UOL Notícias Internacional
 

13/03/2005

Iraquianos consideram pilhagem de armas uma operação bem orquestrada

The New York Times
James Glanz e William J. Broad

Em Bagdá (Iraque)
Nas semanas após a queda de Bagdá, em abril de 2003, os saqueadores sistematicamente desmontaram e removeram toneladas de maquinário das instalações de armas mais importantes de Saddam Hussein, incluindo alguns equipamentos de alta precisão capazes de produzir partes de armas nucleares, disse uma autoridade iraquiana na semana passada, durante os primeiros comentários extensos do governo sobre os saques.

A autoridade iraquiana, o dr. Sami Al Araji, vice-ministro da Indústria, afirmou que aparentemente uma operação altamente organizada visava instalações específicas à procura de equipamentos de valor, alguns dos quais utilizáveis tanto para aplicações civis quanto militares, que eram levados.

Araji disse que seu relato se baseia basicamente em observações de funcionários do governo e oficiais que trabalharam nos locais ou moravam perto deles.

"Eles vinham com guindastes e caminhões e limpavam os locais", disse Araji. "Eles sabiam o que estavam fazendo; eles sabiam o que queriam. Foi uma pilhagem sofisticada."

Estas instalações foram citadas pelo governo Bush como motivo para invadir o Iraque, mas ficaram praticamente desprotegidas pelas forças da coalizão nos meses caóticos após a invasão.

As declarações de Araji ocorreram apenas uma semana depois de uma agência da ONU ter revelado que aproximadamente 90 locais chaves no Iraque tinham sido saqueados ou arrasados após a invasão liderada pelos americanos. Imagens de satélite analisadas por dois grupos da ONU -a Agência Internacional de Energia Atômica e a Comissão de Monitoramento, Verificação e Inspeção, ou Unmovic- confirmam que alguns dos locais identificados por Araji parecem estar totalmente ou parcialmente despojados, segundo altos funcionários de tais agências. Tais funcionários disseram que não podiam comentar todas as afirmações de Araji, porque estão impedidos de entrar no Iraque desde a invasão.

Por quase um ano, as duas agências enviaram relatórios regulares para o Conselho de Segurança da ONU detalhando as evidências de desmonte das instalações militares iraquianas e, em alguns casos, a movimentação de equipamento iraquiano para outros países. Além disso, um relatório divulgado em outubro passado pelo inspetor-chefe de armas dos Estados Unidos no Iraque, Charles A. Duelfer, informou sobre as evidências de saques em locais cruciais.

Mas as revelações do ministro iraquiano acrescentaram novas informações sobre os roubos, detalhando o momento, o que foi levado e a aparente perícia das operações. Araji disse que faltavam equipamentos capazes de produzir partes de mísseis assim como armas químicas, biológicas e nucleares em oito ou dez instalações que faziam parte do inativo programa de armas não-convencionais do Iraque. Tal programa foi o argumento para a invasão liderada pelos Estados Unidos, mas as forças de ocupação não encontraram armas não-convencionais e os inspetores da CIA concluíram que o esforço tinha sido praticamente abandonado após a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991.

Araji disse que não tinha evidências do destino do equipamento. Mas seu relato levanta a possibilidade de que maquinário especializado para armas, que a guerra visava neutralizar, foi levado ao mercado negro ou está nas mãos de governos estrangeiros.

"A pilhagem direcionada deste tipo de equipamento tem que ser vista como uma ameaça de proliferação", disse Gary Milhollin, diretor do Projeto Wisconsin para Controle de Armas Nucleares, uma organização sem fins lucrativos que rastreia a disseminação de armas não-convencionais.

Araji disse acreditar que os saqueadores estavam mais interessados em ganhar dinheiro do que produzir armas.

A ONU, preocupada com a possibilidade de que o material possa ser usado para produção de uma bomba clandestina, o tem caçado sem sucesso por todo o Oriente Médio.

