UOL Notícias Internacional
 

16/03/2005

Agência de segurança prevê cenário apocalíptico

The New York Times
Eric Lipton

Em Washington
O Departamento de Segurança Interna, tentando organizar os gastos antiterrorismo em todo o país, identificou uma dúzia de cenários de ataque que considera como sendo os mais prováveis ou devastadores, incluindo a detonação de um artefato nuclear em uma grande cidade, a liberação do gás sarin em prédios de escritório e um caminhão-bomba em uma arena esportiva.

O documento, conhecido simplesmente como Cenários Nacionais de Planejamento, parece mais um plano apocalíptico, oferecendo estimativas de mortes prováveis e os danos econômicos que seriam causados por cada tipo de ataque.

Os cenários incluem a explosão de um tanque de cloro, que mataria 17 mil pessoas e feriria mais de 100 mil; a disseminação de uma praga pneumônica em banheiros de um aeroporto, arena de esportes e estação de trem, que mataria 2.500 e adoeceria 8 mil em todo mundo; a infecção do gado com febre aftosa em vários locais, que resultaria em centenas de milhões de dólares em prejuízos. Os locais específicos não foram citados porque os cenários podem transcorrer em muitas grandes aéreas metropolitanas, diz o documento.

O objetivo da agência não é assustar o público, disseram as autoridades, e elas não dispõem de inteligência crível de que tais ataques estão sendo planejados. O departamento não pretendia divulgar publicamente os cenários, mas um esboço deles foi postado inadvertidamente em um site do governo do Estado do Hawaii.

A identificação de possíveis ataques e a determinação de quais agências do governo devem ser responsáveis pela prevenção, resposta e recuperação, disseram as autoridades, ajudará a decidir como os bilhões de dólares federais serão distribuídos no futuro.

Cidades como Nova York, que possuem alvos com valor econômico e simbólico, ou lugares com locais de risco, como instalações químicas, poderão receber uma maior fatia dos recursos da agência do que antes, enquanto comunidades menos vulneráveis poderão receber menos.

"Nós vivemos em um mundo de recursos finitos, sejam de pessoal ou financeiros", disse Matt A. Mayer, diretor executivo do Escritório de Coordenação e Prontidão de Governos Estaduais e Municipais da agência de segurança doméstica, que está encarregado do esforço.

O presidente Bush requisitou a lista 15 meses atrás para responder às amplas críticas à agência por membros do Congresso e especialistas antiterrorismo de que estava desperdiçando dinheiro ao espalhá-lo em vez de concentrá-lo em áreas ou alvos de maior risco. Os críticos também acusaram a agência de não ter um plano detalhado sobre como eliminar ou reduzir tais vulnerabilidades.

Michael Chertoff, o novo secretário da agência, deixou claro que o planejamento baseado em risco será um ponto central de seu mandato, dizendo que o país precisa fazer um melhor trabalho de identificação das maiores ameaças e então agir agressivamente para lidar com elas.

"Há risco em toda parte; o risco faz parte da vida", disse Chertoff em um depoimento perante o Senado, na semana passada. "Uma coisa que tentei deixar claro é que nós não eliminaremos todos os riscos."

A meta dos planejadores do documento não foi identificar todos os tipos de ataques terroristas possíveis. Ele não inclui um seqüestro de avião, por exemplo. Em vez disso, os planejadores incluíram ameaças que consideraram mais prováveis ou devastadoras, disse Marc Shot, o porta-voz do departamento.

Catástrofes hipotéticas

Para assegurar que o planejamento de emergência é suficiente para a maioria dos riscos possíveis, três eventos catastróficos naturais foram incluídos: uma epidemia de gripe influenza, um terremoto da escala 7.2 em uma grande cidade e um furacão de classe 5 (ventos acima de 250 km/h) de lento deslocamento atingindo uma grande cidade da Costa Leste.

Os cenários foram usados para criar uma lista abrangente das capacidades e ações necessárias para impedir ataques ou lidar com incidentes assim que aconteçam, como a busca por feridos, o tratamento de grande quantidade de vítimas nos hospitais, a distribuição de grandes quantidades de medicamentos e até a remoção dos mortos.

