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18/03/2005

Embraer deve obter a liderança mundial em jatos

The New York Times
Todd Benson

Em São José dos Campos, SP
Os trabalhadores da ampla fábrica de aeronaves daqui, a cerca de 80 quilômetros ao nordeste de São Paulo, estão montando um novo tipo de avião que a JetBlue Airways está apostando que permitirá levar sua filosofia de baixo custo, tarifa barata, a dezenas de destinos anteriormente ignorados por todos os Estados Unidos.

Paulo Fridman/The New York Times

Mauricio Botelho, CEO da Embraer, concentrou a empresa em jatos regionais como o 190, sucesso de vendas até no Canadá, país de sua maior rival
O novo avião, da fabricante brasileira Embraer, difere bastante da apertada aeronave de 50 lugares que normalmente usado em rotas curtas. Na verdade, ele é mais espaçoso que o Airbus A320 de 156 lugares que a JetBlue atualmente usa. Como ele, o jato da Embraer terá assentos de couro e sistemas de entretenimento digitais para cada passageiro.

Mas em vez de seis assentos em cada fileira, o novo avião só terá quatro, de forma que nenhum passageiro terá que se sentar no assento do meio. O resultado será um jato regional de 100 lugares com maior autonomia e o conforto e sensação de um grande jato por uma fração do custo.

O avião, o Embraer 190, faz parte de uma família de quatro da nova geração, jatos de 70 a 118 lugares que poderão finalmente fazer a Embraer deixar para trás sua arqui-rival no mercado de jatos regionais, a Bombardier Inc. de Montreal, e também permitir que a Embraer tome conta de um nicho potencialmente lucrativo de aviação ignorado pelas duas maiores fabricantes de aeronaves do mundo, a Airbus e a Boeing.

"A Embraer fez sua lição de casa", disse Douglas Abbey, um sócio do Velocity Group, uma firma de consultoria de aviação em Washington. "Eles identificaram um buraco no mercado e foram atrás dele. E agora estão colhendo os frutos porque têm uma aeronave que contém toda a nova tecnologia e todos os novos níveis de conforto."

"Este avião", ele acrescentou, "mudará a indústria".

A JetBlue será a primeira companhia aérea a usar o Embraer 190, em outubro, e planeja colocar sete em serviço até o final do ano. Ela encomendou 100, para entrega até 2011, e tem a opção de compra de mais 100.

Os analistas dizem que os aviões ajudarão a JetBlue a mudar o setor de aviação nos Estados Unidos ao levar viagens aéreas baratas para cidades menores, que há muito tempo têm sido ignoradas pelas companhias aéreas como sendo destinos onerosos demais.

Companhias aéreas de desconto como a JetBlue não são as únicas adquirindo os pequenos jatos mais espaçosos da Embraer. Grandes companhias aéreas estão se voltando para os aviões menores da Embraer e de outras enquanto buscam se recuperar do declínio nas viagens pós-11 de setembro e evitar perder dinheiro em rotas onde o número de assentos oferecidos é maior do que o de passageiros.

A Embraer, ou Empresa Brasileira de Aeronáutica, também está vendendo os aviões para empresas regionais que buscam transportar mais passageiros e atendem rotas mais longas.

A empresa estima que a demanda pelos jatos poderá ultrapassar 5.800 ao longo das duas próximas décadas. Ela já tem encomendas certas para 343. (O lucro da empresa mais que dobrou no ano passado, para recordes US$ 380,2 milhões.)

"As companhias aéreas regionais querem expandir, as grandes companhias aéreas estão tentando reduzir seus custos operacionais, e as companhias de baixo custo estão optando por outro tipo de produto para atender aos mercados menores", disse Maurício Botelho, o executivo-chefe da Embraer. "Esta é uma família de aviões adaptada exatamente para este conceito."

As companhias aéreas de ambos os lados do Atlântico têm comprado. A US Airways tem 22 Embraer 170 --uma versão de 72 assentos do 190 e o único jato da nova família a voar comercialmente até agora-- com mais 63 encomendados.

A Air Canada, que está adotando aviões menores como parte de sua reestruturação, planeja adicionar 60 dos novos modelos da Embraer (assim como apenas 30 jatos da Bombardier). A italiana Alitalia e a alemã Cirrus Airlines já começaram a usar o 170, e a Finnair encomendou 12.

