UOL Notícias Internacional
 

12/03/2005

Autoridades lutam contra o "porre dos 21 anos"

The New York Times
Kate Zernike

Em Fargo, Dakota do Norte
O vídeo caseiro registra a primeira hora após o badalar da meia-noite, quando o aniversariante fez 21 anos e podia beber legalmente.

Seus amigos lhe passavam drinques em uma mesa no bar Bison Turf e o incentivavam a beber, gritando obscenidades e cantando seu nome enquanto ele virava uma após a outra. Após 30 minutos e o 13ª drinque --um "Fogo no Campo", ou tequila com molho picante tabasco-- ele vomitou em um balde de metal, fornecido pelo bar, o souvenir de aniversário levado para casa por tantos aniversariantes de 21 anos antes dele. Então ele retomou a bebedeira.

"É o melhor dia da vida dele", um amigo diz de forma quase ininteligível para a câmera. "Nós todos passamos por isto. É uma tradição."

A tradição se chama "power hour" (hora do poder) ou "21 for 21" (21 pelos 21), como é conhecida em alguns outros lugares por todo o país: aniversariantes de 21 anos vão ao bar à meia-noite de seus aniversários, exibem a identidade que acaba de lhes autorizar a beber e então viram 21 drinques em aproximadamente uma hora antes do bar fechar, ou o mais rapidamente possível.

Este pode ser um rito de passagem mortal. Autoridades em pelo menos seis Estados --Dakota do Norte, Novo México, Michigan, Texas, Califórnia e Rhode Island-- informaram mortes causadas por tais bebedeiras ao longo dos últimos cinco anos.

Universidades e cidades têm tentado várias táticas para impedir o ritual, e agora, na esperança de privar a power hour de seu frenesi, o Texas e Dakota do Norte estão considerando uma legislação que declararia o direito legal de beber aos 21 anos válido não ao bater da meia-noite da data de aniversário, mas sete ou oito horas depois, pela manhã.

Mas a experiência de Fargo, onde as power hours deixaram um jovem em coma e mataram outro, mostra quão difícil pode ser mudar a cultura do porre aos 21.

Aqui, as luzes dos bares brilham atraentemente contra as planícies cobertas de neve, implacavelmente uniformes, que os cercam, e as pessoas freqüentemente pregam a responsabilidade individual. Não havia regras contra bares servirem embreagados quando Lance Jerstad entrou em coma após uma power hour no Bison Turf, em novembro de 2002, e a cidade concordou em aprovar tal ordem apenas após muita resistência das autoridades e proprietários de bares, que disseram que a responsabilidade de beber cabia ao cliente, não aos bares.

Foi necessária a morte de Jason Reinhardt em março de 2004 para que os bares de Fargo colocassem placas dizendo: "Você pode soprar 21 velas, mas não permitiremos que vire 21 doses". Mas apesar de poucas pessoas aqui defenderem 21 doses em uma hora, muitas ainda resistem ao que consideram uma intrusão do governo na tradição do primeiro drinque à meia-noite, uma que tem sido compartilhada por pais e amigos da família.

"Nós temos uma power hour por noite, sem problemas", disse Pete Sabo, o dono do Bison Turf, um bar tão próximo do limite sul da Universidade Estadual de Dakota do Norte que se tornou uma espécie de extensão do campus. A maioria, ele disse, só bebe um drinque ou dois.

"Há pessoas que bebem de forma responsável aos 18 anos e pessoas que bebem de forma irresponsável aos 50", disse Sabo. "Fazê-las esperar mais oito horas não vai torná-las mais responsáveis."

A polícia apreendeu o vídeo caseiro de um homem de 21 anos, que ela pediu que não fosse identificado, como parte da investigação do incidente de Jerstad. Ela mostra um jovem que chegou em casa a salvo, mas o chefe de polícia Christopher Magnus a tornou a prova A em um esforço para convencer bares e autoridades locais de que a power hour é mais do que um ritual jovem.

"Em algum ponto isto se tornou a norma", disse o chefe, mostrando o vídeo em uma tarde recente. "Há esta atitude de inevitabilidade sobre ficar totalmente embriagado, e é difícil convencer as pessoas sobre o motivo de ser errado quando se torna a norma social."

Os legisladores por trás dos projetos de lei da power hour dizem que apenas a criminalização da bebedeira de meia-noite é capaz de detê-la. "Não é minha intenção promover beatos, mas acho que se pudermos afastar um garoto de uma situação potencialmente fatal com uma pequena mudança, nós devemos", disse Rob Eissler, o deputado estadual do Texas ao propor a alteração da idade oficial para beber para sete horas após a pessoa completar 21 anos.

Joel C. Heitkamp, o senador estadual de Dakota do Norte por trás de uma proposta semelhante que tornaria legal beber após às 8 horas da manhã do 21º aniversário, concordou. "Nós queremos que acordem pela manhã e percebam que têm o dia todo", disse ele, "e que não precisam fazer em uma hora o que a maioria faria durante toda uma noite".

Dezenas de faculdades, assim como uma fundação privada criada pelos pais de um jovem de 21 anos que morreu após uma power hour, já enviam cartões de aniversário para alertar os estudantes que completam 21 anos contra os riscos do excesso de álcool. Em East Lansing, Michigan, uma cidade universitária onde se bebe muito, os bares criaram um sistema para alertar uns aos outros quando vêem jovens comemorando seu 21º aniversário.

