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21/03/2005

Astros mirins geram estresse em família

The New York Times
Mireya Navarro

The New York Times
Los Angeles - Susan Adkins lê as histórias sobre as estripulias de Michael Lohan, pai da atriz Lindsay Lohan, com um misto de simpatia e horror. Ela também tem um ator mirim em casa - o filho dela Seth, 15 anos, trabalhou em "Titanic" e em muitos programas de televisão - e está ciente de como o show business pode distorcer a vida em família.

Embora a família Adkins trabalhe duro para não deixar a carreira de Seth
tomar conta das próprias vidas de cada um, Susan vive, por conta da agenda do filho, num apartamento quarto-e-sala em Los Angeles durante seis meses por ano, enquanto o marido permanece na casa deles no estado do Novo México.

As vidas dos Adkins não são muito parecidas com a de Michael Lohan, 44 anos, que no ano passado foi preso por assaltar um cunhado e por dirigir
embriagado. Num esforço escancarado de dividir a luz dos bastidores com
Lindsay, a filha famosa, estrela de "Meninas Malvadas" ("Mean Girls"),
Michael Lohan em fevereiro propôs publicamente conceder o divórcio sem
contestação à mulher, retirando o processo em que reivindica metade dos
ganhos com o gerenciamento da carreira de Lindsay, se a família o acompanhar na realização de um reality show.

"Se um pai de famoso faz uma coisa dessas, isso passa a ter reflexos sobre todos nós", diz Suzan. "As pessoas me perguntam o tempo todo - O que você faz com o dinheiro do seu filho?'"

O desajuste demonstrado pelo clã dos Lohan colocou em evidência as grandes pressões que a celebridade infantil pode trazer para a vida de uma família, um fenômeno já antigo em Hollywood, mas que só recentemente levou à criação de grupos de apoio e livros de ajuda. "Não há possibilidade de uma família não ser profundamente afetada pelo tipo de celebridade que temos hoje em dia", segundo Jeanine Basinger, diretora do departamento de estudos fílmicos da Universidade Wesleyan, que atualmente trabalha num livro sobre o estrelato cinematográfico.

Quanto mais famosa e poderosa for uma criança, mais potencial haverá para
distorção da vida em família e para dificuldades na resolução de problemas familiares, segundo especialistas na indústria.

Numa situação típica, de acordo com ex-astros infantis e com profissionais envolvidos nas carreiras das crianças, os papéis familiares começam a se desgastar quando o trabalho do ator mirim começa a determinar onde a família irá morar, ou se um dos membros da família terá ou não que desistir de um trabalho. Os pais poderão ter que se debater emocionalmente, por serem ofuscados ou ganharem menos que filhos que ainda nem têm idade para dirigir; as crianças, por sua vez, precisam "ralar" para prover as refeições da casa.

O dinheiro -e as questões sobre quem ganha e quem gasta- freqüentemente
está no centro das discussões familiares. No ano passado Aaron Carter,
cantor pop de 17 anos que seguiu os passos de um irmão famoso, Nick Carter dos Backstreet Boys, acusou a mãe dele, Jane Carter, de não prestar conta sobre mais de U$ 100.000 (cerca de R$ 280.000) faturados por Aaaron. Mas por trás dessas acusações há uma questão mais profunda -o jovem cantor alega que a mãe se preocupava mais com a carreira e com os vencimentos dele do que com suas próprias funções maternas.

"Toda vez em que há crianças bem-sucedidas, a fama e a fortuna delas terão papel preponderante", segundo Scott Salomon, que representou o pai de Aaron, Robert Carter, em algumas das disputas familiares, inclusive no divórcio dos Carters.

Aaron e o pai dele não retornaram as ligações dessa reportagem. Jane Carter, que não é mais empresária de Aaron, disse que suas questões foram resolvidas sem litígio, embora também diga que ela e o filho já não têm mais qualquer tipo de contato. Jane disse que os problemas conjugais com Robert Carter, de quem se divorciou, foram os principais culpados, e não a fama e a fortuna de AAron.

"Há muitas famílias que podem lidar com esses assuntos, desde que componham uma forte unidade familiar -o que não era o nosso caso", diz Jane Carter, 46 anos, que já está lançando a filha de 18 anos como cantora e escrevendo um livro sobre os Carters.

