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11/03/2005

Clarice Lispector é enigmática e pode ser viciante

The New York Times
Julie Salamon

Em Nova York
Quando Gregory Rabassa fala sobre Clarice Lispector, fica evidente que sua paixão por ela não é puramente literária. "Aqueles olhos azuis, saídos da 'A Montanha Mágica' de Thomas Mann", ele suspirou, durante uma recente entrevista. "Ela era tão bonita."

Olga Borelli/Center for Jewish History/NYT

Imagem não datada da escritora, uma das maiores figuras da literatura brasileira
Rabassa é um renomado tradutor, de Gabriel Garcia Márquez, Jorge Amado e Mario Vargas Llosa --e de Lispector, que se tornou, em meados do século 20, uma das escritoras mais influentes do Brasil, descrita como a Kafka da ficção latino-americana.

Suas obras foram adaptadas em filme e dança e ela é famosa nos círculos literários.

Mas ela é quase desconhecida fora deles, particularmente nos Estados Unidos, onde todos os seus livros combinados vendem poucas milhares de cópias por ano, principalmente em cursos de estudos latino-americanos nos campi universitários.

Após sua morte por câncer em 1977, aos 56 anos (mais ou menos), ela adquiriu a mística de uma personagem que poderia ter criado: uma bela mulher que era tão intensa, filosófica, idiossincrática, trágica --e obscura em fatos mundanos como sua data de nascimento exata. Como seu estilo, que é duro e pungente, mas também intelectual e abstrato, ela é difícil de definir.

Rabassa discutirá a enigmática Lispector e sua obra neste domingo (13/03) em Nova York, no Centro da História Judaica, juntamente com Earl Fitz, um professor de literatura comparada da Universidade Vanderbilt.

Em seu livro de memórias, "If This Be Treason", que será lançado no próximo mês pela New Directions, Rabassa, que nasceu em Yonkers, Nova York, em 1922, descreve seu primeiro encontro com Lispector, 40 anos atrás, em uma conferência de literatura brasileira no Texas. "Eu fiquei pasmo ao conhecer aquela rara pessoa que se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf", ele recorda.

Lispector era rara de outras formas. Ela nasceu na Ucrânia de pais judeus, mas imigrou ainda bebê para o Brasil. Sua mãe morreu quando ela tinha 9 anos. Apesar de ela e suas duas irmãs mais velhas terem sido criadas como judias, ela se identificava como brasileira e considerava o português a língua de sua alma.

Por anos ela foi esposa de um diplomata, viajando pelo mundo até que o casamento acabou e ela voltou ao Brasil com os dois filhos do casal. Ela escreveu uma íntima coluna de jornal, mas considerava a si mesma como reclusa. Sim, ela era bonita, mas depois ficou marcada pelas queimaduras de um incêndio provocado enquanto fumava um cigarro na cama.

Quando ela morreu ela já tinha escrito nove romances, oito coleções de contos, quatro obras para crianças e uma tradução para o português do romance "O Retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde. Lispector se engalfinhava com as contradições enquanto buscava por nada menos que o significado essencial da existência humana. Mas para ela, os fatos básicos eram igualmente esquivos.

"Ela era uma mentirosa incorrigível", disse Fitz, um ex-aluno de Rabassa, que disse que ficou obcecado pela escritora e sua obra desde que leu seu romance "A Maça no Escuro" na primavera de 1971. Ele dedicou grande parte de sua carreira acadêmica a Lispector, tendo escrito dois livros sobre ela, e agora está trabalhando em um terceiro na qual ela aparece de forma proeminente.

"Ela queria ser tratada como uma escritora apesar de fingir que não era uma profissional", disse ele. "Ela disse coisas diferentes para diferentes pessoas sobre em que cidade vivia e quando nasceu. Ela usava muitas máscaras, e quando ela retirava uma você pensava que ela estava revelando algo, mas ela estava apenas revelando outra máscara."

Esta incapacidade --ou recusa-- de estabelecer uma única identidade está refletida na obra de Lispector, que fervilha de vida mas oferece poucas resoluções. Seus personagens são na maioria mulheres de classe média lutando com casamentos infelizes, casos amorosos frustrados, crianças de gênio forte, ambição reprimida, ambigüidade sexual. "Seus personagens carecem de um certo tipo de coerência e mesmo quando apresentam coerência, isto não leva à felicidade", disse Fitz.

Ela também podia ser bastante engraçada, mais claramente em suas crônicas, que ela publicava na edição de sábado do "Jornal do Brasil", de agosto de 1967 até dezembro de 1973. (Uma boa amostra está disponível em inglês em "Selected Cronicas", publicado pela New Directions e com tradução de Giovanni Pontiero.)

Este gênero é uma especialidade brasileira, uma coluna de jornal que permite ampla latitude a poetas e escritores. Eles podem escrever uma espécie de diário em uma semana, um ensaio na próxima, uma história ou simplesmente um pensamento aleatório. Pense neles como blogs literários, mas impressos em jornais.

Lispector começou a escrever crônicas para ganhar dinheiro, mas também floresceu nesta forma idiossincrática, que promoveu profunda reflexão assim como divertidos comentários inventivos sobre as convenções sociais e relações familiares.

