UOL Notícias Internacional
 

12/03/2005

Exército detalha escala do abuso em prisão afegã

The New York Times
Douglas Jehl

Em Washington
Dois prisioneiros afegãos que morreram sob custódia americana no Afeganistão, em dezembro de 2002, foram acorrentados ao teto, chutados e espancados por soldados americanos em ataques contínuos que provocaram suas mortes, segundo relatórios das investigações criminais do Exército que ainda não foram divulgados.

Um soldado, Willie V. Brand, foi acusado de homicídio em uma audiência fechada no mês passado no Texas, ligada a uma das mortes, como mostrou outro documento do Exército. Brand, que reconheceu ter atacado um detido chamado Dilawar 37 vezes, foi acusado de tê-lo mutilado e matado ao longo de um período de cinco dias, ao "destruir o tecido da musculatura de suas pernas com repetidos ataques ilegais com faca".

Os ataques contra Dilawar foram tão severos que "mesmo se tivesse sobrevivido, ambas as pernas teriam que ser amputadas", disse o relatório do Exército, citando o parecer do legista.

Os relatórios, obtidos pela Human Rights Watch, fornecem os primeiros relatos oficiais dos eventos que provocaram as mortes dos detentos, mulá Habibullah e Dilawar, no Ponto de Controle de Bagram, a cerca de 64 quilômetros ao norte de Cabul. As mortes ocorreram quase um ano antes dos abusos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

Entre os envolvidos nos homicídios em Bagram estavam membros da Companhia A do 519º Batalhão de Inteligência Militar, do Forte Bragg, Carolina do Norte. O batalhão seguiu para o Iraque, onde alguns membros estabeleceram uma unidade de interrogatório em Abu Ghraib e foram envolvidos em alguns abusos ocorridos lá.

Os relatórios, do Comando de Investigação Criminal do Exército, também deixaram claro que o abuso em Bagram foi além das duas mortes. Entre os apontados para serem indiciados está o interrogador militar do Exército do 519º Batalhão, que disse ter "colocado seu pênis no rosto" de um detido afegão e depois ter "simulado a penetração anal nele (por cima de suas roupas)".

Os relatórios do Exército citaram "informação crível" de que quatro interrogadores militares atacaram Dilawar e outro prisioneiro afegão com "chutes na virilha e na perna, os empurrando ou jogando contra paredes/mesa, forçando os detidos a manter posições dolorosas durante entrevistas e forçando a ingestão de água até que não pudessem respirar".

Oficiais militares americanos no Afeganistão disseram inicialmente que as mortes de Habibullah, em uma cela isolada em 4 de dezembro de 2002, e Dilawar, em outra cela semelhante seis dias depois, foram por causas naturais.

O general de exército Daniel K. McNeill, o comandante americano das forças aliadas no Afeganistão na época, negou então que os prisioneiros tinham sido acorrentados ao teto e que as condições em Bagram colocavam em risco a vida dos prisioneiros.

Mas após uma investigação de The New York Times, o Exército reconheceu que as mortes foram homicídios. No outono passado, os investigadores do Exército implicaram 28 soldados e reservistas e recomendaram que enfrentassem acusações criminais, incluindo homicídio culposo.

Mas no momento, apenas Brand, um policial militar da 377ª Companhia da Polícia Militar, uma unidade da Reserva do Exército em Cincinnati, e o sargento James P. Boland, da mesma unidade, foram acusados.

As acusações contra Boland por agressão e outros crimes foram anunciadas no verão passado, e as acusações contra Brand foram apresentadas nos autos do Exército das audiências de 4 de janeiro e 3 de fevereiro no Forte Bliss, Texas.

Os nomes de outros oficiais e soldados implicados pelos investigadores do Exército não vieram à tona anteriormente.

Mas entre os mencionados nos novos relatórios está a capitã Carolyn A. Wood, a oficial chefe de inteligência militar em Bagram. Os relatórios concluíram que Wood mentiu para os investigadores ao dizer que o acorrentamento de prisioneiros em posições em pé visavam mantê-los em "posições de segurança" para proteção dos interrogadores. Na verdade, disse o relatório, a técnica foi usada para causar dor e para privação de sono.

Um relatório do Exército datado de 1º de junho de 2004, sobre a morte de Habibullah, identifica o capitão Christopher Beiring da 377ª Companhia da Polícia Militar como tendo sido "culposamente ineficiente no cumprimento de seus deveres, o que permitiu que vários de seus soldados maltratassem os presos, levando à morte de Habibullah, portanto constituindo homicídio culposo".

Wood, que comandou a Companhia A no Afeganistão, posteriormente ajudou a estabelecer o centro de interrogatório em Abu Ghraib. Dois relatórios do Departamento de Defesa disseram que a lista de procedimentos de interrogatório que ela estabeleceu lá, que iam além daqueles aprovados pelos comandantes do Exército, podem ter contribuído para os abusos em Abu Ghraib.

Esforços anteriores para contatar Wood, Beiring e Boland e descobrir a identidade de seus advogados não foram bem-sucedidos. Os acusados foram identificados em outros relatórios do Pentágono e relatos na imprensa sobre os incidentes no Afeganistão; nenhum fez comentários publicamente.

O nome do advogado de Brand não apareceu nos autos do Exército, e oficiais militares disseram que nem o soldado e nem seu advogado fariam comentários.

John Sifton, um pesquisador para Afeganistão do Human Rights Watch, disse que os documentos apóiam as investigações do grupo que mostram que espancamentos e posições estressantes eram amplamente usados, e que "longe de serem uns poucos casos isolados, o abuso em locais no Afeganistão eram comuns em 2002, a regra mais que a exceção". Torturas causaram mortes de prisioneiros sob tutela americana George El Khouri Andolfato

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