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11/03/2005

Mostra em NY confirma a genialidade de Basquiat

The New York Times
Roberta Smith

Em Nova York
A arte de Jean-Michel Basquiat, como um fluxo de consciência instigante, elegante e feio, causou boa impressão em sua retrospectiva no Whitney Museum of American Art. Agora no Brooklyn Museum, tem ainda mais força. A mostra não é necessariamente melhor; talvez seja até ligeiramente mais fraca em termos de seleção e apresentação.

Brooklyn Museum/The New York Times

"Jesse" integra a retrospectiva sobre o artista plástico no Brooklyn Museum
Mas a produção de Basquiat, em uma carreira truncada, mas impressionantemente prolífica, tem os pré-requisitos clássicos de grandeza: um estilo visual claro e ao mesmo tempo infinitamente flexível que regurgita o passado, reflete seu próprio tempo e permanece fresco e relevante com a passagem do tempo.

Sua realização é especialmente pertinente em um momento em que o desenho domina a arte e abundam as variantes de grafite; quando a figuração e o expressionismo fazem parte da mistura de estilo assumida por artistas jovens; e quando a linguagem e o som são tão presentes na arte quanto a tinta na tela (apenas parcialmente devido ao vídeo).

Basquiat, que inflamou o centro do cenário artístico hiper-aquecido de 1980 com suas primeiras mostras em 1981 e 82, nasceu no Brooklyn em 1960. Seu pai era haitiano e sua mãe, porto-riquenha; ele teve uma criação confortável de classe média e soube logo cedo que queria ser famoso.

Pintava e desenhava na infância e ficou fascinado com o livro "Gray: Anatomia", que sua mãe lhe deu quando tinha 7 anos e se machucou em um acidente de carro. Ilustrações do corpo humano, quase sempre masculino e negro, tornaram-se marca de sua arte.

Primeiro fez poesia: ao sair de casa aos 17, suas primeiras investidas artísticas foram com um amigo do colégio, Al Diaz. Elas consistiam em pintar paredes com spray em torno do SoHo e Lower East Side com poemas cifrados e aforismos, assinados Samo (uma compressão da expressão "same old, same old", ou seja, tudo igual, tudo na mesma). Logo ele começou a pintar em superfícies recuperadas: portas, janelas, caixas velhas, capacetes de futebol americano.

Basquiat logo demonstrou dons precoces para cor, linha, linguagem e composição, reforçados por uma urgência subjacente. De fato, ele fez "cartas ao mundo" elaboradas e loquazes, nas palavras de Emily Dickinson. Nelas, imagens e roteiro, abstração e representação, precisão e incoerência são improvisadas com velocidade impressionante em campos de idéias, informações e emoções antagônicas.

Como muitos artistas de sua geração --entre eles Julian Schnabel, David Salle, Tim Rollins e K.O.S. e Philip Taaffe-- Basquiat inventou sua própria forma de colagem.

Colou seus desenhos e fotocópias na tela, depois de acrescentar camadas de tinta e mais desenhos. Diferentemente da maior parte, ele tinha um tema ardente: a negritude --suas glórias, histórias e dor-- e o peso atormentador do colonialismo, a escravidão e a discriminação.

Brooklyn Museum/The New York Times

"Melting Point of Ice" faz parte da retrospectiva sobre Basquiat em NY
Possuído por uma curiosidade onívora e uma habilidade extraordinária de absorver e condensar informações, Basquiat acompanhou esses temas em diferentes culturas e épocas. Contadores de histórias africanos e rostos que parecem máscaras, como a face furiosa em "Melting Point of Ice"; madonas da Renascença; faraós egípcios; estatísticas econômicas --tudo passa por sua arte.

Suas superfícies estão especialmente cobertas de referências aos negros atletas, poetas e músicos de jazz, como sugerido por títulos como "Hollywood Africans" (africanos de Hollywood), "Irony of the Negro Policeman" (ironia do policial negro) e "St. Joe Louis Surrounded by Snakes" (St. Joe Louis cercado de serpentes).

Charlie Parker, gigante do jazz e herói de Basquiat, é evocado repetidamente. Em "Charles the First", uma composição pontual em preto, branco e azul, Basquiat cita "Cherokee", uma das gravações de Parker; acrescenta um logotipo de superman e contornos de mãos; inclui uma homenagem à vida curta da filha de Parker, Pree; dá um lugar proeminente ao seu símbolo característico da coroa (de fato, uma letra W); e depois enfrenta os fatos: "A maior parte dos reis jovens tem suas cabeças cortadas." Depois, ele risca a palavra jovem, convicto de que isso faz as pessoas prestarem mais atenção.

Quando ele cola desenhos em suas telas, novas camadas de significado e saltos repentinos em escala se tornam possíveis. "Jesse", por exemplo, é um campo de sete desenhos anatômicos com um círculo aberto e uma barra de interseção por cima.

Ao examinarmos o barulho por trás, referências a Parker, ao corredor olímpico Jesse Owens e a Crispus Attucks, escravo fugitivo considerado a primeira baixa da Revolução Americana, assim como minúsculas suásticas e frases como "um lugar para mandar os negros" --o círculo que parecia abstrato se torna sinistro. Ele surge de uma imagem pequena, mas clara de um esôfago, o que torna a barra uma coisa violenta, que o obstrui.

Uma das obras menos conhecidas na mostra do Brooklyn é toda circular: um disco de madeira grosso de quase 3 metros. Sua superfície negra é interrompida apenas por círculos duplos concêntricos e palavras em giz branco, que o identificam como um LP monumental, especificamente "Now's the Time", de Parker.

Basquiat trabalhou como um doido por sete anos e morreu em 1988 pelo uso de drogas exacerbado por seu próprio sucesso e pela morte de seu mentor, Andy Warhol. Ele tinha apenas 27 anos. Na vida e na morte, tornou-se um símbolo do ciclo acelerado de sucesso, excesso e exaustão dos anos 80. Artista plástico obcecado pelos negros é símbolo de originalidade Deborah Weinberg

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