UOL Notícias Internacional
 

10/03/2005

Novo chefe rejuvenesce atuação da GM no Brasil

The New York Times
Todd Benson

Em São Caetano do Sul
Desde que assumiu a General Motors no Brasil há pouco mais de um ano, Ray G. Young deu à indústria automobilística do país muito o que falar.

Paulo Fridman/The New York Times

Ray G. Young motivou os funcionários, concentrou foco nas exportações e fez a GM produzir todos os tipos de automóveis
Em outubro, Young se tornou o astro improvisado da feira do automóvel de São Paulo, quando dançou entusiasticamente a canção "All Right Now" de Paul Rodgers enquanto a GM exibia seus veículos mais recentes. E no mês passado, a imprensa brasileira publicou fotos dele experimentando alguns passos de samba na comemoração dos 80 anos da GM no país.

Mas sua queda por dança não é a única coisa que está chamando a atenção. Com sua energia jovem e estilo de administração mãos na massa, o presidente de 43 anos tem ajudado a injetar vida em uma operação deficitária.

No ano passado, apesar de a unidade não ter dado lucro, ela subiu pela primeira vez ao topo do volátil mercado automotivo do Brasil em volume de vendas, aumentou agressivamente as exportações e se aproximou de dar lucro --ao mesmo tempo em que gerava mais empregos.

Para a GM, a montadora Nº1 do mundo, esta recuperação no Brasil, seu sexto maior mercado, tem sido um ponto positivo enquanto a empresa se desvencilha de uma aliança que azedou com a Fiat da Itália e continua a atrofiar em seus maiores mercados, os Estados Unidos e a Europa.

Ainda assim, os números de vendas no Brasil caíram em janeiro, e a GM caiu abruptamente para o terceiro lugar lá, atrás da Volkswagen e da Fiat, respectivamente. A Ford Motor Company, que mantém tradicionalmente o quarto lugar no Brasil, se manteve firme em tal posição.

"Claramente a participação de mercado em janeiro foi decepcionante", disse Young. "No momento, ela nos coloca um pouco no buraco em 2005, mas estou confiante de que nos recuperaremos." Os números de vendas para fevereiro mostraram a GM já se aproximando novamente de suas rivais.

Parte do sucesso da GM aqui em 2004 foi impulsionado pela forte recuperação econômica do Brasil, que ajudou a atrair os consumidores para as revendas pela primeira vez em anos. As vendas de automóveis no país subiram 10,5%, para 1,6 milhão de veículos, com todas as grandes montadoras obtendo fortes ganhos.

Todavia, muitos analistas da indústria disseram que Young também merece muito crédito pela recuperação da General Motors do Brasil.

"Ele trouxe um senso de propósito para a General Motors que eles não pareciam ter antes", disse Ricardo Durazzo, vice-presidente da firma de consultoria A.T. Kearney em São Paulo. "Ele é carismático e uma pessoa simpática", acrescentou Durazzo, qualidades importantes no Brasil.

Em uma entrevista na sede da empresa aqui em São Caetano do Sul, um centro industrial fora de São Paulo, Young disse: "Quando eu cheguei aqui, era uma organização que estava um pouco cansada. Ela passou por muitos anos de entrincheiramento, corte de custos, para deter a sangria financeira. Então uma de minhas principais prioridades quando aqui cheguei foi tentar recuperar o moral".

Ele chegou ao Brasil com 18 anos de GM em sua bagagem, toda a sua carreira profissional. Filho de imigrantes chineses no Canadá, Young entrou para a unidade canadense da GM em 1986, após receber seu MBA pela Universidade de Chicago, e rapidamente escalou a escada corporativa.

Ao longo dos anos, ele ocupou postos em três continentes, passando grande parte de seu tempo no setor financeiro, contabilizando números até recentemente em Detroit, como diretor financeiro chefe da GM da América do Norte.

Aqui no Brasil, onde ele sucedeu Walter Wieland, um executivo mais sóbrio cuja direção coincidiu com a desaceleração do mercado automotivo, Young buscou mobilizar suas tropas em torno de dois objetivos: conquistar a liderança do mercado e se tornar lucrativo.

Ele começou distribuindo mensalmente levantamentos para todos os funcionários, incluindo operários de fábrica, para que todos pudessem acompanhar a performance da empresa. Ele também começou a realizar cerimônias para agradecer publicamente aos funcionários pelo seu trabalho. A força de trabalho respondeu na mesma moeda; em uma recente caminhada por uma fábrica, os trabalhadores o paravam para pedir autógrafo.

"Eu tive a chance de trabalhar ao redor do mundo, mas uma coisa sobre o Brasil é que você precisa apelar para as emoções", disse Young. "É impressionante o que acontece quando as pessoas se sentem orgulhosas de trabalhar para a empresa."

