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17/03/2005

Ações da General Motors despencam no mercado

The New York Times
Danny Hakim*

Em Detroit, Michigan
Na quarta-feira (16/03) as ações da General Motors despencaram para o seu nível mais baixo em dez anos, após a empresa ter dito acreditar que perdeu quase US$ 1 bilhão nos últimos seis meses. A notícia desencadeou a maior queda de valor acionário da companhia desde a crise do mercado em 1987, e tornou sombrias as previsões de Wall Street para a maior fabricante de automóveis do mundo.

As perdas refletem uma realidade cada vez mais dura: a montadora, que há três anos era tida como a mais saudável das Três Grandes, é agora considerada a mais frágil porque simplesmente não está vendendo um número suficiente de carros. As perdas também geraram dúvidas relativas à estratégia do presidente da GM, Rick Wagoner.

A ação da GM caiu 14%, ou US$ 4,71, passando a valer US$ 29,01, o preço de fechamento mais baixo desde novembro de 1994. A surpreendente notícia dada pela empresa gerou uma ampla venda de ações de várias companhias cujas fortunas declinam em um ambiente econômico mais frágil. A GM sozinha respondeu por 38 dos 112,03 pontos de declínio da média industrial do Dow Jones.

Uma ampla gama de problemas aflige a GM nos Estados Unidos, o seu crucial mercado doméstico, onde marcas famosas como Pontiac, Buick e Saturn são ícones nacionais, mas deixam dolorosamente a desejar em termos de atratividade, segundo a J.D. Power & Associates.

Uma onda de carros novos não ajudou a reverter o despencar das vendas da companhia, ainda que a GM gaste mais que qualquer outra indústria automobilística em descontos e financiamentos com baixas taxas de juros. Isso levou a GM a reduzir a sua produção na América do Norte no primeiro semestre do ano para 300 mil veículos, o que representa uma queda de 10% .

O aumento dos custos de planos de saúde também está sobrecarregando a companhia, que é a maior fornecedora privada desse tipo de serviço nos Estados Unidos. A GM dá cobertura de saúde a 1,1 milhão de norte-americanos, ou quase 0,4% da população total do país.

O aumento das taxas de juros e o enfraquecimento dos índices de crédito também devem esfriar o seu setor de financiamentos, a General Motors Acceptance Corporation, que é o seu principal centro de captação de lucros.

Wagoner, que é presidente há cinco anos, não descreveu mudanças significativas na sua estratégia e insistiu durante uma conferência com analistas e repórteres que ainda conta com a confiança de outros diretores.

"A comissão diretora está totalmente informada sobre todas as nossas estratégias e nos apóia", disse ele.

Em uma entrevista, John Devine, gerente financeiro da GM, disse: "A diretoria, e eu a tenho observado muito claramente, tem total confiança em Rick e na equipe".

Nas últimas semanas os diretores não retornaram as ligações para fazer comentários a respeito das atuais dificuldades enfrentadas pela GM.

A reação em Wall Street foi rápida e implacável. A Merrill Lynch rebaixou a sua avaliação para a venda das ações da GM. A Fitch, uma das três maiores agências de classificação de dívidas, rebaixou a dívida da GM para o nível mais baixo disponível para avaliação de investimentos e colocou a companhia no vermelho, para um potencial rebaixamento ao status de "junk" (literalmente, "lixo").

A Standard & Poor's, que já dera a menor nota de investimento possível à dívida da GM, também colocou a avaliação da companhia no vermelho. O Moody's Investors Service colocou a GM no "grupo de revisão", o que significa que a companhia poderá ser rebaixada ao menor índice de avaliação de investimentos dentro das próximas semanas.

Essas medidas sugerem que uma dos maiores emissoras de títulos de dívidas dos Estados Unidos poderá estar vendendo "junk bonds" (títulos comerciais sem valor) em um futuro próximo. Isso não só elevaria os custos de empréstimos da GM, mas também abalaria os mercados de ações.

"As más notícias desta manhã com certeza superaram as nossas expectativas mais pessimistas", disse o analista de crédito Scott Sprinzen, da Standard & Poor, acrescentando que a GM se sustenta "fragilmente" na lista de empresas avaliadas segundo o índice de investimentos.

"Para nós a preocupação não diz respeito apenas a este ano", acrescentou. "Mas sim ao desempenho da GM no longo prazo".

A GM possui 7.600 concessionárias em todo o país e opera em 32 Estados, incluindo montadoras que empregam milhares de trabalhadores em locais com Arlington, no Texas, e Doravill, na Georgia. Ela é também uma das dez maiores empregadoras nos Estados de Michigan e Ohio, alimentando uma vasta rede de fornecedores por todo o Meio-Oeste, desde a sua maior ex-subsidiária de peças, a Delphy, ela própria uma das maiores corporações do país, até uma variedade de pequenos negócios.

A companhia disse na quarta-feira que espera uma perda operacional de US$ 1,50 por ação no primeiro trimestre, comparada às suas projeções iniciais, segundo as quais pelo menos não sofreria prejuízos. Para este ano, a GM reduziu a sua previsão de lucros para uma faixa de US$ 1 a US$ 2 por ação, em relação à faixa prevista anteriormente, de US$ 4 a US$ 5.