Enquanto as atuais celebridades infantis geralmente não são capazes ou não têm vontade de discutir a maneira como a fama delas distorceu a dinâmica familiar, alguns dos astros mais velhos agora conseguem olhar para trás e observar os efeitos da questão.

Paul Petersen, que era o filho adolescente na série de televisão dos anos
cinqüenta "The Donna Reed Show", e que agora é presidente de uma organização que presta assistência legal aos atores mirins, diz que a fama dele teve "conseqüências que duraram por muitos anos".

Lá pelo segundo ano de exibição do programa, segundo Petersen, agora com 59 anos, ele já havia faturado o bastante para dar entrada numa nova casa, para onde se mudou com a família, incluindo duas irmãs e o avô, saindo de seu ambiente de classe média baixa para o conforto dos subúrbios. Mas como a mãe dele precisou devotar horas incontáveis para guiá-lo até os sets de filmagem, as outras crianças acabaram não recebendo a mesma atenção. Férias com acampamento, há muito tempo planejadas, por exemplo, tinham que ser adiadas devido a uma aparição pública que Petersen devia fazer; as saídas em família para um restaurante favorito viravam sessões de autógrafos.

Ele lembra que sua fama incomodava particularmente o pai, que desenhava
aviões para a Lockheed e precisou até recusar uma promoção porque a família precisaria se mudar para Los Angeles, onde o programa era gravado. "Ele odiava ser apresentado como meu pai", lembra-se Petersen, que se mudou da casa familiar para a dele mesmo em Beverly Hills quando tinha 16 anos. "Era meio desmoralizante. De repente, as conquistas profissionais do meu pai não pareciam importar muito."

Anos depois, segundo Petersen, ele ainda se perguntava, "Será que eu dei ao meu pai o devido respeito pelas escolhas que ele fez?"

As famílias têm sido vulneráveis à fama infantil desde os primeiros anos do cinema. Diana Serra Cary, uma estrela mirim que ficou famosa pelo filme "Baby Peggy" nos anos vinte, e que depois se tornou uma cronista de
Hollywood através de vários livros, entre eles "Hollywood's Children: An
Inside Account of the Child Star Era" ("Crianças de Hollywood: a Era das
Estrelas Infantis, Vista de Dentro"), diz que sempre ouvia os pais dela
discutindo sobre o dinheiro faturado pela menina. Diana diz que a mãe sempre se preocupava sobre a maneira como o pai, cavaleiro e boiadeiro que trabalhava como dublê em westerns e que se tornou empresário da filha, investia as centenas de milhares de dólares que vinham do trabalho da "Baby Peggy".

Havia uma expectativa de que as estrelas vivessem "extremamente bem",
segundo Diana Cary. Por isso, a família formada por quatro pessoas
(incluindo uma irmã) moraram em Beverly Hills e em outros endereços
glamurosos, com empregadas, motoristas e tutores. Quando se tornou adulta, diz a ex-estrela, "já não havia um centavo" sobrando, dos mais de U$ 3 milhões que ela estima ter arrecadado desde que tinha 5 anos de idade.

"Já não tinha mais dinheiro nem negócios quando cheguei à idade adulta", diz Diana, que casou aos 20 anos e passou a década seguinte quebrada. "Os pais se tornam viciados na fama, e uma vez que ficam ligados nessa vida fácil tudo pode ficar horrível."

Embora quase um século separe a experiência vivida por ela das estrelas de hoje em dia, ela diz que as disputas em família há muito tempo perturbam as jovens celebridades - de Jackie Coogan a Gary Coleman e Macaulay Culkin, todos sofreram dessas querelas em torno de dinheiro.

E para os artistas algumas questões permanecem as mesmas - como a
responsabilidade pelo bem estar da família, imaginar se os pais os amam pelo que eles são na verdade, ressentimento com os irmãos, ter toda a sua
identidade embalada na persona deles no show-business. "Nunca pude retomar nenhuma espécie de conexão com eles como adulta, e isso porque Baby Peggy havia morrido", diz a sra. Serra Cary sobre os seus pais.