A Volkswagen e a Fiat há muito tempo disputam a liderança no Brasil. Mas no primeiro ano de Young no cargo, a GM ultrapassou ambas para terminar 2004 como líder de mercado, com 23,1% do mercado automotivo do Brasil.

As exportações da GM a partir do Brasil, uma parte crescente de seus negócios aqui, também cresceram em 2004, para US$ 1,6 bilhão, de US$ 1,2 bilhão em 2003 e apenas US$ 900 milhões em 2002. Como outras grandes montadoras multinacionais, que compõem todo o mercado automotivo daqui, a GM está cada vez mais usando o Brasil para produzir veículos de baixo custo para outros mercados emergentes, incluindo Argentina, México e África do Sul.

Apesar de a empresa não dividir os resultados financeiros por país na América Latina, Young disse que a GM reduziu suas perdas no Brasil em mais de 60% em 2004 e obteve um lucro operacional no quarto trimestre.

Isto ajudou a divisão da GM da América Latina, África e Oriente Médio a ganhar US$ 85 milhões no ano passado, após perder US$ 331 milhões em 2003. Neste ano, Young espera que a GM obtenha seu primeiro lucro líquido no Brasil desde 1997.

Recuperação

Ainda assim, a recuperação no Brasil não foi isenta de controvérsia.

Alguns analistas da indústria dizem que a montadora ganhou a liderança do mercado apenas porque as revendas da GM pré-registraram novos carros em dezembro antes de terem sido vendidos de fato, uma prática comum entre os revendedores no Brasil.

A GM vendeu meros 15.796 veículos em janeiro de 2005, uma queda em relação a 44.557 em dezembro e 23.833 em janeiro de 2004, segundo a associação brasileira dos fabricantes de automóveis. (Em comparação, as vendas da Volkswagen caíram de 36.120 em dezembro para 25.927 em janeiro, enquanto as da Fiat caíram de 37.468 para 24.647.)

"Por que os números caíram tanto?" disse Joel Leite, que é dono de um site chamado Autoinforme, que acompanha o setor automotivo do Brasil. "Porque os revendedores da GM venderam carros em janeiro que já tinham sido registrados como vendidos em dezembro." Ele acrescentou que a prática, apesar de desaprovada, não é ilegal.

Young negou qualquer registro antecipado ou inflação das vendas de fim de ano, dizendo: "Nós não fazemos isto." Ele atribuiu a má performance da empresa em janeiro, na fraca temporada de verão daqui, a um erro de cálculo que levou a uma queda nas vendas pela Internet e direto da fábrica.

A GM transferiu quase todos os seus veículos para os pátios das revendas em dezembro, disse ele, restando muito poucos para serem vendidos pela Internet e para atrair os consumidores no mês seguinte.

As vendas da GM se recuperaram em fevereiro, saltando em 6.823 veículos em comparação ao mês anterior, para 22.619. Enquanto isso, a Fiat e a Volkswagen aumentaram as vendas em apenas 2.446 e 854 veículos, respectivamente, em comparação a janeiro.

A matriz parece confiante de que 2004 não foi um acaso.

Ela está investindo US$ 240 milhões para aumentar a capacidade da fábrica da GM em Gravataí, no Estado do Rio Grande do Sul, onde ela pretende criar 1.500 novos empregos até o final de 2006.

Detroit anunciou recentemente planos para investir cerca de US$ 192 milhões para desenvolver uma nova versão de seu sedã Chevrolet Vectra, na fábrica de São Caetano, para os mercados doméstico e de exportação. A GM já é a única montadora no Brasil que está oferecendo modelos para todos os segmentos do mercado, de seu compacto Celta de grande venda à popular minivan Meriva.

Desafios da economia brasileira

Ainda assim, obstáculos aguardam todas as montadoras daqui.

Os impostos sobre as vendas de veículos no Brasil, cerca de 30%, é o dobro do que os de outros mercados emergentes, como a China, forçando a elevação do preço sobre carros novos em um país onde o salário mínimo é de menos de US$ 100 por mês.

As taxas de juros estão entre as mais altas do mundo, tornando o financiamento ao consumidor quase inviável. Os fabricantes de autopeças também têm acesso limitado ao crédito, e isto interfere a cada ano na produção. E a moeda brasileira, o real, se valorizou nos últimos meses para o nível mais forte em quase três anos, comendo parte das margens de lucro dos exportadores.

Young e seus concorrentes estão fazendo lobby para que o governo reduza o impostos sobre veículos e reduza as taxas de juros, e também pela criação de linhas de crédito especiais para pequenos fabricantes de autopeças.

"É um lugar difícil para vender carros e ganhar dinheiro", disse Young. "Você precisa ter pés de valsa." Ray G. Young está por trás da conquista da liderança do mercado George El Khouri Andolfato

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