UOL Notícias Internacional
 

12/03/2005

Filho de Kadafi usa o futebol para mudar a Líbia

The New York Times
Craig S. Smith

Em Perugia, Itália
Com um gorro preto cobrindo as orelhas, Saadi Kadafi, filho do líder líbio Muamar Kadafi, trotava recentemente em torno do campo de futebol, sob um vento terrivelmente frio, enquanto seus colegas faziam um treino.

Com poucos meses para a expiração de seu contrato de dois anos, a carreira de jogador de futebol de Kadafi está debilitada. Ele foi prejudicado por problemas de saúde, inclusive apendicite e hérnia de disco, e foi suspenso por três meses no ano passado, depois que de ter resultado positivo para uso de esteróides, que estava tomando para a dor nas costas. De fato, em sua carreira na Europa, participou de apenas um jogo, contra o poderoso time da Juventus, que ele conhece bem por ter negociado a compra de uma participação de 7,5% pela Líbia.

Mas Kadafi, 31, não é um típico atleta em fim de carreira, tentando permanecer em campo. Quando viu que teria dificuldades em assegurar uma posição no futebol europeu, resolveu expandir a presença internacional da Líbia no esporte de outra forma: comprando-o.

"O engenheiro", como é chamado por seus subordinados (o termo é uma homenagem usada no terceiro mundo para uma pessoa com terceiro grau), espera adquirir o controle de um time de futebol britânico por US$ 300 milhões (em torno de R$ 900 milhões). Ele está negociando outro potencial patrocínio de US$ 300 milhões para a Juventus em nome da Tamoil, empresa petrolífera da Líbia que tem postos de gasolina na Itália.

Kadafi vem de uma família acostumada a chegar às manchetes. Sua única irmã, Ayesha, está estudando direito em Paris e entrou para a equipe de defesa de Saddam Hussein. Seu irmão mais novo, Hannibal, parece ser atraído pelo excesso de velocidade e problemas com a polícia: no início do ano, ele teria sacudido uma pistola de 9 mm depois de bater em uma mulher em um hotel em Paris. Outro irmão, Moatassim, foi preso quatro anos atrás tentando comprar tanques e mísseis de curto alcance para sua brigada particular. "Meu pai disse: 'Essas são armas muito agressivas, e você ainda está jovem --talvez quando for mais velho'", disse Kadafi, rindo.

Mas Saadi Kadafi manteve-se longe da confusão, concentrando seus esforços nos esportes, particularmente sua campanha para resgatar o futebol líbio das restrições políticas bizarras impostas por seu pai e torná-lo um esporte comum na Líbia.

Ele se destacou como jogador na seleção da Líbia, tanto que foi convidado a jogar no Perugia, apesar de alguns observadores dizerem que foi apenas pela publicidade que traria. No ano passado, com sua carreira no futebol prejudicada, ele começou a olhar para fora do campo, embarcando no que muitos viram como uma campanha quixotesca para conquistar para a Líbia o direito de sediar a Copa do Mundo de 2010.

Poucos se entusiasmaram com a proposta: o governo hesitou diante do preço de US$ 6 bilhões (aproximadamente R$ 18 bilhões), e o pai de Kadafi dificultou as coisas insistindo em convidar outros quatro países africanos para dividirem o evento. A África do Sul venceu a competição.

"Para mim, a concorrência de 2010 foi uma experiência horrível. Ainda estou muito chateado", disse ele, acrescentando que não pensava em tentar novamente.

Kadafi praticamente sozinho levou a Líbia ao futebol internacional, um mundo que por muito tempo ficou fechado pelas idéias estranhas de seu pai. O futebol praticamente desapareceu depois que Kadafi declarou em seu Livro Verde, guia ideológico para a sociedade líbia, que os "esportes são uma atividade pública que devem ser praticadas e não assistidas."

Por um tempo, os esportes profissionais foram proibidos e os times desfeitos. Os espectadores foram privados de tudo a não ser jogos periódicos de massa, com disputas como cabo de guerra.

Mesmo assim o jovem Saadi, considerado o filho favorito de Kadafi, cresceu com uma bola de futebol nos pés e os olhos fixados nos jogos no exterior. "Quando tinha 10 anos, comecei a pressionar", disse Saadi Kadafi depois de seu treino, sentado em um hotel de luxo em Perugia, que usa como segundo lar.

Gradualmente, persuadiu seu pai a flexibilizar as regras para esportes em equipe. No entanto, mesmo depois de os líbios começarem a jogar futebol novamente, a política frequentemente intervinha. O jovem Kadafi lembra-se que nos anos 80, quando seu pai foi humilhado por opositores políticos que encontraram refúgio na vizinha Argélia. Ele deu ordens para que a seleção nacional líbia não participasse de um jogo contra os argelinos, que tinham vindo a Trípoli para jogar. Com o estádio cheio e as câmeras filmando, a Argélia chutou a bola como mandam as regras internacionais, mas não havia libios em campo.

"Meu pai sempre vê as coisas de um lado político", lamentou Kadafi, acrescentando que seu pai não compreendia os torcedores. "Não são políticos. Disse a ele que não quero nada disso. Todos os dias que estou com ele, explico a mentalidade dos fãs, como ajuda os jovens, como é um ar para a juventude."

Em 1996, ele se tornou presidente da associação de futebol da Líbia, com a intenção de reconstruir uma liga semi-profissional. Ele comprou bons jogadores estrangeiros para a seleção e contratou um dos melhores técnicos do mundo, Carlos Bilardo, que deu a Copa do Mundo de 1986 à Argentina. Ele continuou bajulando seu pai para que suspendesse as regras que proibiam os esportes profissionais no país.

Seu sucesso foi uma das mudanças menos difundidas na sociedade libanesa, mas que fez enorme diferença na vida de muitas pessoas. Os jogos entre as 14 equipes da liga de futebol nacional da Líbia hoje são altamente populares, fornecendo o entretenimento mais popular disponível para jovens que de outra forma procurariam excitação em lugares menos salubres.

Sentado na varanda de sua casa alugada, com uma vista de Assis do outro lado do vale, Kadafi massageava sua perna direita. Ele fez uma cirurgia na coluna no ano passado, mas ainda tem problemas. "Tenho muita dor", disse ele. "Preocupo-me, porque é a mesma sensação que tinha antes da operação".

Ele sente orgulho de divulgar ao menos um aspecto da sociedade libanesa. Se sua carreira de jogador estiver terminada, ele quer se estabelecer como especialista em futebol --e, talvez, fazer filmes.

Ele tem uma idéia para um filme que seria filmado na Líbia sobre Hannibal, comandante militar lendário de Cartagena antiga. Mas quando Kadafi procurou o diretor da Miramax, Harvey Weinstein, em um festival de cinema em Veneza no final do ano passado, Weinstein o interrompeu, dizendo brevemente que, se quisesse fazer filmes na Miramax, a Líbia teria que reconhecer Israel primeiro. "O primeiro toque foi muito quente", disse Kadafi, rindo silenciosamente sobre seu encontro breve com Hollywood. "Não tive nem tempo para respirar."

Ele não quis divulgar o nome do time britânico que está tentando comprar, dizendo que era um assunto "muito delicado" porque o futebol britânico já não estava gostando da compra do Chelsea por um oligarca russo, Roman Abramovich, e do Fulham ser de um egípcio, Mohammed al Fayed.

"É como a Igreja Anglicana --não quer estrangeiros no controle", disse ele. "Mas isso ajudaria a ampliar a imagem da Líbia." A prática do esporte pode tornar-se um instrumento de mudança

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host