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17/03/2005

Democratas precisam copiar Hillary para vencer

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em Nova York
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
Se o Partido Democrata quiser descobrir o jeito de voltar a vencer eleições nacionais, terá para isso uma guia inusitada: Hillary Rodham Clinton.

Hillary, muito mais que a maioria das pessoas no partido dela, entende como o Partido Democrata precisa se repaginar em termos nacionais. Ela sabe disso --talvez seja o efeito dos 17 anos vividos no Estado do Arkansas, que é socialmente conservador.

A primeira lição que Hillary demonstra conhecer é a necessidade de conversar mais abertamente sobre Deus e as orações. Esses assuntos repercutem muito num país onde, segundo o Centro de Pesquisas Pew, 60% dos americanos rezam pelo menos uma vez por dia.

"Eu sempre fui uma pessoa que faz orações", declarou Hillary recentemente. É claro que essa abordagem funciona no caso dela só porque há muito tempo se sabe da fé religiosa de Hillary. Não funcionou para Howard Dean, quando ele disse que o Livro de Jó era seu livro favorito...no Novo Testamento.

Com um candidato como Dean haveria preocupações, se as conversas sobre religião avançassem, quanto a possíveis comentários dele sobre os tesouros escondidos no Décimo-Segundo Mandamento...

Os democratas normalmente ficam mais confortáveis falando sobre sexo do que falando sobre Deus. Mas isso não funciona num país onde 70% das pessoas dizem que "presidentes devem ter fortes convicções religiosas".

É aí que surge a questão do aborto. Hillary deu um passo imensamente importante em janeiro, quando ela buscou uma área em comum (com os republicanos e conservadores), descrevendo o aborto como uma "opção triste, até mesmo trágica, para muitas e muitas mulheres."

O Partido Democrata comete seppuku, ou suicídio político, nas regiões centrais do país, ao parecer indiferente quanto às dúvidas que as pessoas têm em relação ao aborto, ou até mesmo ao parecer um partido pró-aborto.

Uma pesquisa aqui do The New York Times realizada em janeiro apurou que 61% dos americanos são a favor de maiores restrições ao aborto, ou até mesmo favoráveis à proibição, enquanto que apenas 36% concordam com a posição do Partido Democrata de apoio à atual legislação que regula o aborto.

Isso não quer dizer que não possa haver um meio termo em relação ao aborto. Na verdade, a maior parte do Estados Unidos se encontra assim, em conflito, nessa área do meio termo.

Muitas pessoas estão profundamente desconfortáveis em relação aos abortos, mas elas também não querem mulheres ou médicos indo para a prisão, nem querem garotas adolescentes morrendo por causa de abortos clandestinos.

O que tem sido fatal para os democratas não é propriamente a posição deles pró-direito de escolha, mas é a percepção de que eles sequer compartilham as dúvidas do público em relação ao aborto. Hillary Clinton está ajudando a incrementar esse debate, assumindo posições ao mesmo tempo pró-escolha e anti-aborto.

Essa posição apresenta potencial de vitória para os democratas. Os abortos caíram sensivelmente durante o governo de Bill Clinton, que abraçava essa mesma linha, e aumentaram significativamente durante a presidência de W. Bush.

(Uma teoria explica que as dificuldades econômicas levaram um número maior de mulheres grávidas a avaliar que não poderiam sustentar um bebê.)

Hillary Clinton também não pode ser descartada como estridente opositora do aborto, porque abandonou posições corporativistas no Senado para trabalhar com republicanos que vão de Trent Lott a Sam Brownback.

O senador John Kerry nunca pareceu ser muito apreciado por seus colegas, enquanto que agora os outros senadores parecem gostar de Hillary Clinton. Talvez seja até porque, de acordo com a revista "New Yorker", ela surpreende outros senadores aparecendo de repente nos encontros e perguntando: Alguém quer um café?

Essa mudança de imagem está funcionando entre os eleitores do Estado de Nova York. Hillary Clinton tem um índice de aprovação no estado de 69%, de acordo com uma pesquisa recente do NYT publicada no mês passado, sendo que os índices de rejeição regionais dela caíram para 21%.

Esse resultado coloca o índice de aprovação de Hillary acima até do
veterano e popular senador por Nova York, Charles Schumer, também democrata.

Ainda assim, duvido que (Hillary) Clinton possa ser eleita presidente.

Tiro como base minha cidade natal, a comunidade agrícola de Yamhill, no Oregon, para avaliar o "coração da América" --e não consigo imaginá-la bem votada por lá.

Mulheres ambiciosas e altamente empreendedoras ainda são rejeitadas em muitas áreas, especialmente se elas são liberais e feministas. E isso não acontece apenas nos Estados Unidos --Margaret Thatcher jamais seria eleita primeira-ministra se estivesse no Partido Trabalhista [Thatcher, do Partido Conservador, foi primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1991].

Em cidadezinhas como Yamhill, qualquer candidato vindo de Nova York carrega muita bagagem extra, e Hillary Clinton ainda mais que a maioria dos outros.

Além disso, a televisão ainda exagera quando aborda a postura emocional dela, caracterizando a senadora como uma "rainha gelada". Os índices nacionais de rejeição a Hillary Clinton ainda estão por volta de 40%, registrados na última apuração, mostrando que o ódio à senadora ainda campeia.

Sendo assim, Hillary Clinton poderá não ser capaz de fazer a tal transição, e de qualquer forma ainda é cedo demais para se especular seriamente sobre as eleições de 2008.

Mas o momento é o certo para os democratas chegarem às conclusões sobre a melhor forma de se reconectarem com o "coração da América". E para alcançar esse objetivo os democratas não poderão encontrar um modelo melhor do que Hillary Clinton. Senadora dificilmente se elegeria, mas trabalha com inteligência Marcelo Godoy

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