UOL Notícias Internacional
 

19/03/2005

Ambição desenfreada da China ameaça o Mekong

The New York Times
Jane Perlez

Em Chiang Khong, Tailândia
Por inúmeras gerações, os pescadores do Rio Mekong passaram sua sabedoria e estilo de vida de pai para filho: os ritmos das águas, os hábitos das diferentes espécies de peixe, as melhores redes e armadilhas para sobreviver e prosperar.

Mas Sri Sumwantha, 70, um dos idosos do rio majestoso da Ásia, vem deixando sua delicada piroga atada à margem do rio por tempos mais longos do que costumava. Por entre os bambus verdes, ele vê a corrente cor de caramelo subir e descer imprevisivelmente e a pesca diminuir. Agora, ele não sabe quanto tempo sua família será capaz de sobreviver do rio.

A razão é a China. Seu apetite insaciável pela energia elétrica e seu movimento em direção do Sudeste asiático em busca de comércio está mudando a própria natureza do Mekong. Isso não acontece apenas na China, mas também afeta cinco nações e 60 milhões de moradores do campo a jusante, para quem o grande rio é o próprio sangue de suas vidas.

A China construiu duas represas a centenas de quilômetros a montante do casebre de Sri Sumwantha. Ela está iniciando três outras e tem três outras na prancheta. Cerca de 110 km daqui, a China arrancou corais e pedras na fronteira entre Laos e Mianmar para abrir caminho para seus navios cargueiros atingirem novos mercados no Laos.

As alterações no rio que servem às ambições colossais da China têm sido visíveis há anos, mas são cada vez mais preocupantes, dizem os ambientalistas e os que vivem do rio.

As espécies de peixes encontradas neste trecho do Mekong no Norte da Tailândia caíram de 100 para 88 no ano passado, disse Sayan Khamnueng, pesquisador do grupo ambiental Rede de Rios do Sudeste da Ásia.

A temperatura e os níveis de água flutuaram amplamente, ameaçando o ecossistema do rio e destruindo o ganha-pão dos pescadores e outros que dependem da pesca anual de peixes migratórios que chega a US$ 2 bilhões (em torno de R$ 5,4 bilhões).

Para os pescadores, o rio reverenciado que era quase intocado e estável em suas flutuações tornou-se um mar traiçoeiro. "Antigamente, o rio subia e descia como a natureza --a cada três ou quatro dias subia e descia. Hoje o rio é como o mar-- sobe e desce, sobe e desce muito rápido", disse Tan Inkew, 72, pescador da aldeia Meung Kan.

Tan e outros pescadores protestaram e persuadiram o governo tailandês a impedir a China de explodir corredeiras em águas tailandesas perto de sua casa, entre o porto de Chiang Saen e Chiang Khong.

"Protestamos diante da embaixada da China em Bangkok", lembra-se Tan. "Dissemos a que parassem as explosões --e que se não parassem, íamos lutar contra eles."

Mesmo assim, ele se preocupa com o impacto das represas da China. Ele se lembra como seu filho ficou na água nove horas sem "pegar nada".

Tan e seus vizinhos podem ter conseguido uma pequena vitória, mas claramente não conseguirão manter a China longe por muito tempo. O Mekong foi protegido durante os anos pela falta de desenvolvimento e pelas guerras no Vietnã, Camboja e Laos, em sua extensão de 4.600 km do platô tibetano para seu delta no Vietnã.

Hoje, entretanto, os países a jusante da China --Mianmar, Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã-- acomodaram-se em uma era de relativa paz e, em vez de temer a China, estão a favor.

A Tailândia, em franco crescimento, está buscando maior comércio com a China. O Laos e o Camboja, empobrecidos, querem ajuda para impulsionar suas economias. Mianmar compartilha a paixão chinesa pela energia hidrelétrica para o crescimento futuro.

"A China parece estar fazendo isso impunemente. Lentamente, o Mekong está sendo estrangulado. Por que os governos a jusante não estão questionando as atividades da China?" disse Aviva Imhof, diretora dos programas do sudeste asiático na Rede de Rios Internacional, grupo não governamental de Berkeley, Califórnia.

A preocupação vai além de grupos ambientais e de pescadores.

Ted Osius, até recentemente diretor regional ambiental do Departamento de Estado e que foi assessor da Casa Branca do vice-presidente Al Gore, sugere que a China pode fazer com o Mekong um desastre ecológico parecido com o Rio Amarelo e o Yangtze.

"A China tem um fraco histórico de proteção de rios", disse Osius em um discurso em Bangkok, observando que o Yangtze foi cortado por um sistema de diques e elevatórias que acabou com 80% de seus transbordamentos históricos.

Hoje o poder econômico e político da China ao longo do Mekong não é questionado. Mais do que nunca, está sendo reforçado e estendido pelo comércio crescente, laços diplomáticos e novos instrumentos multilaterais, como o Banco de Desenvolvimento da Ásia.

O banco, que faz empréstimos para alívio da pobreza, era dominado pelo Japão. A China contribuiu para seu fundo de capital pela primeira vez em 2004 --e obteve mais poder sobre como os empréstimos são distribuídos. O impacto foi imediato.