Mike Hatch, o procurador-geral de Minnesota, declarou os rituais de comemoração do 21º aniversário "um pesadelo para os pais" após sua filha ter sido presa depois de comemorar o dela em Chicago, um ano atrás.

A lei federal que estabelece 21 anos como sendo a idade legal para beber completará 21 anos neste mês de julho. Ninguém sabe quando nestas duas décadas começou a tradição da power hour. Aqui, dizem as pessoas, ela começou como uns poucos drinques em um bar à meia-noite.

"A intenção não era abusar, mas apenas se divertir", disse Jason Ramstad, o gerente do Chub's Pub, um bar popular ao sul da Universidade Estadual de Dakota do Norte, que passou pela sua power hour há 11 anos.

Ele descreveu o ritual naquela época como "virar uns poucos drinques, tentar encontrar um número de telefone e talvez tomar o café da manhã com os amigos".

Agora, uma turba barulhenta cerca o aniversariante, segurando listas de drinques como os "Três Sábios" (uma mistura de Jack Daniel's, Jim Beam e Johnnie Walker), e o Misturador de Cimento (licor Baileys com suco de limão-doce). Os amigos anotam o número de drinques nos guardanapos, ou riscam na testa do aniversariante.

Bradley McCue, o estudante da Universidade Estadual de Michigan cujos pais criaram uma fundação após sua morte em 1998, tinha o número de drinques --24 em duas horas-- escrito no seu rosto quando a polícia o encontrou morto.

"É o que se costuma fazer por aqui", disse Lee Nelson, 21 anos, bebendo recentemente com amigos na lotada "Noite na Praia" do Playmakers, um clube em Fargo. "Você finalmente é um adulto de verdade." Ele comemorou em junho com 12 drinques em um bar em Moorhead, Minnesota, do outro lado do rio.

Em uma aula de saúde com 30 candidatos a professores na Universidade Estadual de Minnesota, em Moorhead, cerca da metade dos alunos levantou a mão quando questionados se passaram por uma power hour. Ao serem indagados quantos drinques, eles responderam 17, 15, 3 e, em mais de um caso, "eu não lembro".

"Não foi divertido para mim", disse Holly Godbee, uma jovem pequena de 26 anos cuja power hour ocorreu em 16 de novembro de 1999. Mas ela ainda tem o guardanapo e lembra a contagem (17). "Eu fui idiota", disse ela. "Eu podia ter morrido."

A maioria na aula admitiu que a power hour não foi a primeira vez em que beberam. "Foi apenas uma noite normal no bar para mim, exceto por ser meu aniversário", disse Randy Backman, que fez 21 anos em 9 de setembro de 2003 com uma power hour no Coach's, em Moorhead, o mesmo bar onde seis meses depois Reinhardt participou da power hour que provocou sua morte (ele morreu pouco depois em Fargo). "Mas há algo em completar 21. Você aguarda a data. As pessoas começam a perguntar: 'Onde você vai para a sua power hour?'"

O vídeo caseiro confiscado pela polícia, gravado em 25 de setembro de 2002, mostra quanta pressão os amigos exercem na power hour. O vídeo começa com os amigos o empurrando para a mesa. Quando ele implora por mais tempo para beber seus drinques -"por favor, me dêem uma chance"- um amigo o ridiculariza:

"Sem vomitar!"

"Eu fiquei firme no meu 21º!"

"Você esperou 21 anos por isto!"

Ele implora que o deixem vomitar, e apesar dos insultos, ele finalmente se reclina sobre o balde para fazê-lo, com uma mão ainda segurando o copo de cerveja, a outra, um drinque. E quando o barman finalmente impede seus amigos de lhe comprarem mais drinques, ele pede para continuar. "São 00h40!" ele grita. "Os bares só fecham à 1h!"

A polícia usou o vídeo para ajudar a fechar o Bison Turf por dois dias. Mas a medida foi amplamente contestada, assim como as novas leis que tornam ilegal servir pessoas que estão claramente embriagadas. Um vereador, disse Magnus, perguntou se o próximo passo seria fechar o McDonald's por causa dos altos índices de obesidade.

Mas desde a morte de Reinhardt, disse a polícia, os bares têm cooperado mais. Mesmo assim, os bares disseram que ainda recebem telefonemas perguntando se a power hour é permitida.

"Os garotos não estão entendendo", disse Mark Doyle, o dono do Chub's. "Você acha que depois do que aconteceu os jovens de 21 anos entenderiam as conseqüências de beber demais." O Chub's oferece uma caneca de cerveja para a power hour, mas não drinques. Outros bares também impuseram limites ou proibiram.

Os estudantes universitários daqui argumentam que a alteração em algumas horas na idade legal para beber apenas levará a comemoração da meia-noite para o outro lado da divisa, para Minnesota, ou para os lares, onde há menos supervisão. Mas aqueles que já passaram dos 21 anos dizem que a legislação poderia finalmente aliviar a pressão em torno da power hour.

"O Power day não é mais tão divertido", admitiu Backman, atualmente com 22 anos. Ele ficou três dias doente depois de sua power hour, uma recuperação que ele considera "um momento de mudança".

"Eu costumava beber para ficar bêbado", disse Backman. "Esta costuma ser a norma quando você é menor de idade. Um mês depois, você percebe o quanto é vazio."

Agora, ele disse, ele prefere ir a um restaurante e beber uma cerveja acompanhada pelo jantar. Ritual inseguro da bebedeira no 21º aniversário já provocou mortes George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    -0,16
    3,151
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h09

    -0,34
    65.058,57
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host