Em um caso, os investigadores que reviravam ferros-velhos na Jordânia, em junho passado, encontraram tanques especializados para produtos químicos altamente corrosivos, que foram etiquetados e monitorados como parte do esforço internacional para vigilância do programa de armas do Iraque. Os tanques poderiam ser usados em processos industriais inofensivos ou na produção de armas químicas.

Oficiais militares americanos em Bagdá não responderam aos repetidos pedidos de comentários sobre o assunto. Mas oficiais americanos disseram que no passado, apesar de estarem cientes da importância de algumas das instalações, não havia pessoal militar suficiente para protegê-las todas durante e após a invasão.

Funcionários da Casa Branca, informados sobre o relato iraquiano pelo "The New York Times", disseram que já tinham conhecimento de que muitas instalações de armas tinham sido saqueadas. Eles não fizeram mais nenhum comentário.

Muitas das instalações de armas iraquianas estavam aglomeradas em uma área que ia dos arredores de Bagdá até aproximadamente a cidade de Iskandariya, a cerca de 48 quilômetros ao sul. Araji, que como muitos outros no Ministério da Indústria continuaram se dirigindo ao trabalho logo após a invasão, foi capaz de coletar depoimentos de testemunhas, que diariamente vinham até o ministério em Bagdá, sobre os saques organizados.

O Ministério da Indústria também enviou equipes de engenheiros até as instalações saqueadas em agosto e setembro de 2003, como parte de um levantamento realizado pela Autoridade Provisória da Coalizão, o aparato administrativo interino liderado pelos americanos. Na época, virtualmente todos os equipamentos mais importantes já tinham sido levados, disse Araji.

O auge da pilhagem organizada, estimou Araji, ocorreu ao longo de um período de quatro semanas, de meados de abril até meados de maio de 2003, quando equipes com caminhões e outros equipamentos pesados se deslocaram sistematicamente de um local a outro. Tal operação foi seguida por seqüências de roubos menos específicos.

"A primeira onda veio atrás das máquinas", disse Araji. "A segunda onda, cabos e guindastes. A terceira onda veio atrás de tijolos."

Hajim M. Al Hasani, o ministro da Indústria, transferiu as perguntas sobre os saques para Araji, que os comentou durante uma longa entrevista realizada em inglês em seu escritório, na quarta-feira, e em uma breve entrevista por telefone, na sexta-feira.

Araji disse que se o equipamento que foi roubado deixou o país, seu destino mais provável foi um Estado vizinho. David Albright, uma autoridade em armamento nuclear que é presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington, disse que a Síria e o Irã são os países que mais provavelmente estão no mercado para este tipo de equipamento comprado por Saddam, a um alto custo, quando estava secretamente tentando produzir uma arma nuclear nos anos 80.

Como exemplos das instalações mais importantes que foram saqueadas, Araji citou a fábrica Nida, o estabelecimento geral de Badr, Al Ameer, Al Radwan, Al Hatteen, Al Kadisiya e Al Qaqaa. Radwan, por exemplo, era uma instalação do programa para enriquecimento de urânio, com enormes maquinários para produção de peças altamente especializadas, segundo o Projeto Wisconsin. A fábrica Nida esteve envolvida tanto no programa nuclear quanto na produção de mísseis Scud.

Al Qaqaa, com cerca de 1.100 estruturas, produzia poderosos explosivos que poderiam ser usados tanto como ogivas de mísseis convencionais quanto para provocar uma detonação nuclear. No outono passado, autoridades do governo iraquiano alertaram os Estados Unidos e os inspetores nucleares internacionais que cerca de 377 toneladas de tais explosivos tinham desaparecido após a invasão. Mas Qaqaa também continha uma ampla variedade de maquinários de produção, incluindo 800 peças de equipamento químico.

