UOL Notícias Internacional
 

18/03/2005

Fraude absoluta ameaça a eleição em Zimbábue

The New York Times
Michael Wines* e Sharon LaFraniere

Em Filabusi, Zimbábue
Se este país é um bastião da tirania, tal fato não fica imediatamente evidente neste local encravado na região montanhosa do sudoeste do Zimbábue.

Em meio a carroças de burros, arbustos altos e pelo menos 3.000 camponeses, o único líder político da oposição zimbabuana, Morgan Tsvangarai, fez um enérgico discurso relativo às cruciais eleições parlamentares do final deste mês.

"Após 25 anos de governo pelo partido do presidente Robert G. Mugabe, a Frente União Patriótica Nacional Africana, o dinheiro que vocês usam atualmente vale tanto quanto jornal velho", gritou Tsvangarai. "Os silos de grãos estão cheios de teias de aranha. Este ano não há colheita".

Foi uma imagem fiel daquilo que Mugabe, 81, prometeu para a eleição de 31 de março, possivelmente a sua última como presidente: uma campanha honesta para rebater as acusações de que ele se transformou em um ditador.

Quando Tsvangarai fez a sua última campanha três anos atrás, gangues que apoiavam o governo espancaram os oposicionistas com porretes e os membros dos partidos de oposição perderam suas casas e até mesmo suas vidas devido a ações de incendiários.

Já no dia de hoje, a polícia só prendeu por um breve período uns poucos cabos eleitorais que gritavam palavras de ordem, não tendo feito mais nada além disso.

Mas há uma grande diferença entre uma eleição obviamente pacífica e uma eleição justa. E faltando duas semanas para um momento potencialmente definidor para Mugabe, aumentam as evidências de que a áspera campanha mascare um grande esforço do seu partido para fraudar o resultado.

Tanto os analistas independentes quanto membros do partido de Tsvangarai, o Movimento pela Mudança Democrata, MDC na sigla em inglês, apontam barreiras cada vez maiores para uma eleição honesta.

Segundo eles, os locais de votação são escassos nos redutos da oposição. Dois em cada cinco eleitores registrados são suspeitos. A vasta e, em sua maioria, oposicionista comunidade exilada zimbabuana não poderá votar.

Os observadores eleitorais se limitam a russos e a aliados africanos próximos, que provavelmente endossarão uma vitória do governo. A maior parte dos países ocidentais está excluída do processo de fiscalização eleitoral.

Os jornalistas estrangeiros estão proibidos de entrar no Zimbábue, sob pena de serem presos (embora muitos entrem no país como turistas). A mídia controlada pelo governo é altamente tendenciosa; as entrevistas de rádio com figuras oposicionistas são misteriosamente apagadas por interferência estática.

Há falta de juízes independentes para a emissão de pareceres sobre as reclamações eleitorais. A supervisão da eleição está a cargo de um grupo de comissários partidários de Mugabe.

E, talvez o mais importante, o governo controla o maior incentivo aos eleitores indecisos: a distribuição de quase toda a alimentação emergencial em uma nação na qual, segundo os especialistas agrícolas, quatro em cada dez pessoas não sabe onde encontrar a próxima refeição.

"Com tais vantagens, eles provavelmente acreditam que ganharam a eleição e que a criação de condições de maior liberdade nas vésperas imediatas da eleição não vai prejudicá-los", afirma Reginald Matchaba-Hove, diretor da Rede de Apoio à Eleição de Zimbábue, uma coalizão de grupos que lutam pela democracia. "O campo de Mugabe assume que, de qualquer forma, o ditador obterá uma maioria de dois terços no parlamento".

Durante uma viagem de um dia inteiro pelo interior do Zimbábue, entre Bulawayo e Harare, a capital, candidatos do governo e da oposição podiam ser vistos falando a grupos de eleitores em mercearias e bares.

Na região montanhosa das minas de cromo, nas proximidades de Zvishavane, candidatos rivais também estavam presentes, distribuindo sacos, aparentemente cheios de milho, a partir de carros cobertos com seus cartazes eleitorais.

A presença da polícia era evidente, mas ela não interferiu na campanha.

