UOL Notícias Internacional
 

20/03/2005

Preservar a memória de Dorothy Stang é agora a missão do irmão

The New York Times
Kirk Johnson

The New York Times
David Stang estava aposentado e achava que seus dias seriam marcados de forma tranqüila por jardinagem e livros. Mas o assassinato no mês passado de sua irmã Dorothy, uma freira católica no Brasil que fez inimigos poderosos na Amazônia em nome dos sem-teto, virou tal plano de cabeça para baixo.

Agora a missão de Stang é assegurar que o mundo se lembre de sua irmã corretamente. Ela não era de forma alguma, ele disse, uma doce freira devota que se retirou para uma vida de oração e contemplação. Ela era durona, esperta e altamente politizada, e foi precisamente seu fervoroso trabalho terreno em nome dos pobres que resultou em sua morte, disse ele.

"Nada desta coisa enjoada de freirinha", disse Stang, apontando o dedo para a goela em uma expressão zombeteira de vômito. "Ela parecia mais um trator."

No mês passado, Stang, 67 anos, voou de sua casa, perto de Colorado Springs, para o Brasil para tentar traçar os últimos dias de sua irmã. Ele esteve acompanhado por uma equipe de filmagem de documentário e uma horda de jornalistas brasileiros. Sua chegada ao Pará, um Estado na floresta amazônica conhecido pela corrupção, onde a irmã Dorothy trabalhava e foi morta a tiros diante de testemunhas em 12 de fevereiro, se tornou um evento para a imprensa.

No início deste mês -um pouco para sua própria surpresa, ele disse- ele se intrometeu em uma reunião de autoridades locais no Pará e as confrontou, exigindo saber por que sua irmã não recebeu proteção. A imprensa brasileira registrou tudo e transformou Stang em uma estrela do noticiário noturno.

"Eu imaginei que se contávamos com a imprensa, nós poderíamos usá-la", disse ele.

A história emaranhada de Stang com a Igreja Católica se enquadra em sua atual missão.

Stang, que trabalhava como administrador de um asilo quando se aposentou, passou 11 anos como padre católico. Nos anos 60 ele foi missionário na África. Mas ele abandou o sacerdócio 30 anos atrás, em parte por sua revolta com a recusa da Igreja em ordenar sacerdotes do sexo feminino.

A irmã Dorothy, uma brasileira naturalizada que foi um dos nove filhos de um lar católico em Ohio, se sentiu energizada nos anos 60 pelos ventos de mudança que varreram a Igreja, pregando a ajuda aos pobres. A fé ainda era importante, dizia a nova doutrina, que se tornou conhecida como teologia da libertação, mas também o progresso econômico e social.

Nos anos 80, a Igreja começou a se afastar da teologia da libertação à medida que a liderança sob o papa João Paulo II se sentiu desconfortável em ter membros da Igreja promovendo agendas sociais que poderiam aliá-los com a esquerda política. Mas Dorothy Stang nunca recuou, disse o irmão dela.

A forma como sua irmã será lembrada, disse Stang, um homem esguio e articulado com um sorriso fácil e senso sarcástico, estará sempre mesclada com política e teocracia, história familiar e fé.

A irmã Dorothy foi baleada quatro vezes no peito e na cabeça por um par de atiradores enquanto visitava um acampamento rural remoto, próximo da rodovia Transamazônica, no Estado do Pará. Ela trabalhava com camponeses que estavam enfrentando madeireiros ilegais.

Quatro pessoas foram presas, e o procurador-geral do Brasil fez um pedido formal para que os suspeitos fossem processados por autoridades federais por não acreditar na justiça local.

Stang disse que sua irmã, que tinha 73 anos quando foi morta, foi uma mártir da fé. Ela aparentemente conhecia seus assassinos e o risco que representavam, e estava lendo sua Bíblia em voz alta, disseram testemunhas, quando foi morta. Mas ele disse que o reconhecimento da Igreja do martírio da irmã Dorothy é improvável por causa da vida politizada que levava no Brasil há 36 anos. Sua reputação de andar de motocicleta e de acampar diante dos escritórios das autoridades locais que se recusavam a recebê-la, ele disse, provavelmente está associada demais às antigas metas desacreditadas da Igreja.

"Então isto também faz parte da minha jornada", disse ele. "Eu não vou permitir que façam material apócrifo sobre ela, saneando sua história e dizendo que ela era esta mulher santa."

Um estudioso que escreveu amplamente sobre a vida política e religiosa na América Latina, Daniel H. Levine da Universidade de Michigan, disse achar que a preocupação de Stang é legítima sobre se a fé ou a obra de sua irmã estará no epitáfio dela.

"Ela será uma batata quente?" perguntou Levine, um cientista político e diretor do programa de estudos latino-americanos e caribenhos da universidade. "Provavelmente."

"A teologia da libertação saiu de moda, mas isto não significa que pessoas como ela ainda não estejam por aí", disse ele.

Stang, que se casou e teve quatro filhos após abandonar o sacerdócio, disse que se fosse mais jovem ele pensaria em assumir o trabalho deixado por sua irmã. Mas as exigências físicas da vida na Amazônia parecem desencorajadoras demais, disse ele.

Ele planeja voltar ao Brasil no próximo mês e voltará novamente, ele disse, para o julgamento dos acusados pela morte de sua irmã.

"Eu acho que cuidarei do meu jardim por ora", disse ele. "Mas você faz o que tem que fazer." George El Khouri Andolfato

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