Entre os maquinários nas diversas instalações estavam equipamentos que poderiam ser usados para produção de partes de mísseis, armas químicas ou centrífugas essenciais para o enriquecimento de urânio para bombas atômicas. Todo este equipamento de "uso duplo" também tem aplicações pacíficas -por exemplo, uma ferramenta para produção de partes de um dispositivo de implosão nuclear também serve para a turbina de um jato comercial.

A ascensão de Saddam ao poder no Iraque culminou com suas forças armadas não apenas produzindo mísseis mortais, mas muitas armas não-convencionais. Após a Guerra do Golfo de 1991, inspetores internacionais descobriram que Bagdá estava próxima de produzir uma bomba atômica e que teve sucesso em produzir milhares de ogivas químicas e biológicas.

A partir de 1991, a ONU começou a destruir as armas não-convencionais do Iraque e a estabelecer um vasto esforço para monitorar a infra-estrutura industrial do país para assegurar que Bagdá cumpriria suas promessas de desarmamento. A Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), com sede em Viena (Áustria) ficou encarregada das instalações nucleares, e a Comissão de Monitoramento, Verificação e Inspeção, com sede em Nova York e conhecida como Unmovic, ficou responsável pelas instalações químicas e biológicas, assim como pelas fábricas que produziam foguetes e mísseis.

Um diplomata ocidental familiarizado com o reconhecimento por satélite feito pela Aiea disse que ele confirmou alguns dos levantamentos iraquianos. Por exemplo, afirmou, ele mostrou que a fábrica Nida foi danificada, com alguns prédios removidos e alguns reconstruídos. Ele acrescentou que o estabelecimento geral de Badr foi quase 100% desmontado.

Por outro lado, ele disse, os analistas de fotos da agência encontraram Al Ameer intocada, mas apenas de acordo com as imagens do alto. "Os prédios podem estar totalmente vazios."

O diplomata acrescentou que a equipe de reconhecimento da Aiea encontrou Al Radwan "significativamente desmontada" e Al Kadisiya quase desaparecida. Na ampla base Al Hatteen, ele disse: "Partes estão intocadas e partes desapareceram 100%".

Antes da invasão, a ONU monitorava tais instalações. Dois altos funcionários da comissão de monitoramento disseram em uma entrevista que as análises da agência das fotos de reconhecimento por satélite do Iraque confirmaram saques e destruição visíveis em cinco das sete instalações citadas por Araji.

Os funcionários alertaram que a agência se concentrou em certos prédios de interesse especial em seu trabalho de monitoramento de armas não-convencionais e que outras estruturas ou depósitos em locais específicos poderiam ainda estar intactos.

"Um local pode ter 100 prédios, mas tínhamos interesse em apenas três deles", disse o funcionário.

Funcionários da agência de monitoramento da ONU disseram que áreas chaves como a ampla instalação de Al Qaqaa, envolvidas no processamento de substâncias químicas, foram destruídas por incêndio ou extensos saques. Ainda não se sabe o destino de equipamentos como separadores, trocadores de calor, misturadores e reatores químicos, todos empregados na produção de armas químicas.

O estabelecimento geral de Badr, eles disseram, foi destruído sistematicamente. "É significativo", disse um funcionário sobre a pilhagem e desaparecimento de prédios chaves.

A instalação Al Radwan foi desmontada, eles disseram, com uma extensa destruição. E a instalação de armas de pequeno porte de Al Kadisiya foi destruída, afirmaram, assim como os prédios monitorados pela agência na extensa instalação de Al Hatteen. Os dois funcionários disseram que a agência não tinha informação sobre a condição da fábrica Nida ou de Al Ameer.

O recente relatório da agência de monitoramento disse que a Unmovic perguntou aos vizinhos do Iraque se tinham conhecimento da presença ou passagem de equipamentos monitorados pela agência em seus países. Autoridades da Síria, ele disse, responderam que "nenhuma sucata relevante do Iraque passou pela Síria". A agência, acrescentou o relatório, ainda não obteve resposta do Irã e da Arábia Saudita.

