UOL Notícias Internacional
 

09/03/2005

Livro retrata ameaçada biodiversidade amazônica

The New York Times
William Grimes

Em Nova York
A remota Amazônia Ocidental é, em todos os sentidos, o fim da linha. Para os brasileiros paupérrimos que buscam uma nova vida, ela oferece uma última chance de sobrevivência econômica. Para as poucas tribos indígenas sobreviventes da região, é uma terra nativa que se desvanece, desmatada e queimada por fazendeiros, seringueiros e criadores de gado.

Para uma quantidade inumerável de espécies de flora e fauna, a Amazônia Ocidental brasileira se constitui em uma reserva em constante processo de encolhimento na qual a humanidade e a natureza disputam um jogo cruel.

Ela é também de uma beleza estonteante e de uma profusão chocante, um paraíso de biodiversidade onde os filodendros crescem até à altura de um homem, as aranhas podem chegar ao tamanho de um prato e, após a chuva, é possível ouvir o estiramento e o recurvar das árvores cecropia, de grandes folhas, enquanto crescem. É uma terra de maravilhas, esplendidamente descrita e comoventemente evocada pelo botânico David G. Campbell em "A Land of Ghosts" ("Uma Terra de Fantasmas").

Campbell fez a longa e lenta jornada de canoa até as cabeceiras do Rio Juruá, próximo à fronteira peruana, durante mais de 30 anos. Trabalhando com uma equipe brasileira, ele mapeia e cataloga penosamente as espécies de plantas que crescem em quadrados perfeitos de 100 metros de lado, na esperança de explicar aquilo que chama de "um dos maiores e mais persistentes enigmas da natureza": como as várias espécies da Amazônia evoluíram e como conseguiram coexistir.

Foi uma mudança drástica de cenário para Campbell, que, em "The Crystal Desert: Summers in Antarctica" ("O Deserto de Cristal: Verões na Antártida"), explorou uma terra "onde forma e luz são destiladas em umas poucas e evocativas frases". A Antártida, escreve ele, é um "haikai biológico".

A Amazônia, ao contrário, esgota a imaginação e exaure os recursos da linguagem. Apenas um dos quadrados de Campbell contém 20 mil árvores individuais pertencendo a cerca de 2.000 espécies, três vezes o número de espécies em toda a América do Norte. E cada árvore é um mundo próprio, um sistema interdependente de liquens, samambaias, flores, fungos, répteis e mamíferos.

Por onde começar?

Campbell pergunta retoricamente. Bem, por que não pelo assustador caititu-de-beiço-branco, letal e do tamanho de um cão de porte médio? Os seus caninos achatados e semelhantes a tesouras causam a morte por retalhamento. Como gangues da selva, eles andam em manadas, estalando as presas ameaçadoramente. Eles também são dotados de um enorme espírito de equipe. Se um deles for ferido, os outros cercam o atacante. Se este for um ser humano, os caititus cortam-lhe o tendão de Aquiles.

O caititu é apenas um dos vários personagens memoráveis delineados com precisão por Campbell, cujo hábito de fazer observações de perto e com paciência, e o luxuriante sentido de linguagem fazem dele um maravilhoso escritor da natureza.

Ele possui também uma visão acurada, mas os seus sentidos de audição e olfato são ainda mais desenvolvidos, sendo capaz de perceber a "halitose" de um boto-cor-de-rosa ou a "tosse latida" de um rato espinhoso. É enervante ler que um grito longo, e quase humano, no meio da noite, é emitido por um sapo das árvores sendo engolido vivo por uma cobra.

O medo aguça os sentidos. "Aprendi que ser caçado é se sentir vivo", escreve Campbell. "Realmente não dá para entender o local até que este se torne malévolo, de forma que observar os seus detalhes e nuances se torna uma questão de sobrevivência".

Há momentos, porém, em que essa malevolência dá lugar a uma espécie de generosidade. Quando dezenas de pequenos carrapatos aderem à pele do autor, este se banha no rio e, inesperadamente, as piabas se agrupam e começam a remover os invasores com "milhares de pequeninos dentes, abençoados e afiados".

A necessidade de descrever é capaz de fazer com que aflore o melhor de Campbell, que às vezes carrega nas suas cores. Ele dá à língua inglesa um tratamento rigoroso, fazendo com que o leitor corra ao dicionário após topar com palavras raras como "vicariant" (aquilo que se desenvolve por fragmentação do ambiente), "stridulate" (que trila) e "flocculent" (feito de flóculos).

Não é comum encontrar o vocábulo "urticating" (que produz coceiras) duas vezes em um espaço de 25 páginas, ou uma sentença como esta: "Às vezes o tambaqui aguardará sob uma seringueira prenhe, procurando ouvir o barulho feito pelo fruto aberto". Ele fornece, ao final do livro, um glossário de nomes de espécies e de termos em português, algo que ajuda.

A língua significa tudo para Campbell. Como botânico, o seu negócio é dar nomes às espécies, e lamenta a falta de palavras nativas para os pássaros, flores e insetos da Amazônia. Nas suas viagens, ele fala com Dona Ausira, integrante da tribo nokini, expulsa das suas terras, e uma das poucas pessoas que ainda se lembra da língua nativa, e lhe pede que pronuncie em voz alta as palavras em nokini para peixe e pássaro, sabendo que pode ser a última pessoa na face da terra a ouvi-las.

Ele suspeita que haja uma conexão entre a falta de linguagem e a destruição da floresta por forasteiros. "É difícil amar um local que não está definido em palavras e que, portanto, não pode ser entendido", escreve. "E é fácil abrir mão de algo para o qual não existem palavras, algo que nunca se soube existir".

Miséria humana

Se a floresta parece sitiada, os seus habitantes humanos não parecem estar em situação muito melhor. Eles têm o poder de destruir, mas não de domar.

Subindo o rio, Campbell conhece os sobreviventes de tentativas passadas de colonização e exploração: os miseráveis seringueiros trabalhando para latifundiários em um sistema feudal; os agricultores mal adaptados do leste brasileiro que esperam tirar o sustento de um solo que é rico em plantas raras e extravagantes, mas pobre quando se trata de produção agrícola. É uma viagem assombrosa pela miséria humana.

O Amazonas, tão rico em espécies de plantas e animais, tem sido cruel para com o homem, seu principal algoz. Não se sabe quem vai vencer, mas a floresta está desaparecendo rapidamente. Em "A Land of Ghosts", Campbell oferece aquilo que parece ser o último e prolongado olhar de um apaixonado pela floresta.

  • Nota de publicação:

    "A Land of Ghosts: The Braided Lives of People and the Forest in Far Western Amazonia" (Uma Terra de Fantasmas: As Vidas Entrelaçadas de Povo e Floresta no Extremo Oeste da Amazônia, de David G. Campbell. Ilustrado, 269 páginas. Editora: Houghton Mifflin. Preço: US$ 25. Botânico descreve a riqueza natural em meio à pobreza humana Danilo Fonseca
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