros de advertência.

Na terça-feira, os militares anunciaram que montaram uma equipe liderada pelo general Peter Vangjel para fazer uma investigação subseqüente a que já foi conduzida no nível da divisão. O novo inquérito vai levar entre duas e três semanas. "O comando está trabalhando junto com a embaixada americana, e autoridades italianas foram convidadas a participar", disse em comunicado.

Os militares americanos também disseram na terça-feira que oficiais do Comando de Apoio estavam investigando a morte de um soldado búlgaro, sargento Gardi Gardev. O ministro de defesa búlgaro, Nikolai Svinarov, disse na segunda-feira que o soldado parecia ter sido morto no Sul do Iraque na sexta-feira por tiros que vieram da direção das tropas americanas.

Essa morte e a que envolveu Sgrena geraram questões sobre as regras de combate para soldados americanos no Iraque, especialmente em torno de barreiras e comboios em áreas freqüentadas por civis. Os soldados geralmente recebem instruções de advertir os veículos com as mãos e com tiros para o ar, antes de abrir fogo.

Mas a ameaça de carros-bomba deixa os soldados ariscos, freqüentemente confrontados com a escolha entre matar ou morrer, disseram os comandantes. Como resultado, muitos iraquianos inocentes foram mortos ou feridos por soldados que atiraram contra carros que chegaram perto demais dos americanos, mas as autoridades iraquianas e americanas dizem que não têm números específicos.

A violência que tirou 33 vidas iraquianas na segunda-feira continuou nesta terça, enquanto os insurgentes mataram duas autoridades iraquianas no coração da capital.

Às 7h30, o general Muhammad Issa Ahmed Al Khafaji, vice-diretor do escritório de imigração do Ministério do Interior, foi morto a tiros enquanto se dirigia ao trabalho, saindo de sua casa no oeste de Bagdá. Os assassinos chegaram em um carro azul e abriram fogo contra o veículo que conduzia o general, atingindo-o na cabeça e no peito e matando-o instantaneamente, segundo as autoridades.

Duas horas mais tarde, atiradores mataram Adel Abdul Kareem Ahmad, diretor geral do hospital Al Furat. Ahmad também foi atingido enquanto se dirigia ao trabalho, quando um carro se aproximou de seu Audi e os atiradores abriram fogo, disseram membros do Ministério do Interior.

O ministério também disse que 15 corpos sem cabeça foram encontrados na terça-feira, em uma antiga base militar, entre a cidade sagrada de Karbala e o reduto insurgente de Latifiya. Entre os corpos havia mulheres e crianças.

No entanto, foi o tiroteio envolvendo Sgrena que dominou as discussões entre as autoridades americanas no Iraque. O incidente ocorreu às 20h55 de sexta-feira, enquanto o carro que levava Sgrena e dois agentes de inteligência italianos se dirigia ao Aeroporto Internacional de Bagdá, apenas 35 minutos após a liberação da jornalista.

Em circunstâncias ainda não esclarecidas, soldados do 1º Batalhão, 69ª infantaria, abriram fogo contra o carro. O principal negociador italiano, Nicola Calipari, jogou-se contra Sgrena para protegê-la, sendo atingido por um ou mais tiros, segundo autoridades italianas.

Horas depois dos tiros, a 3ª Divisão de Infantaria, responsável pela segurança em Bagdá, divulgou um comunicado dizendo que os soldados tinham tentando "advertir o motorista para que parasse com avisos de mãos, luzes e tiros diante do carro."

Mas Fini, citando o testemunho do agente que dirigia o carro, disse que os italianos não viram uma barreira oficial. Ele disse que estavam a uma velocidade aproximada de 40 km/h e com as luzes do interior do veículo acesas, para que as pessoas pudessem usar o telefone celular. Quando fizeram uma curva, o carro foi iluminado por uma luz intensa, e mais do de uma metralhadora abriu fogo contra eles por cerca de 15 segundos, disse Fini.

Segundo o ministro, o agente de inteligência que sobreviveu ao ataque foi forçado a se ajoelhar na estrada, enquanto os soldados entendiam quem era. "Dois jovens americanos se aproximaram de nosso oficial e, desmoralizados, pediram desculpas repetidamente pelo acontecido", disse Fini.

Um alto membro do Departamento de Defesa disse na segunda-feira que dois Humvees estavam estacionados ao lado da estrada, mas que havia na estrada duas barreiras de tamanho indeterminado.

Calipari foi enterrado com honras na segunda-feira.

Apesar de Roma não ter feito menção de retirar seus 3.000 soldados do Iraque, o tiros de sexta-feira ressaltaram a falta de popularidade da guerra entre os italianos e do apoio politicamente perigoso do primeiro-ministro Silvio Berlusconi ao presidente Bush.

Em Bagdá, as principais facções políticas estavam envolvidas em discussões igualmente infinitas, mais de um mês depois das eleições que deveriam ter produzido um novo governo.

As negociações mais acaloradas ocorreram entre uma aliança de partidos xiitas e dois importantes partidos curdos. Azad Jundiani, porta-voz de Jalal Talabani, curdo nomeado à presidência, disse em entrevista que os curdos e xiitas tinham concordado, em princípio, com todas as questões principais.

Isso inclui ter Talabani como presidente e o nomeado xiita, Ibrahim Al Jaafari, como primeiro-ministro, e aceitar as exigências curdas em relação à milícia curda, poderes federais e a administração da cidade petrolífera do Norte de Kirkuk.

No entanto, os detalhes precisam ser definidos, e é nos detalhes que curdos e xiitas estão se desentendendo. Os curdos insistem que o islã seja citado na nova constituição apenas como uma fonte de leis, não a única fonte, como políticos xiitas querem, disse Jundiani.

*Colaboraram Jason Horowitz, de Roma, e Warzer Jaff, de Bagdá. EUA mantêm versão de alta velocidade do carro de Giuliana Sgrena Deborah Weinberg

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