Hasani, o ministro da Indústria do Iraque, disse que as instalações de maior preocupação faziam parte da Comissão de Industrialização Militar, que já foi um departamento do ministério até se transformar em uma entidade separada nos anos 90. A comissão, amplamente conhecida como MIC, foi dissolvida depois da queda de Bagdá, e a responsabilidade sobre as cerca de 40 instalações foi dividida entre os ministérios da Indústria e das Finanças, disse Hasani. "Nós ficamos com 11 delas", afirmou.

Araji, cuja atuação no ministério teve início nos anos 80, agora está envolvido nos planos para uso das instalações como centros de manufatura, naquela que o ministério espera que se tornará uma nova economia de livre mercado no Iraque. Ele disse que a decepção com a perda de equipamentos valiosos foi um dos principais motivos para o ministério ter decidido falar francamente sobre o que aconteceu. "Nós falamos francamente sobre estes assuntos, porque é triste que isto tenha ocorrido no Iraque", disse Araji. "Nós precisamos de tudo que possa nos sustentar aqui."

"Quando você possui boas fábricas que podem apoiar tal mudança e transformação", afirmou, "é bom para a economia do país".

Em uma entrevista, um alto funcionário da Aiea disse que a agência costumava usar as fotos de reconhecimento para estudar cerca de cem instalações no Iraque, mas que o alto custo das imagens fez com que os inspetores só pudessem arcar com atualizações anuais de instalações específicas.

Em seu mais recente relatório para o Conselho de Segurança da ONU, em outubro, a Aiea disse que "continua preocupada com o desmonte amplo e aparentemente sistemático ocorrido em instalações antes relevantes para o programa nuclear do Iraque".

Os inspetores da agência, na visita a outros países, descobriram toneladas de sucata industrial, algumas contaminadas radioativamente, que foram trazidas do Iraque, notou o relatório. Mas ele acrescentou que a agência foi incapaz de rastrear qualquer equipamento de alta qualidade, de duplo uso, ou materiais.

"O desaparecimento de tal equipamento", destacou o relatório, "pode ser relevante para proliferação".

A comissão da ONU tem apresentado regularmente relatórios ao Conselho de Segurança desde maio passado, provocando alarme sobre os saques no Iraque, o desmonte de instalações chaves de armas e a exportação de materiais perigosos para outros países.

Funcionários da comissão e da Aiea têm pedido repetidamente ao governo iraquiano que informe sobre o que sabe a respeito do destino de milhares de peças de equipamento monitorado e estoques de materiais e substâncias químicas monitoradas.

No outono passado, o dr. Mohamed ElBaradei, o diretor geral da Aiea, colocou pressão pública sobre o governo interino iraquiano para que começasse o processo de prestação de contas de materiais nucleares ainda ostensivamente sob supervisão da Aiea. O Iraque está obrigado, ele escreveu ao presidente do Conselho de Segurança em 1º de outubro, a declarar duas vezes ao ano mudanças que ocorreram ou que estão previstas.

Em entrevistas, funcionários da comissão de monitoramento e da Aiea disseram que as duas agências não ouviram nada de Bagdá -com uma notável exceção. Em 10 de outubro, o Ministério da Ciência e Tecnologia do Iraque escreveu para a agência atômica para dizer que um estoque de altos explosivos em Al Qaqaa tinha desaparecido por "roubo e saque".

Durante a eleição presidencial do outono passado, a notícia de tal carta provocou uma tempestade política. Privativamente, os funcionários da comissão de monitoramento e da Aiea especularam se a agitação política deixou Bagdá relutante em revelar mais detalhes sobre os saques.

(James Glanz, em Bagdá; William J. Broad, em Nova York. David E. Sanger contribuiu com reportagem em Washington.) George El Khouri Andolfato

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