"Quando mães de descendência russa começam a beijar seus filhos, em vez de ficarem contentes com um beijo elas querem lhes dar 40", ela escreveu. "Eu tentei explicar isto para um de meus filhos, mas ele me disse que eu estava apenas procurando por uma desculpa para justificar todos aqueles beijos."

Tais colunas de jornal freqüentemente ofereciam aos seus leitores algo mais potente, tão estimulante quanto o café brasileiro. As imagens de Lispector podiam ser intensas, místicas e freqüentemente violentas, parecendo às vezes como delírios brilhantes de uma louca. Uma de suas crônicas mais curtas, pelo menos como reproduzida no livro, foi chamada de "Desafio aos Analistas". A história toda é assim: "Sonhei que um peixe tirava as roupas e ficava nu".

Judaísmo

Olga Borelli/Center for Jewish History/NYT

O nome de Macabéa, protagonista de "A Hora da Estrela", talvez seja a maior referência à origem cultural da autora
Talvez seja um paradoxo adequado para esta escritora paradoxal ser apresentada pelo Centro da História Judaica, dada sua aparente ambivalência em relação à religião de sua família.

Os Lispectors foram não para o sul do Brasil, onde a maioria dos judeus se estabeleceu, mas para o nordeste, a região mais pobre do país, se mudando para o Rio de Janeiro apenas quando Clarice tinha 12 anos.

Seus pais falavam iídiche e ela freqüentou a escola hebraica, mas as muitas referências espirituais em seu trabalho tendem a ser cristãs ou sem denominação. Ela viveu com seu marido diplomata na Europa logo após a Segunda Guerra Mundial, mas evitou referências ao Holocausto.

"Ela não negava ser judia, mas não o promovia", disse Moacyr Scliar, o romancista judeu brasileiro cuja obra tem lidado explicitamente com a diáspora judaica. "O motivo para isto ter acontecido ainda é assunto de discussão aqui no Brasil."

Falando por telefone, Scliar especulou sobre possíveis motivos para a ausência de personagens e temas judeus na obra de Lispector. "Naquela época não havia anti-semitismo no Brasil, mas alguma rejeição a estrangeiros, não apenas em relação aos judeus, mas também aos italianos, alemães e russos", disse ele. "Além disso, ela era casada com um diplomata. Não era muito bom para este marido de Clarice ser casado com uma mulher judia que não era brasileira."

Mas Scliar lembrou de uma conversa que teve com Lispector pouco antes de ela ir à uma emissora de televisão para uma entrevista. "Eu era muito mais jovem que ela, mas ela conhecia meu trabalho e me perguntou sobre minha literatura, meu judaísmo", disse ele. "Eu lhe disse que gostava de escrever sobre temas judeus e que não me sentia humilhado ou inferior por causa disto. Ela disse: 'Quem me dera pudesse escrever sobre estes assuntos'. Mas ela não explicou o que quis dizer com aquilo."

Em seu último livro, um romance chamado "A Hora da Estrela", Lispector batizou sua personagem principal Macabéa, que muitos estudiosos acreditam ser uma referência aos macabeus, os ferozes guerreiros judeus celebrados por derrotarem os sírios helenizados.

A Macabéa de Lispector está longe de ser heróica segundo os padrões bíblicos. Ela é uma mulher jovem e pobre do sertão do Brasil, que vai para as favelas do Rio com grandes sonhos mas que não consegue evitar o tipo de destino sombrio que Lispector escreveu para tantas de suas personagens.

Mas para Lispector, que morreu no ano em que o romance foi publicado, as lutas de Macabéa fazem parte de uma dança existencial, lírica, entre a imaginação e a realidade. Após o término da história de Macabéa, Lispector oferece um rápido pós-escrito meditativo sobre vida e morte: "E agora --agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas --mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos".

Em sua introdução para uma tradução de 1989 de "Soulstorm", uma coleção de contos de Lispector, Grace Paley meditou sobre as possíveis ligações entre as origens judaico-ucranianas de Lispector e sua obra. Ela concluiu: "Eu pensei a certa altura na minha leitura que havia alguma saudade da Europa, do Velho Mundo, mas decidi que estava errada. Era simplesmente saudade."

Para Lispector, tal saudade estava ligada à linguagem de forma tão vital quanto o plasma ao sangue. O programa de domingo no Centro da História Judaica incluirá a exibição de uma entrevista para a televisão com Lispector, de fevereiro de 1977, que ela pediu que só fosse exibida após sua morte. Ela disse ao entrevistador: "Quando não estou escrevendo, eu estou morta." Mas como ela observou tantas vezes, o significado da morte é efêmero.

Lispector morreu pouco depois daquela entrevista, mas quase 30 anos depois seu trabalho continua em voga.

Serviço:

"The Cultural Politics of Dislocation: Clarice Lispector and Ways of Being Jewish in Brazil" (A política cultural do deslocamento: Clarice Lispector e formas de ser judia no Brasil); domingo, às 17h, no Centro da História Judaica, 15 w. 16th Street, Manhattan. Autora é considerada o Franz Kafka da literatura latino-americana George El Khouri Andolfato

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