UOL Notícias Internacional
 

15/03/2005

Democratas deixam de lutar pelos seus valores

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
A discussão em torno da privatização do Seguro Social não se trata de visões rivais sobre como assegurar o futuro do programa --mesmo o governo reconhece que as contas privadas não ajudarão em nada as finanças do sistema. É um debate sobre que tipo de sociedade os Estados Unidos devem ser.

E é um debate que os republicanos parecem estar perdendo, porque a opinião pública não compartilha sua visão de que é uma boa idéia expor as famílias de classe média, cujas vidas têm se tornado cada vez mais arriscadas ao longo das últimas décadas, a um risco ainda maior.

Assim que os eleitores começaram a perceber que as contas privadas substituiriam os benefícios tradicionais do Seguro Social, e não se somariam a eles, o apoio à privatização ruiu.

Mas a derrota dos republicanos poderá não representar um ganho para os democratas, por dois motivos. Um deles é que alguns democratas, em nome do centrismo, repetiram alguns argumentos republicanos. O outro é que as alegações de estarem defendendo as famílias comuns soam vazias quando se curvam aos interesses corporativos em votações que importam.

Vamos começar com o caso dos US$ 600 bilhões falsos.

Em seu discurso de rádio de 15 de janeiro, o presidente Bush fez uma alegação assustadora: "Segundo os curadores do Seguro Social, esperar mais um ano aumenta em US$ 600 bilhões o custo de consertar o Seguro Social".

O custo de US$ 600 bilhões a cada ano pelo atraso se tornou o argumento padrão do governo, repetido por inúmeros pensadores conservadores --que aparentemente não verificaram o que os curadores de fato disseram.

Na verdade, os curadores nunca disseram que esperar um ano para "consertar" o Seguro Social custaria US$ 600 bilhões. Bush interpretou de forma terrivelmente equivocada o significado de uma discussão técnica de questões contábeis (está na página 58 do relatório de 2004 dos curadores), que não tem nada a ver com o custo de adiar mudanças no programa de aposentadoria.

O mesmo tipo de cálculo de "horizonte infinito", quando aplicado aos cortes de impostos de Bush, diz que seu custo cresce US$ 1 trilhão por ano. Esta não é uma medida útil do custo de não derrubar tais cortes imediatamente.

Assim, qualquer um que repetir o argumento dos US$ 600 bilhões está ajudando a disseminar uma mentira. Este é o motivo de ser perturbador ler uma reportagem na qual o vice-comissário da Administração do Seguro Social, que deveria saber mais, faz exatamente isto em um comício pró-privatização.

Mas em seu mais recente discurso de rádio, Bush --corretamente, desta vez-- atribuiu o número de US$ 600 bilhões a um "líder democrata". Ele estava se referindo ao senador Joseph Lieberman, que, por algum motivo, repetiu o argumento --o argumento republicano-- no domingo anterior.

Meu palpite é que Lieberman achou que estava sendo centrista e bipartidário, buscando dialogar com os republicanos, ao demonstrar que compartilha suas preocupações. No momento em que os democratas podem dizer, sem exagero, que seus oponentes estão apresentando um argumento desonesto para políticas que aumentarão os riscos enfrentados pelas famílias, Lieberman deu cobertura ao governo ao endossar seus falsos números.

Ainda assim o esforço para privatizar o Seguro Social provavelmente fracassará --mas tais tentativas de acomodação poderão limitar o ganho político dos democratas.

Enquanto isso, o partido perdeu uma grande oportunidade de apresentar seu argumento contra o aumento do risco às famílias ao ceder à exigência do setor de cartões de crédito de leis de falência mais duras.

Lieberman declarou claramente o que estava errado no projeto de lei de falência: "Ele não fecha as brechas preocupantes que protegem os devedores ricos, porém trata mais duramente os americanos comuns que enfrentam despesas médicas imprevistas ou uma repentina convocação militar", tornando-a injusta para com os "trabalhadores americanos que se vêem em condições financeiras adversas mesmo que não seja por sua culpa".

Uma posição contra o projeto de lei teria fundido populismo com patriotismo, acentuando as diferenças entre as visões democrata e republicana para os Estados Unidos.

Mas muitos democratas optaram por não assumir tal posição. E Lieberman estava entre eles: seu voto contra o projeto foi um gesto vazio. Na única votação em que os oponentes do projeto tinham uma chance de vencer --uma moção para reduzir um maior debate-- ele ficou do lado das empresas de cartão de crédito. Para ser justo, outros 13 democratas fizeram o mesmo. Mas nenhum dos outros tentou vencer em ambas as frentes.

Não é sempre má política dizer coisas que não são verdadeiras e alegar apoio a coisas às quais você se opõe: basta olhar quem está comandando o país. Mas os democratas que empregam estas táticas agora criaram maiores problemas para um partido que teve uma chance especial --talvez sua última-- de lembrar ao país pelo que lutam os democratas e por quê. Partido vacila na votação da lei de falência e debate da previdência George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h09

    -0,18
    3,260
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host