Pujança

Ainda assim, a Embraer enfrenta sua cota de obstáculos. Como suas pares, a Embraer está vulnerável aos altos e baixos do volátil mercado de aviação. Muitos grandes clientes estão em apuros financeiros, o que gera dúvidas sobre futuras vendas. A US Airways, por exemplo, está operando sob a proteção da lei de falência.

Mas, por ora, os novos jatos da Embraer provavelmente não enfrentarão muita concorrência. A Airbus e a Boeing estão ocupadas tentando superar uma à outra com aviões para centenas de passageiros. E a Bombardier, a maior produtora mundial de jatos regionais, atualmente produz apenas versões ampliadas de seus antigos aviões de 50 lugares para acomodar até 86 passageiros.

"Quando a concorrência chegar ao mercado, a boa notícia para a Embraer é que ela provavelmente terá uma vantagem de cinco ou seis anos sobre as demais", disse Ronald J. Epstein, um analista da Merrill Lynch em Nova York.

A Embraer, que também produz jatos corporativos e aviões agrícolas, foi criada pela Força Aérea Brasileira em 1969 para produzir aviões de treinamento militar e de patrulha.

Em 1994, à beira da falência, ela foi privatizada. Um ano depois, Botelho, um engenheiro sem nenhuma experiência em aviação, foi trazido para a empresa.

Botelho, atualmente com 62 anos, logo transformou a Embraer em uma grande fabricante de jatos regionais ao vender aviões de 50 lugares. Ela é atualmente uma das empresas mais globalizadas do Brasil, com mais de 14 mil funcionários em seis países, incluindo os Estados Unidos.

No final dos anos 90, tanto a Embraer quanto a Bombardier perceberam que as companhias aéreas regionais queriam jatos maiores. Mas enquanto a Bombardier apenas adaptou seu avião de 50 lugares, a Embraer, após consultar mais de 40 companhias aéreas, decidiu partir para um projeto totalmente novo.

A Bombardier colocou seus jatos no mercado mais rapidamente, mas ainda parecem um pequeno avião apertado. Os novos aviões da Embraer apresentam uma tecnologia na cabine que rivaliza a dos jatos da Airbus e da Boeing, assentos maiores e uma nova fuselagem com formato especial, que permite mais espaço livre e espaço para carga.

A Bombardier, que está planejando lançar um modelo de maior autonomia de seu jato regional de 70 lugares em 2006, também está tentando levantar US$ 2 bilhões para desenvolver jatos com um projeto inteiramente novo, que ela espera colocar no ar em 2010.

Os novos aviões, o CSeries, com 110 a 135 lugares, poderão ter uma autonomia de vôo ligeiramente maior do que a nova linha da Embraer. Segundo John Paul Macdonald, o porta-voz da Bombardier Aerospace: "Nossa aeronave não será um jato regional. Será um de maior porte".

A Bombardier, que recebeu autorização de seu conselho diretor para começar a vender o CSeries, planeja exibir o novo avião na Paris Air Show em junho, acrescentou Macdonald.

Ela está visando um nicho que ela acredita que a Airbus e a Boeing estão negligenciando ao se concentrarem em aviões maiores --um nicho especificamente evitado pela Embraer quando começou a desenvolver seus novos aviões-- o "quintal dos cachorros grandes", como o chama Botelho.

Em vez disso, a Embraer optou por aviões menores após descobrir que, em média, mais de 60% de todos os vôos nos Estados Unidos, seu maior mercado, decola com 70 a 110 passageiros.

Os analistas esperam que as encomendas para os novos jatos da Embraer saltarão nos próximos anos. E há sinais de que a Embraer, cuja grande encomenda da Air Canada foi amplamente vista como um grande golpe no território doméstico da Bombardier, poderá começar a conquistar mais dos principais clientes de sua rival.

Em um memorando interno que vazou para a imprensa, Fred Buttrell, o novo presidente da Comair, a unidade baseada em Cincinnati da Delta Air Lines, que conta com uma frota inteiramente da Bombardier, disse que os novos jatos da Embraer eram "cruciais" para o futuro da companhia.

Nick Miller, um porta-voz da Comair, confirmou que a companhia aérea pretende adquirir 35 jatos até 2008, possivelmente 10 dos CRJ200 de 50 lugares da Bombardier, e 25 dos 170 da Embraer, mas ele disse que nenhuma decisão ainda foi tomada.

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