UOL Notícias Internacional
 

17/03/2005

Parlamento iraquiano inicia trabalhos ao som de bombas em Bagdá

The New York Times
Edward Wong
Em Bagdá
Sete semanas após os iraquianos terem desafiado as ameaças dos insurgentes e participado da primeira eleição livre do país em décadas, membros da assembléia constituinte se reuniram aqui nesta quarta-feira (16/03) pela primeira vez, ainda que uma série de explosões sacudisse o centro da capital.

A reunião, que durou cerca de uma hora, foi convocada apesar de as lideranças políticas não terem, até o momento, formado um governo de coalizão. Os membros da nova assembléia nacional, com 275 integrantes, caminharam discretamente até o altamente fortificado centro de convenções na margem ocidental do Rio Tigre, com pouca pompa, mas com uma solenidade que indicava que entendiam a seriedade do evento e as imensas dificuldades da tarefa que têm pela frente.

A grande reunião cerimonial foi adiada após os membros da assembléia tomarem posse dos cargos logo após as 13h, sem sequer terem dado o primeiro passo formal para a formação de um governo: elegerem um presidente, dois vice-presidentes e um líder da assembléia.

Os membros ficaram de pé juntos no auditório e levantaram a mão direita quando o chefe do conselho judiciário os convocou a defenderem as recém-estabelecidas liberdades do país, entre outras tarefas. Como um conjunto, eles representam a natureza heterogênea da sociedade iraquiana. Havia clérigos de turbantes negros sentados ao lado de homens educados em estilo ocidental, trajando ternos, e mulheres com vestidos longos.

Curdos e xiitas, os dois blocos que obtiveram a maioria dos votos nas eleições de 30 de janeiro, precisam superar discórdias com relação a várias questões importantes que estão prejudicando a montagem de uma coalizão.

Os dois lados chegaram a um impasse quanto a visões conflitantes sobre o futuro de Kirkuk, cidade rica em petróleo situada no norte do país, e o status da milícia curda, entre outras questões, informaram membros de ambos os grupos.

Mas, conforme a reunião se desenrolava na quarta-feira, líderes curdos e xiitas tentavam dar um espetáculo de solidariedade. "O objetivo é realmente ter um governo representativo, um governo de unidade nacional", disse em uma entrevista, logo depois, o ministro do Exterior Hoshyar Zebari, uma alta liderança curda. "Creio que houve bastante progresso".

O início da reunião da assembléia foi marcado para as 11h, mas somente um terço dos seus membros havia aparecido até aquele horário. Quinze minutos depois, pelo menos duas explosões próximas sacudiram as janelas do edifício, fazendo com que pessoas que estavam do lado de fora corressem em busca de proteção.

As explosões pareceram ter sido causadas por morteiros ou foguetes. Logo após o adiamento da reunião, um foguete atingiu uma casa no centro de Bagdá, próximo aos escritórios de dois jornais de Bagdá. Segundo uma autoridade policial, não houve vítimas.

Cerca de 56 quilômetros a nordeste da capital, em Baquba, um insurgente suicida dirigiu um carro bomba até um posto de checagem da Guarda Nacional, matando três guardas e ferindo 11.

A reunião da assembléia em Bagdá teve início pouco antes do meio-dia, com uma oração formal de abertura da sessão. Os oradores faziam fila no vasto auditório, tendo em frente a si, na tribuna, uma pequena bandeira iraquiana.

Um dos primeiros a falar foi Fouad Massoum, um político curdo que liderou a assembléia nacional interina durante o governo do primeiro-ministro Ayad Allawi. Depois dele foi a vez de Ashraf Qazi, o enviado especial das Nações Unidas ao Iraque.

A reunião ocorreu sob a sombra amarga da incerteza, considerando que Allawi ainda estava no poder e um novo governo de transição ainda não fora formado quando a assembléia foi convocada.

Autoridades iraquianas e norte-americanas anunciaram na tarde da última terça-feira que seriam nomeados um presidente, dois vice-presidentes e um líder da assembléia, mas é claro que eles foram excessivamente otimistas.

Após semanas de negociação, os grandes partidos políticos curdos e xiitas não conseguiram chegar a um acordo sobre como formar um governo de coalizão. As conversações continuarão até o final da semana, segundo autoridades dos dois lados, desprezando o fato de que a confiança dos iraquianos comuns nos seus líderes eleitos parece estar diminuindo a cada dia.

Ibrahim al-Jaafari, o xiita nomeado primeiro-ministro, disse em uma entrevista que um novo governo só será anunciado daqui a uma ou duas semanas.

Quando Allawi assumiu o cargo na quarta-feira, vestido com um terno negro e gravata vermelha, tentou se mostrar esperançoso, refletindo sobre aquilo que, segundo ele, são as conquistas do seu governo provisório e do povo iraquiano.

"Nós emergimos vitoriosos contra os terroristas em vários confrontos", afirmou. "Gostaria também de agradecer ao povo iraquiano, que desafiou o terrorismo quando foi às urnas depositar seu voto durante a primeira eleição democrática e livre do Iraque".

Havia um pesado esquema de segurança por todo o centro de Bagdá. A polícia iraquiana fechou a maioria das pontes sobre o Rio Tigre, o que gerou grandes engarrafamentos em torno do centro de convenções.

Aqueles que rumavam para o centro foram obrigados a andar pelas ruas interditadas ao tráfego de automóveis, em uma cena que lembrava o 30 de janeiro, o dia das eleições, quando as forças de segurança impediram todo o tráfego de veículos automotivos no país, a fim de evitar os ataques insurgentes.

Na quarta-feira, helicópteros norte-americanos de combate Apache voavam baixo sobre o centro de Bagdá, e soldados estavam a postos em veículos Humvee em frente ao centro de convenções, preparados para responder a qualquer problema de segurança.

Devido às prolongadas negociações entre xiitas e curdos, a reunião da quarta-feira teve, em grande parte, um caráter cerimonial. Há evidência de que a discussão está abalando profundamente a confiança pública.

Muitos iraquianos, especialmente os árabes xiitas e os curdos, participaram das eleições, apesar da ameaças dos guerrilheiros. Eles estão agora expressando uma desilusão crescente com os principais partidos, acusando-os de se aferrarem de forma egoísta ao poder em detrimento do país.

"Um Estado sem um governo é como um carneiro sem um pastor, e em tal situação os lobos podem atuar muito facilmente", disse Majida Aziz, 40, professora de uma escola de segundo grau para meninas no setor oeste de Bagdá. "O fato de não termos um governo está causando bastante danos ao povo iraquiano e aos interesses do Iraque". Os impasses entre curdos e xiitas marca a estréia dos eleitos Danilo Fonseca

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