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10/03/2005

Parlamento libanês reelege premiê aliado à Síria

The New York Times
Jad Mouawad

Em Beirute
Nove dias após ter sido obrigado a renunciar devido à pressão exercida por oponentes da ocupação síria, o primeiro-ministro libanês pró-Síria, Omar Karami, foi reeleito para o cargo pelo parlamento libanês.

Lynsey Addario/The New York Times

Opositores da presença síria agitam bandeiras do Líbano em protesto contra reeleição do premiê
Karami foi escolhido por 71 deputados, de um total de 126, segundo a rede de televisão Corporação de Broadcasting Libanesa. O presidente, Emile Lahoud, precisa acatar a decisão do parlamento --que é dominado por deputados pró-Síria-- e o nomeará nesta quinta-feira (10/03).

A nomeação de um aliado da Síria enfureceu aqueles que procuravam o fim da influência de Damasco no Líbano e fez com que o sistema político mergulhasse em profunda crise.

Membros da oposição no parlamento disseram que não se aliarão a um governo que não atendeu às suas demandas, como a demissão dos chefes de segurança libaneses e a total retirada das tropas sírias.

As eleições parlamentares estão marcadas para maio, mas como a responsabilidade pela condução do processo eleitoral ficou a cargo de um governo completamente favorável à Síria, as acusações de impropriedade e desvirtuamento devem criar ainda mais tensão.

Dezenas de milhares de libaneses têm realizado manifestações desde o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, em 14 de fevereiro, e pedido a retirada das tropas sírias. Os protestos levaram à renúncia de Karami na semana passada e fizeram com que o presidente sírio, Bashar al-Assad, dissesse que começará a retirar as suas tropas do Líbano, país no qual entraram pela primeira vez em 1976.

Mas a Síria parece agora ter recuperado a iniciativa, fortalecida por uma grande manifestação pró-Damasco no centro de Beirute, na última terça-feira (8), liderada pelo Hezbollah, o grupo muçulmano xiita militante.

"Isso será visto como um tapa na face da oposição", diz Michael Young, analista político em Beirute. Os Estados Unidos e a Europa têm aumentado a pressão sobre a Síria para que esta retire os seus 14 mil soldados do Líbano desde que Assad impôs um aumento de três anos do mandato presidencial de Lahoud.

A medida causou a renúncia de Hariri como protesto, em outubro, e a sua substituição por Karami, que liderava um governo composto de ministros pró-Síria.

As tropas sírias começaram a se retirar das regiões costeiras e de algumas montanhas em torno de Beirute, a fim de se reagruparem na região de Bekaa, uma vasta planície entre as Montanhas Libanesas e a fronteira Síria. Mas uma retirada completa ficou dependendo de negociações com um novo governo.

Em Washington, o presidente Bush criticou os planos da Síria, chamando-os de "meias medidas". Ele repetiu que a Síria precisa retirar todos os seus oficiais de inteligência e soldados, atendendo a uma das principais exigências da oposição, antes das eleições de maio.

Tão logo o presidente libanês nomeie Karami, este montará um gabinete que funcionará até a eleição. Os seus aliados dizem querer construir um governo de unidade nacional com a oposição.

Se a oposição não tomar parte, somente os ministros pró-Síria serão responsáveis pela organização e supervisão das eleições. Eles serão também responsáveis por estabelecer um prazo para a retirada Síria. Com certeza surgirão tensões com relação a essas questões.

A oposição --construída em torno de um frágil bloco de deputados, incluindo partidários cristãos, drusos e sunitas de Hariri-- também exigiu uma investigação internacional independente sobre os assassinatos como condição para a sua participação em qualquer novo governo.

"Em maio haverá eleições, e queremos a retirada das tropas e dos serviços de inteligências sírios antes disso", afirmou em Bruxelas, na quarta-feira (9), Walid Jumblatt, um líder oposicionista, após renomados oposicionistas libaneses terem se reunido com Javier Solana, o representante da União Européia para assuntos estrangeiros e de segurança nacional.

Líderes da oposição querem que um governo transitório de tecnocratas prepare as eleições. E se a oposição, que conta com cerca de 50 deputados no parlamento, não quiser tomar parte em um governo de unidade nacional?

"Bem, nós não nos suicidaremos", diz Nabih Berri, líder pró-Síria no Parlamento.

Nizar Hamzeh, professor de ciência política da Universidade Americana em Beirute, diz: "Existem dois campos, e eles estão se tornando cada vez mais polarizados. O sistema político libanês pode administrar a retirada Síria se todas as facções encontrarem pontos em comum. Mas, sem um consenso, o Líbano é incapaz de lidar com um vácuo de poder".

Essa é a terceira vez que Karami, membro de uma proeminente família muçulmana sunita, é chamado a liderar o governo. Nas duas vezes anteriores, ele renunciou devido a protestos de rua, a primeira vez em 1992, após reformas econômicas impopulares.

Desde que renunciou em 28 de fevereiro, ele tem estado à frente de um governo provisório, mas permanece em silêncio. Karami não falou na quarta-feira.

Na manhã da sua renúncia na semana passada, ele descartou qualquer possibilidade de deixar o cargo, mas mudou de idéia em meio a um debate no parlamento no qual deveria ser votada uma moção de confiança em seu favor.

Em vez disso, ele desabou antes da votação, durante os protestos em Beirute e discursos acusatórios no parlamento por parte de Bahia Hariri, irmã do político assassinado, e Marwan Hamade, líder oposicionista que sobreviveu ao ataque com um carro-bomba em outubro do ano passado.

À época, Karami disse estar renunciando "devido à preocupação com a possibilidade de o governo se tornar um obstáculo ao bem do país". A medida pareceu surpreender até mesmo Berri, o líder do parlamento, que podia ser ouvido a dizer: "Nada sei sobre isso. Deveriam me ter dito antes".

Mas a decisão de renomear Karami é em parte um reflexo do vazio político entre os políticos sunitas após a morte de Hariri. Segundo a constituição, o primeiro-ministro precisa ser um sunita, o presidente um cristão maronita e o líder do parlamento um xiita.

"A decisão parece absurda, e até kafkiana", diz Joseph Samaha, editor-chefe do jornal de Beirute "Al Safir". "Mas a morte de Hariri gerou um grande vazio. Infelizmente, restaram poucas pessoas". Morte do ex-líder Hariri deixa vácuo de poder que favorece os sírios Danilo Fonseca

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