UOL Notícias Internacional
 

23/03/2005

Blair e trabalhistas enfrentam pleito imprevisível

The New York Times
Alan Cowell

Em Londres
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    O primeiro-ministro Tony Blair apareceu na televisão recentemente, buscando atrair os eleitores de volta ao seu Partido Trabalhista nas eleições previstas para o início de maio. Mas o que ele descobriu é que alguns britânicos começaram a pelo menos questionar sua liderança, considerando a perspectiva antes impensável de uma vida sem ele.

    Marion Baxter, uma enfermeira, lhe perguntou diretamente se estava disposto a limpar as costas dos pacientes por US$ 9 a hora. Maria Hutchings, uma administradora, atravessou o estúdio na direção dele dizendo: "Isto é papo furado, Tony". Debra Kroll, uma parteira, lhe disse: "Nós lhe pedimos para não ir à guerra", e exigiu um pedido de desculpa por ter invadido o Iraque. (Ele não o fez.)

    Animado e aparentemente invencível, Blair chegou ao poder em 1997 prometendo mudar a imagem da Grã-Bretanha. Mas ultimamente, sua estrela está em queda enquanto enfrenta uma adversidade política atrás da outra, desde a altamente impopular guerra no Iraque até questões domésticas como o número de leitos hospitalares para cirurgia e a decadência das escolas.

    Poucas pessoas aqui acham que Blair e os trabalhistas estão caminhando para uma derrota. De fato, após a morte de Iasser Arafat e a eleição bem-sucedida no Iraque, Blair, assim com o presidente Bush, está esperando explorar os movimentos de paz e transformação pelo Oriente Médio para reconstrução de sua imagem.

    Mas para estabelecer a base de um terceiro mandato bem-sucedido e superar a concorrência de seu antigo rival trabalhista, Gordon Brown, Blair precisa não apenas vencer, mas vencer convincentemente. E para conseguir isto, ele precisa conquistar não apenas o crescente número de eleitores que não estão mais impressionados com sua atuação na arena diplomática global.

    Nos termos mais simples, Blair e o eleitorado britânico não estão se dando tão bem quanto costumavam, um fato que ele reconheceu recentemente.

    "De repente", ele disse em uma conferência do Partido Trabalhista em fevereiro, "você está lá, com a população britânica pensando: 'Você não está escutando'. E eu penso: 'Vocês não estão me ouvindo'".

    "E antes que perceba, vocês levantam sua voz; eu levanto a minha", ele continuou. "Alguns de vocês atiram pratos. E agora vocês, a população britânica, precisam se sentar e decidir se querem que o relacionamento continue."

    A metáfora conjugal foi astutamente escolhida, refletindo seu apelo cada vez menor junto às mulheres --antes a base de seu apoio eleitoral-- que parecem ter desenvolvido uma grande resistência ao seu charme considerável.

    A vantagem do Partido Trabalhista sobre a oposição conservadora na mais recente pesquisa do Instituto Mori caiu de 10 pontos percentuais, em outubro passado, para apenas 2 pontos percentuais no final de fevereiro. Em uma pesquisa, a maioria das mulheres disse que não confia nele.

    Para piorar, após uma série de batalhas parlamentares e passos políticos em falso de seus assessores, o cálculo político mais básico na Grã-Bretanha pode estar se afastando da visão de que os trabalhistas são simplesmente invencíveis.

    "Ninguém espera perder esta eleição", escreveu a colunista Polly Toynbee no jornal "The Guardian", de inclinação esquerdista, se referindo ao apoio aos trabalhistas de Blair, "mas pela primeira vez eles conseguem imaginar isto".

    Isto mostra o quanto Blair caiu, como Dédalo, desde 1997, quando conduziu seu partido ao poder após 18 anos na oposição. Em 2001 ele foi reeleito com outra vitória esmagadora.

    Mas, de lá para cá, a invasão no Iraque e o crescente desencanto com a incapacidade dos trabalhistas de cumprir suas promessas de melhorar as escolas e o serviço nacional de saúde provocaram uma profunda desilusão e um persistente questionamento de sua liderança.

    Sem dúvida, a guerra no Iraque provocou os ferimentos políticos mais profundos. Ao basear sua política externa em uma firme aliança com os Estados Unidos, ele compartilhou as convicções declaradas publicamente por Bush sobre a necessidade de desarmar Saddam Hussein, insistindo que o Iraque tinha armas proibidas que representavam uma "ameaça séria e atual".

    Quando essas convicções não apareciam devido à guerra, a credibilidade de Blair foi amplamente questionada --particularmente por seus próprios eleitores, que eram amplamente contrários à guerra desde o início.

