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15/03/2005

Música country surgiu com as bombas atômicas

The New York Times
Cornelia Dean

Em Nova York
Para alguns pesquisadores, a forma de estudar a era atômica é investigar aqueles que criaram as bombas. Outros mergulham na física nuclear, ou nas relações entre Oriente e Ocidente na Guerra Fria.

Christopher Berkey/NYT

"Música Country vai à Guerra" traz as relações entre o estilo e a bomba
Charles K. Wolfe ouve música country. De fato, é estudioso da música country e a bomba atômica. O gênero surgiu quase imediatamente após o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial e se dissipou no início dos anos 50.

Para Wolfe, as músicas da bomba são uma expressão "bizarra" de um tema importante na música americana, a relação das pessoas com a tecnologia.

Freqüentemente, essas músicas falam de um homem corajoso superando a força desumanizadora da máquina, como em "The Wreck of the Old 97", um clássico sobre um acidente de trem.

"Os americanos têm uma espécie de relação de amor e ódio com a tecnologia", disse Wolfe em entrevista. "Somos o país mais tecnológico do mundo e, mesmo assim, quando precisamos incorporar a tecnologia em nossas vidas, somos um pouco desconfiados."

No entanto, a música country da era atômica fala de mais do que desconfiança, escreve Wolfe em uma nova coletânea de artigos acadêmicos: "Country Music Goes to War" (a música country vai à guerra, University of Kentucky Press), que ele editou com James E. Akenson.

Wolfe ouve nesse tipo de música pessoas falando de grandes cidades "queimadas da face da terra" e se perguntando se saberão o "local e a hora quando uma terrível explosão poderá cair em nossa terra."

Em seu texto, que entrou na coletânea, ele cita o que pode ser a primeira música country nuclear: "Atomic Power", lançada em 1946 por um cantor caubói respeitado chamado Fred Kirby.

A canção afirma que a energia atômica "foi dada pela mão poderosa de Deus" e sugere que os que a utilizam sem sabedoria enfrentarão retribuição cósmica. Quando a música country viu-se diante da bomba, olhou para o poder do átomo pelo prisma da religião.

Para os compositores e ouvintes, a bomba atômica não era apenas uma arma de guerra, mas a "prova absoluta de que a divindade existe e seu poder é infinito".

Como resultado, muitas músicas country da época tinham títulos como "Jesus Hits Like an Atom Bomb" (Jesus chega como uma bomba atômica) ou "There Is a Power Greater Than Atomic" (Há um poder maior que o atômico).

"As pessoas tinham passado por todo tipo de dificuldades e luta durante a guerra", disse ele, "De repente termina, boom --que tipo de poder pode fazer isso?"

A bomba era uma tecnologia poderosa demais para as pessoas integrarem em suas vidas como fizeram com suas máquinas de lavar, rádios ou, como disse Wolfe, "aquela máquina amiga, o T Ford". Então em "Old Man Atom", canção de Vern Partlow no estilo narrador do blues, dizia que Einstein seria castigado pelo poder que seu trabalho ajudou a liberar, "E se ele está com medo, eu também estou".

Essa é uma especialidade restrita: os anos imediatamente após a Segunda Guerra produziram apenas cerca de duas dúzias de músicas country sobre a bomba, disse Wolfe. No início dos anos 50, a música country atômica já tinha praticamente terminado, disse ele.

A angústia da bomba foi transformada em angústia com a Guerra Fria e comunismo. Uma das últimas do gênero foi a de 1951 "Advice to Joe" (conselho a Joe), de Roy Acuff e Roy Nunn, que ameaça Stalin com o poder atômico do Tio Sam e pergunta a ele: "Você tem onde se esconder?"

Wolfe, que fez doutorado em inglês na Universidade do Kansas e ensina cultura popular na Universidade Estadual do Tennessee Central, em Murfreesboro, começou sua pesquisa atômica com visitas a lojas de discos usados e objetos de segunda mão.

Naquele tempo, antes do estabelecimento do Hall da Fama da Música Country e seus arquivos e outros centros de estudo da cultura popular, "eu anunciava: 'se você encontrar em uma loja de produtos de segunda mão um disco sobre a bomba atômica, estou interessado.'"

Mas havia alguns pesquisadores sérios de cultura popular e poucas revistas em que podiam publicar seus artigos. Quando os estudiosos se reuniam, lembra-se, "traziam 30 ou 40 cópias de seus artigos. Colocávamos as pilhas no chão e os outros passavam e pegavam a sua. Era assim que compartilhávamos o que sabíamos."

Hoje, Wolfe gosta de seu trabalho não só pela proximidade da fonte de recursos de Nashville, mas pela chance de encontrar novidades. Pesquisar é excitante, disse ele, "quando você está em uma área que é realmente terra desconhecida." Ele acrescentou, "Detestaria ter que voltar e publicar sobre a Inglaterra Vitoriana". Pesquisador relaciona gênero com o espanto diante da tecnologia Deborah Weinberg

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