Assim que a Casa Branca conferir o plano, será pedido aos governos estaduais e locais que identifiquem falhas no cumprimento do que lhes será exigido em caso destes cenários, disseram as autoridades.

Nenhum grupo terrorista está identificado nos documentos. Em vez disso, os responsáveis pelos vários ataques hipotéticos estão apelidados de "Adversário Universal".

Os mais devastadores dos possíveis ataques --medidos pela perda de vidas e impacto econômico-- seriam uma bomba nuclear, a explosão de um tanque de cloro líquido e um ataque com antraz transmissível pelo ar.

O cenário do ataque com antraz envolve os terroristas enchendo um caminhão com uma versão transmissível pelo ar do agente biológico mortal e então o dirigindo por cinco cidades ao longo de duas semanas, o espalhando pelo ar.

As autoridades de saúde pública, prevê o relatório, provavelmente levariam um dia ou dois para tomar conhecimento do ataque inicial. Assim que estivesse concluído, cerca de 350 mil pessoas teriam sido expostas, e cerca de 13.500 morreriam, prevê o relatório.

"A população vai querer saber rapidamente se é seguro permanecer na cidade afetada e nas regiões ao redor", disse o resumo do ataque com antraz. "Muitas pessoas fugirão independente da orientação de saúde pública que for fornecida."

Mesmo em alguns casos onde o número esperado de vítimas é relativamente pequeno, os cenários expõem conseqüências econômicas extraordinárias, como um artefato de dispersão radiológica --a chamada "bomba suja", que usa explosivos convencionais para espalhar contaminação radioativa.

O documento de planejamento prevê 540 mortes iniciais, mas em 20 minutos a nuvem radioativa se espalharia por 36 quadras, contaminando empresas, escolas, áreas comerciais e lares, assim como sistemas de trânsito e uma instalação de tratamento de esgoto.

Os autores dos relatórios tentaram tornar cada cenário de ataque o mais realista possível, fornecendo detalhes sobre como os terroristas obteriam os produtos químicos mortais, por exemplo, e que equipamento provavelmente usariam para provocá-lo.

FBI insipiente

O documento deixa claro que o "Birô Federal de Investigação (FBI) não dispõe de qualquer inteligência crível que indique que tais ataques estão sendo planejados".

Mesmo assim, em breve será requisitado aos governos estaduais e locais de todo o país que colaborem no planejamento de suas respostas a tais possíveis catástrofes. Talvez já em 2006 se espera um compartilhamento pelas comunidades de pessoal treinado para lidar com certos materiais perigosos, por exemplo, em vez de cada cidade dispor de sua própria unidade.

Para priorizar os gastos nacionais, comunidades ou regiões serão classificadas por população, densidade populacional e por um inventário de infra-estrutura crítica na região.

As comunidades no topo do ranking --as maiores jurisdições com alvos de maior valor-- deverão se preparar mais abrangentemente do que outras comunidades para que possam receber mais verbas federais.

"Nós não podemos gastar quantias iguais de dinheiro em toda parte", disse Mayer.

Para alguns observadores, os documentos de planejamento extraordinariamente detalhados neste esforço de prontidão são um exemplo clássico do enlouquecimento da burocracia de Washington.

"A meta é resumir as coisas a uma lista administrável", disse Gary C. Scott, chefe do Corpo de Bombeiros de Campbell County, em Gillette, no Estado de Wyoming, que serviu em um dos muitos comitês consultivos que ajudaram a criar os relatórios de planejamento. "Este não é um documento que você será capaz de decifrar em meio a um cenário. Ele assustará as pessoas."

Mas as autoridades federais e alguns observadores externos disseram que estão convencidos de que este é um marco importante na resposta nacional aos ataques de 2001.

"Nosso país corre o risco de gastar seus recursos até a morte sem saber o que realmente é necessário para estar preparado", disse David Heyman, diretor do Programa de Segurança Interna do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

"Nós temos uma grande sensação de vulnerabilidade, mas nenhum senso do que é necessário para estar preparado. Estes cenários nos fornecem uma oportunidade para resolver isto." Objetivo é estimar perdas após atentados devastadores nos EUA George El Khouri Andolfato

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