UOL Notícias Internacional
 

19/03/2005

Republicanos tiram proveito do caso de eutanásia

The New York Times
Carl Hulse

Em Washington
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A extraordinária intervenção do Congresso na crise de saúde de um único indivíduo é motivada de forma significativa por fortes forças políticas que convergiram para o leito de Terri Schiavo.

Enquanto legisladores de ambos os partidos justificavam seu esforço agressivo para tentar impedir a remoção do tubo de alimentação da mulher com lesão cerebral como sendo uma questão de direitos fundamentais e de procedimentos apropriados, as motivações políticas também apareceram.

Para os republicanos, foi uma chance de tentar demarcar um novo território nas questões da "cultura da vida", tão importantes para os passionais conservadores religiosos, que sobrecarregaram os gabinetes do Congresso com telefonemas e e-mails implorando ajuda para manter a mulher da Flórida viva.

Para os democratas que ainda se debatem após sua derrota nas eleições de novembro, o caso ofereceu uma forma de expor sua nova disposição de se deslocar para o centro em tais questões.

E para Tom Delay, o líder da maioria na Câmara que está sendo investigado por impropriedades na arrecadação de fundos no Texas e potenciais violações das regras de viagens da Câmara em Washington, assumir um papel proeminente na mobilização dos conservadores em torno do caso Schiavo também forneceu uma distração repentina para seus problemas.

"Para amigos, parentes e milhões de pessoas que estão rezando em todo o mundo neste fim de semana do Domingo de Ramos: não temam", disse DeLay, que se inseriu à força no caso, em uma referência religiosa durante uma coletiva de imprensa na sexta-feira. "Terri Schiavo não será esquecida."

DeLay e outros legisladores pareceram afetados emocionalmente pelo assunto de vida e morte de Schiavo. Alguns há muito nutrem crenças religiosas que se opõem a coisas como suicídio assistido ou a interrupção de cuidados médicos de suporte de vida.

Mas também há pouca dúvida de que este assunto não teria ido tão longe e tão rapidamente no Congresso sem as análises e audiências habituais --e mantido os legisladores até depois da meia-noite na véspera de seu recesso-- se suas próprias ambições e eleitorado não estivessem em jogo.

DeLay está claramente apreciando a mudança de assunto de regras de viagens do Congresso e ligações com lobbies para uma cruzada conservadora, até mesmo aparecendo na televisão para defender o envolvimento do Congresso após fugir das câmeras durante grande parte da semana.

E sua dedicação está exibindo resultados. O deputado Mike Pence, republicano de Indiana e líder de uma ala conservadora da Câmara, disse aos repórteres que ele e seus colegas "estão muito agradecidos pelo empenho de nosso líder da maioria".

E o líder da maioria na Câmara não é o único beneficiário republicano potencial. O senador Bill Frist, republicano do Tennessee e líder da maioria no Senado, também é um candidato presidencial potencial que está cortejando a ala conservadora do partido.

Sua declaração determinada em prol de Schiavo --dando forte ênfase à sua perícia profissional como médico-- poderá ter um forte apelo junto ao eleitorado. Outros possíveis candidatos à Casa Branca também se envolveram, incluindo o governador da Flórida, Jeb Bush, e o senador Rick Santorum, republicano da Pensilvânia.

Os democratas perceberam rapidamente que também tinham interesse político nisto, particularmente com um punhado de cadeiras no Senado que serão disputadas em Estados onde o presidente Bush venceu no ano passado, incluindo a Flórida.

Liderados pelo seu novo líder, o senador Harry Reid, um democrata antiaborto de Nevada, os democratas do Senado não se colocaram no caminho de um projeto de lei que visava diretamente o caso Schiavo como teriam feito no passado, apesar do desacordo entre a Câmara e o Senado na abordagem específica ter até o momento atrapalhado a obtenção da legislação final.

O senador Sam Brownback, republicano do Kansas, disse que considerou a disposição dos senadores democratas de dar andamento ao projeto como refletindo uma nova postura dentro do partido.

"Ontem, Ted Kennedy e eu participamos de uma coletiva de imprensa sobre um projeto de lei pró-vida para síndrome de Down. Eu não acho que isto teria acontecido dois anos atrás e eu apreciei isto. Eu acho que é fabuloso."

Mas enquanto as maiorias republicanas na Câmara e no Senado emitiam intimações e ponderavam a perspectiva de uma audiência no asilo de Schiavo, alguns democratas ficaram atônitos.

"O Congresso está transformando a tragédia pessoal da família Schiavo em uma farsa política nacional", disse o deputado Henry Waxman, democrata da Califórnia e líder da bancada democrata no Comitê de Reforma do Governo da Câmara, que foi contrário às intimações emitidas pelo presidente do comitê, o deputado Tom Davies, republicano da Virgínia.

George Selos, o advogado do marido de Schiavo, que tem lutado há quase dois anos pela permissão para que sua esposa morra, atacou ambos os partidos no Congresso pelo que retratou como sendo uma interferência de última hora, politicamente motivada, em um caso que já existe há anos sem ter atraído grande atenção do Capitólio.

"É odioso, chocante, repulsivo e eu acho que todos os americanos deveriam ficar muito alarmados com isto", ele disse aos repórteres na Flórida. E ele fez um alerta aos democratas que optaram por se afastar de sua antiga oposição à interferência federal em tais decisões médicas pessoais. "Se eles não defenderem Terri Schiavo, eles merecem ser o partido minoritário."

Muitos democratas do Congresso estavam mordendo suas línguas na sexta-feira enquanto testemunhavam o que consideraram um claro abuso de poder por parte dos republicanos. Eles apontaram para pesquisas de opinião que mostram apoio ao direito de Schiavo de decidir o destino de sua esposa --mas também temem o poder da direita mobilizada.

Legisladores de ambos os partidos disseram que ficaram genuinamente sensibilizados pelos vídeos que assistiram de Schiavo, vendo a si mesmos como a última barreira entre ela e uma sentença de morte.

Mas, como alertou a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, aos seus colegas nesta semana, enquanto consideravam um projeto de lei que transferiria o caso para um tribunal federal, a mistura de política e mortalidade pode ser volátil.

"Nós mudamos a natureza de todas estas coisas para colocar isto na arena política", disse ela. Choque de ideologias converge no leito de morte de Terri Schiavo George El Khouri Andolfato

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