    "Está claro que um número considerável de pessoas se voltou contra o governo por causa da guerra, e um grande número delas continua hostil", disse Anthony King, um professor de governo da Universidade de Essex. Mesmo antes da guerra, ele lembrou, o governo Blair já era considerado culpado de distorção de fatos.

    Ao mesmo tempo, a máquina eleitoral antes invencível dos trabalhistas pareceu enfraquecer, mesmo que apenas temporariamente, por disputas internas, particularmente entre Blair e Brown, enquanto a oposição conservadora começava a demonstrar uma autoconfiança incomum sob seu novo líder, Michael Howard.

    "Michael Howard pensa seriamente que é capaz de vencer a próxima eleição", escreveu Piers Morgan, um ex-editor do tablóide "Daily Mirror". "E o que é mais extraordinário é que estou começando a concordar com ele."

    Tudo isto pode ser apenas hipérbole pré-eleitoral, particularmente considerando que os conservadores apoiaram o ingresso de Blair na guerra. Segundo o sistema eleitoral britânico, os conservadores precisariam de uma reversão de posição nunca vista na direção deles para vencerem.

    Blair também pode estar sofrendo do familiar cansaço do eleitorado, que afeta políticos como ele, com dois mandatos cumpridos e um terceiro à vista.

    Mas há sinais, como sugeriu Howard, o líder da oposição, de que os trabalhistas estejam "aturdidos" com seus reveses e que Blair esteja buscando abrandar sua imagem.

    O primeiro-ministro tem buscado evitar a mídia tradicional --vista por seus assessores como incansavelmente hostil-- em prol de uma série de aparições públicas e entrevistas cuidadosamente escolhidas para atingir os eleitores potenciais fora do círculo político tradicional. Isto ficou bem evidente em suas tentativas de reconquistar o apoio entre o eleitorado feminino.

    Em várias ocasiões nas últimas semanas, ele apareceu em programas de entrevista diurnos de televisão, onde se expôs à ira das mulheres para com suas políticas. A franqueza das críticas delas sugere que o apelo que Blair desfrutava desapareceu há muito tempo.

    Seus assessores a chamam de estratégia masoquista, visando expor a dissensão muito antes das eleições. Seus críticos consideram apenas masoquismo puro e simples, de um tipo difícil de imaginar na política de grande parte da Europa ou dos Estados Unidos.

    Em uma revista de rock, Blair reconheceu ter feito imitações de Mick Jagger em uma banda chamada Ugly Rumors. Suas aparições na televisão diurna também parecem visar mostrar que ele não é a figura presidencial distante como seus críticos o descrevem. "Ao saturar a raiva, ele calcula que será capaz de drená-la", escreveu o colunista Andrew Rawnsley na revista semanal "Observer".

    Para Blair, os desafios políticos vão muito além do esforço tradicional contra os conservadores e o pequeno Partido Democrático Liberal, se estendendo até sua rivalidade com Brown, que muitos eleitores acreditam que seria um primeiro-ministro mais capaz.

    Em uma pesquisa para o "Daily Telegraph", 63% dos eleitores disseram que consideram Brown como um trunfo para os trabalhistas, em comparação a apenas 34% para Blair. Quando questionados sobre quem faria um melhor trabalho, mais da metade escolheu Brown, que como ministro das Finanças recebe o crédito por uma economia forte, enquanto apenas 17% escolheram Blair.

    De fato, foi dito que Blair prometeu a Brown há mais de uma década que ele iria, a certa altura, ceder o posto de primeiro-ministro a ele. Mas segundo os relatos mais recentes, ele quebrou tal promessa no ano passado e disse que cumpriria o terceiro mandato caso vencesse nas próximas eleições.

    Assim, o cálculo eleitoral é mais ou menos este: se a maioria de Blair de cerca de 160 cadeiras na Câmara dos Comuns, de 659 cadeiras, for significantemente enfraquecida pela votação de 5 de maio, o argumento de Brown para assumir o governo durante o esperado terceiro mandato trabalhista sairá fortalecido. Se Blair obtiver outra grande margem como fez em 1997 e 2001, então sua autoridade será consolidada.

    "A expectativa geral é de uma redução da maioria trabalhista com um baixo comparecimento dos eleitores para votar", disse Clare Short, uma ex-ministra trabalhista que rompeu com Blair por causa da guerra no Iraque. "A pergunta é de quanto será a redução da maioria." Primeiro-ministro britânico terá dificuladades para obter 3º mandato George El Khouri Andolfato
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