Alguns analistas acreditam que a GM será bastante pressionada para apresentar lucros neste ano.

"Não vemos nada no horizonte que os capacite a ter lucros neste ano", diz Sean Egan, analista de crédito da firma de avaliações independentes Egan-Jones, que está entre os mais pessimistas quanto às perspectivas para a GM.

Ronald Tadross, um analista do Bank of America, disse que apesar dos altos gastos e incentivos da GM, "continuamos a acreditar que os produtos da GM estão artificialmente caros", já que o valor de revenda dos carros está caindo.

A Ford Motor Co. reiterou as suas projeções de lucros operacionais para o primeiro trimestre na quarta-feira, embora dissesse esperar que os seus lucros relativos a todo o ano fiquem na extremidade inferior da previsão de US$ 1,75 a US$ 1,95 por ação. Ainda assim, isso deu certa confiança aos analistas.

"Acreditamos que os problemas da GM sejam realmente específicos desta companhia, e embora o declínio das ações de mercado também estejam afetando a Ford, esta possui uma carteira de produtos mais forte", opinou John Casesa, analista da Merrill Lynch. Ele manteve uma avaliação neutra com relação à Ford.

A visão que prevalece entre os analistas sobre a GM é de que a companhia não está prestes a buscar proteção contra falência porque pelo menos até o final do ano passado tinha US$ 23 bilhões de reservas referentes às suas operações automotivas, contra cerca de US$ 30 bilhões em dívidas que demorarão anos para vencer.

Mas a companhia disse que o fluxo de capital das suas operações neste ano passará de um lucro projetado de US$ 2 bilhões para um prejuízo deste valor.

Egan diz que o risco de falência é mais imediato. "A pergunta real é, o que vai reverter essa situação?", questiona. "Eles têm relativamente poucas alavancas para acionar".

A GM também reafirmou os seus lucros de quarto trimestre para refletir um recente acordo para pagar US$ 2 bilhões à Fiat a fim de se retirar de uma aliança industrial. Como parte do acordo, que foi firmado em 2000, a Fiat concedeu o direito de venda dos seus negócios automobilísticos à GM em qualquer momento em um período de cerca de cinco anos.

Vários analistas criticaram o acordo como sendo um presente à Fiat que fazia com que a GM corresse o risco de absorver o setor automotivo da empresa italiana, que vai mal das pernas.

As operações européias da GM geraram prejuízos por cinco anos consecutivos. Wagoner disse que a companhia teria lucros com o negócio devido a acordos de compartilhamento de peças com a Fiat.

A GM disse que no quarto trimestre do ano passado assumiria uma dívida de US$ 886 milhões, que transformaram um pequeno lucro de US$ 1,11 por ação em um prejuízo de US$ 0,17.

Wagoner afirmou que a companhia provavelmente manterá as estratégias previamente traçadas, a fim de consolidar as suas operações globais em uma organização de engenharia e manufatura e dar seguimento a uma iniciativa para revigorar a sua linha de automóveis e caminhões.

"A América do Norte é um gorila de 400 quilos, e o anúncio feito hoje realmente demonstra o quanto é importante que façamos o negócio da maneira correta", afirmou Wagoner. Ele acrescentou: "O produto continua sendo o primeiro e mais importante elemento dessa estratégia de colocar a América do Norte na linha".

Ele e outros executivos da GM estão convencidos de que a sorte da companhia melhorará sensivelmente quando uma nova safra dos seus veículos mais importantes --utilitários esportivos de médio e grande porte e grandes caminhonetes-- chegar ao mercado em 2006 e 2007.

Mas a demanda por grandes veículos utilitários esportivos tem diminuído nos últimos anos, e os analistas temem que se os preços da gasolina continuarem voláteis, novas versões dos veículos básicos da GM, como o Chevrolet Suburban e o Cadillac Escalade deixem de ser os centros geradores de lucro que foram no passado.

"A parte real do problema dos lucros é aquilo que está ocorrendo com os utilitários esportivos, especialmente os de porte médio e grande", explica Sprinzen.

Chris Ceraso, analista do Credit Suisse, perguntou a Wagoner e a Devine durante a conferência que medidas a GM está considerando tomar para lidar com o fato de que a fatia da companhia no mercado norte-americano diminuiu para 25% em fevereiro, o que é quase 30% a menos do que cinco anos atrás.

"Quais são os planos de longo prazo relativos à redução dos negócios para deixá-los mais condizentes com o tamanho atual da fatia do mercado?", perguntou.

Devine, diretor financeiro da GM, disse: "Reconquistar essa fatia é a nossa maior prioridade".

"Obviamente, as perdas que estamos presenciando na América do Norte neste momento se constituem claramente em incentivo adicional para que tomemos providências rapidamente".

*Colaborou Jeremy W. Peters. Motivo é a queda nas vendas da maior automobilística do mundo Danilo Fonseca

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