O banco contratou um novo vice-presidente, Jin Liqun, que foi vice-ministro de finanças em Pequim. Mais importante, o grande projeto de estradas, pontes e rede de telecomunicações para costurar a China com os quatro outros países do Mekong --um plano suspenso por 10 anos-- ganhou rápido impulso.

O trabalho há muito parado foi subitamente iniciado na estrada de 250 km da província de Yunnan pelo território indomado do Rio Houey Xai, do Laos, a centenas de metros da aldeia de Sri Sumwantha. Apesar de relativamente pequena, a estrada fornece uma ligação vital com a China.

Uma ponte também foi projetada para substituir as pequenas balsas que hoje são usadas pelo rio. Até o final da década, a China poderá estar conectada por estradas que cruzam o Mekong e vão até Bangkok, Malásia e Cingapura.

"A colaboração da China dá a ela um assento na mesa dos doadores. Sempre que fazem uma doação, eles têm planos", disse Bruce Murray, representante do banco em Pequim.

O novo impacto da China pode ser sentido também em outros projetos.

Um dos mais controversos é uma represa de US$ 1,3 bilhão (em torno de R$ 3.5 bilhões) no Rio Theun, importante tributário do Mekong no Laos, um plano que foi combatido por mais de uma década.

O Banco Mundial deve garantir o empréstimo para a represa em março. Diplomatas americanos dizem que vêm apoiando o papel do banco -seu primeiro projeto de represa em uma década --temendo a participação da China.

"Os laocianos disseram ao Banco Mundial que, se não garantisse a represa, iam procurar os chineses", disse uma autoridade americana. Os EUA relutam em ver a China construindo e administrando uma das maiores represas do sudeste asiático, disse ele.

Segundo ambientalistas e diplomatas, a China faria muito menos exigências sobre o impacto ambiental da represa do que o consórcio que pediu o apoio do Banco Mundial, liderado pela Autoridade Geradora de Eletricidade da Tailândia (Egat) e a Electricite de France, estatal francesa.

Aqui em Chiang Khong, onde as casas de bambu dos pescadores ladeiam as margens do rio, as mudanças provocadas pela China estão causando o rápido desaparecimento de uma forma de vida, junto com a abundância das águas do Mekong.

Sayan, da Rede de Rios do Sudeste Asiático, disse que os pescadores pararam de vender seus peixes no mercado principal em Chiang Rai. "Não têm o suficiente", disse ele.

Em casos extremos, os pescadores desistiram e se tornaram operários, descarregando os navios comerciais da China que ancoram em Chiang Saen, carregados de frutas e legumes, eletrônicos e roupas baratas. "Como estivadores, eles ficam empobrecidos e miseráveis", disse Chainarong Srettachau, diretor da rede de rios.

Alguns pescadores começaram a suplementar sua renda com a agricultura. Mas esta também está sendo afetada. As represas da China estão detendo até 50% da lama fértil, essencial para o solo e que normalmente desce pelo rio, de acordo com os grupos ambientais.

A erosão também está piorando. Em Pak Ing, pequena aldeia perto de Chiang Khong, os pescadores mostraram um barranco de 3,6 m, em que a água, fluindo mais rápido por causa da destruição das corredeiras, cortou as margens do rio. O próximo passo será cobrir as margens de concreto para proteger a terra.

Mais abaixo, os efeitos podem ser ainda mais severos. No Camboja, uma economia antiga e de ecologia complexa depende do grande lago alimentado pelo Mekong, o Tonle Sap, que pode crescer quatro vezes durante as chuvas. O ritmo da vida é construído em torno das estações e da abundância oferecida pelas águas.

A pesca caiu quase 50% no ano passado, de acordo com a Comissão do Rio Mekong. Em muitas áreas, a falta de peixe foi causada por flutuações repentinas, ocorridas quando as represas na China liberaram água para permitir a passagem dos navios, disse Milton Osborne, historiador australiano e especialista no Mekong.

A água das represas é muito mais fria do que rio abaixo, afetando os peixes, extremamente sensíveis a mudança de temperatura, escreveu Osborne. Ele publicou as observações no ano passado em um artigo chamado "Rio em risco", para o Instituto Lowy, um grupo de política pública de Sydney.

As grandes espécies foram particularmente afetadas, disse ele. A perspectiva para o rio e seu vasto ecossistema não é promissora, acrescentou.

"Por causa do enorme desequilíbrio de poder entre a China e os países a jusante", disse ele, "é altamente improvável que haja uma suspensão do programa de construção de represas da China no Mekong."

Mas Chainarong foi menos pessimista.

"Dois ou três anos atrás, as pessoas diziam que nunca conseguiríamos ter impedido a China de explodir o Mekong na Tailândia", disse ele. "Mas conseguimos."

"Uma coisa boa", observou, "é que a China não quer conflitos rio abaixo. Esse é o desafio. A situação está nas mãos da China: quer ser amigável ou hostil?" Aproveitamento econômico do rio afeta nações do sudeste asiático Deborah Weinberg

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