Atualmente os descaminhos vividos pelas crianças que se tornam estrelas são tão comuns que já se transformaram em clichês - com quadros no programa de TV a cabo E! True Hollywood Stories e auto-biografias precoces. Em conseqüência, muitos pais e profissionais que trabalham com jovens estrelas já ficaram mais espertos. Nas entrevistas, muitos citam os mesmos comportamentos, quanto ao que deve e ao que não deve ser feito: Não considere sua criança como o responsável pelo pão da casa, tente manter os velhos amigos, não procure a fama através de seu filho, sempre cumpra as regras de manutenção do lar.

Nancy Carson, agente para talentos infantis que vive em Nova York e já
agenciou Britney Spears, Matt Damon e outros, tendo acabado de escrever
"Raising a Star" ("Criando uma Estrela"), um guia para os pais que será
publicado pela editora St. Martin's Griffin no próximo mês, diz que é vital para a família manter a verdade em relação ao que eles são, especialmente quando há irmãos.

Isso quer dizer, segundo ela, impedir a celebridade de se comportar como uma estrela dentro de casa. "Os pais dizem, por exemplo, `Você precisa arrumar a sua cama'", conta Nancy Carson a respeito de uma situação que ela já viu ocorrer entre algumas famílias. "Aí a criança diz, `Então não vou fazer mais o programa'. No que os pais respondem, `Tá bom, arrumo a sua cama, mas só dessa vez.' Então, de repente, olha aí o pai ou a mãe se rendendo à criança, só porque se perderem o programa eles irão perder o dinheiro, e aí a criança se dá conta do poder que tem."

Susan Adkins, a mãe de Seth, diz que ela e o marido sempre lutaram para
proporcionar ao filho e aos dois irmãos mais velhos, ambos agora na
universidade, as mesmas oportunidades e regras. Criaram uma expectativa em torno dos filhos, para que todos fossem para faculdades, para que não
dirijam até os 18 anos e para que compartilhem os sucessos de todos entre
eles.

Enquanto mãe, ela diz, tudo o que pode fazer é construir bases fortes, para que "se tivermos problemas possamos resolvê-los entre nós mesmos".

A mistura de fama e família é bastante tóxica, a ponto de já ter inspirado vários grupos de apoio, como o de Petersen, chamado "Consideração com os Menores", que vem lidando com questões ligadas a jovens artistas, músicos e atletas desde o início dos anos noventa. Mais recentemente surgiu outro grupo de apoio, o "Biz Parentz", formado há um ano para ensinar às jovens famílias como lidar com o negócio do entretenimento.

O sindicato dos atores, The Screen Actors Guild, que têm cerca de 5.200
membros com idades entre 7 e 17 anos, também tem um comitê de jovens
artistas, especialmente para lidar com as típicas questões dos astros
mirins.

Ainda assim, alguns pais se dizem ressentidos quanto à má reputação que
desfrutam, devido a poucos casos litigiosos que chegam ao noticiário e
acabaram resultando na chamada lei Coogan, que estabelece que uma cota de 15% dos rendimentos obtidos por um jovem astro deve ser depositada num
fundo. A lei, que recebeu uma versão nova-iorquina no ano passado, foi
batizada assim devido ao nome do ator infantil Jackie Coogan, que uma vez
descobriu que a mãe e o padrasto gastaram os milhões que ele recebeu por suas interpretações.

"Somos meio vilanizados nessa indústria", diz Anne Henry, fundadora da
organização Biz Parentz, argumentando que o desajuste vivido por algumas
famílias destrói a carreira de seus filhos no show business. Mãe de três
jovens atores, Anne Henry diz que além de terem que lidar com essa má
imagem, os pais ainda enfrentam pressões, como a força que muitos estúdios, produtoras e gerentes dão para que os jovens atores obtenham logo sua emancipação legal, para que possam trabalhar como adultos sem se sujeitarem às leis trabalhistas que restringem suas horas de trabalho, entre outros problemas.

"Quem se importa mais com os filhos, a não ser os próprios pais?", pergunta Anne.

Mas do ponto de vista de Petersen, o antigo astro mirim, ninguém está imune às armadilhas da vida de celebridade.

"A Fama altera a maneira como as pessoas se comportam ao seu redor", diz
Petersen. "E isso vale até para os próprios integrantes da família." Marcelo Godoy

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