"Nossas campanhas estão transcorrendo livremente", disse Albert Ndlovu, o organizador provincial do MDC para Mashonaland Ocidental, uma província de 1,2 milhão de habitantes na região centro-norte de Zimbábue. "Há bolsões de violência aqui e ali. Mas, de maneira geral, diríamos que a situação está bem calma".

Muita gente aqui acredita que Mugabe esteja afrouxando as rédeas como parte de uma aposta calculada feita por alguém extremamente confiante na vitória. Das 150 cadeiras no parlamento, o ZANU-PF, o partido do governo, detém 98, incluindo 30 cujos ocupantes são nomeados pelo governo e que, portanto, não estão sendo disputadas.

O MDC possui apenas 51 cadeiras, seis a menos do que na última eleição. Para obter o controle do parlamento, o partido teria que ganhar 25 cadeiras adicionais --o que segundo muitos aqui se trata de uma impossibilidade.

O papel dos eleitores é crucial --e contencioso. Um estudo computadorizado de 100 mil eleitores registrados, realizado em janeiro pelo Grupo de Apoio FreeZim, uma organização pró-democrática, concluiu que cerca de dois milhões dos 5,6 milhões de eleitores zimbabuanos são suspeitos.

O grupo acredita que 800 mil eleitores estejam mortos, 300 mil tenham sido listados mais de uma vez e mais de 900 mil não morem nos endereços registrados.

Os esforços da oposição para contestar as listas foram em vão. David Coltart, legislador do MDC de Bulawayo, enviou correligionários de casa em casa no mês passado para verificar as listas na sua região. A polícia os prendeu em questão de horas, afirmando que eles precisavam de permissão para reuniões políticas. Armados de uma ordem judicial, ele reenviou a equipe --e todos voltaram a ser presos.

"O MDC está simplesmente perdendo o rumo", diz Margaret, de 28 anos, uma mãe solteira de dois filhos, desempregada, moradora de Bulawayo, e que já trabalhou para o ZANU-PF. "O ZANU-PF recuperará três quartos das cadeiras que perdeu nas eleições de 2000", diz ela.

Segundo ela, um motivo para isso é a reverência dos zimbabuanos por Mugabe, que os libertou do jugo dos brancos, apesar do caos generalizado que se seguiu. "Se o seu pai estupra alguém, você não se afasta dele", argumenta. "Ele ainda é o seu pai". Ela se recusou a fornecer o sobrenome.

Mas entre muitos zimbabuanos entrevistados, o MDC é visto como esbanjando popularidade. Milhares de pessoas participaram de comícios da oposição, até mesmo nas áreas rurais, que há muito são tidas como redutos do governo, e a decisão governamental de permitir campanhas abertas agradou o cidadão comum.

Sobrecarregado por líderes esclerosados e subalternos inquietos, o ZANU-PF não é mais a máquina política azeitada de outrora.

Mas muitos dizem que um fator que pode decidir a eleição é a comida --ou a falta dela. Um ano atrás, Mugabe ordenou que o Programa de Alimentação Mundial parasse de distribuir a maior parte da sua ajuda alimentar, afirmando que o Zimbábue é auto-suficiente.

Na verdade, segundo especialistas externos, o oposto é que é verdade.

Mas ao obrigar o Programa de Alimentação Mundial a reduzir a distribuição de alimentos, o governo garantiu que os famintos o procurarão em busca de ajuda, freqüentemente condicionada ao apoio aos candidatos governistas.

A Assembléia Constituinte Nacional, um grupo defensor da democracia, anunciou em fevereiro que a comida estaria sendo usada como instrumento político em quase três entre cada quatro distritos pesquisados.

Mas o governo também se arriscou a sofrer um forte revés eleitoral ao deixar de ocupar o vácuo que criou ao rejeitar a ajuda alimentar internacional.

Em meio à multidão no comício de Filabusi, Ngwenya, um fazendeiro de 52 anos e pai de sete filhos, que só quis dar o seu primeiro nome, concordou que esta eleição gira basicamente em torno da questão dos alimentos.

"Um governo do povo deveria verificar primeiro se o povo está comendo", reclamou.

*Michael Wines contribuiu para esta matéria de Filabusi, e Sharon LaFraniere de Johannesburgo. Um funcionário do NYT em Zimbábue também contribuiu para a reportagem. Até a distribuição de comida a famintos é usada para comprar votos Danilo Fonseca

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