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23/03/2005

Escândalos no futebol ainda chocam a Alemanha

The New York Times
Por Mark Landler

Em Berlim
Para Franz Beckenbauer, a antiga estrela do futebol alemão, orquestrar a Copa do Mundo do ano que vem na Alemanha teria tudo para ser a cereja no bolo de uma carreira triunfal de quatro décadas.

Mas, faltando 15 meses apenas para que seja dado o pontapé inicial deste prestigioso torneio no estádio de sua cidade, Munique, Beckenbauer diz que se sente como alguém que está sendo atacado por todos os lados.

O comitê que está organizando a Copa do Mundo vem sofrendo ataques dos meios de comunicação alemães, que o criticam pelas mais diversas razões, desde o seu logotipo --o desenho de três sorridentes faces caricaturais tachadas pelos críticos de "sem graça" e insípidas-- até a sua cerveja oficial, fornecida pela cervejaria americana Anheuser-Busch, que é um dos parceiros da Fifa, a entidade que dirige o futebol mundial.

Contudo, estes são sobressaltos de menor importância se comparados com o tumulto que tomou conta do futebol alemão desde o final de janeiro, quando representantes de Justiça em Berlim prenderam um árbitro acusado de ter manipulado o resultado de várias partidas por dinheiro.

O escândalo foi se ampliando rapidamente, envolvendo cerca de 25 pessoas, entre as quais três árbitros e 14 jogadores. Há suspeitas de que mais de uma dúzia de partidas tenham sido manipuladas.

Os clubes de futebol estão ameaçando uns aos outros com ações na Justiça, enquanto os críticos afirmam que a Federação Alemã de Futebol, que organiza o campeonato, ignorou um alerta a respeito de um esquema de falsificação de resultados que havia sido dado no verão passado.

O timing, nem é preciso dizer, não poderia ser pior.

O fluxo regular de revelações está eclipsando os preparativos da Alemanha para a Copa do Mundo, os quais, segundo a maioria dos observadores, estão muito bem encaminhados a esta altura do campeonato, em todo caso bem melhor do que os das nações organizadoras precedentes nesta época. Isso mostra que ninguém aqui dá muito valor ao planejamento alemão, ao contrário do que vem acontecendo com a corrupção no esporte predileto dos alemães.

"Eu nunca teria acreditado que esse tipo de coisa fosse possível no futebol alemão, e que isso aconteceria um ano e meio antes da Copa do Mundo", disse Beckenbauer numa recente entrevista em Berlim. "Isso tumultuou os nossos preparativos num momento em que nós não podemos nos permitir ficar distraídos".

Beckenbauer acrescentou que ele esperava que as piores revelações já tivessem sido ventiladas. Dirigentes da Fifa declararam que o escândalo não havia prejudicado a sua confiança na Alemanha como país organizador.

Mas, em 11 de março, Steffen Karl, um meio-campista, admitiu ter oferecido ao goleiro de um time de Cottbus, uma cidade da Alemanha Oriental, um valor acima de 20.000 euros (R$ 70.927) para forçar o resultado de uma partida entre times da segunda divisão.

Karl é o primeiro jogador a ser preso pela procuradoria geral de Berlim, que está dirigindo as investigações. Dois árbitros também foram presos: Robert Hoyzer, cujo depoimento, no qual ele revelou ter aceitado subornos para manipular o resultado de partidas, deu início ao escândalo; e Dominik Marks, que foi envolvido por Hoyzer.

"Eu espero que tudo isso esteja terminado dentro de um a dois meses, mas nunca se sabe", disse Rainer Holzschuh, um colunista e editor em chefe da "Kicker", uma revista de esportes alemã. "Um mês atrás, eu teria dito que este caso envolvia uma ou duas pessoas no máximo. Agora, eu devo dizer que eu não sei".

Apesar de sua reputação ser globalmente de lisura, o futebol alemão nunca permaneceu imune aos escândalos. Em 1971, quando Beckenbauer era uma estrela em ascensão, a Bundesliga (o Campeonato Alemão da primeira divisão) foi sacudida por uma onda de denúncias de casos de suborno e de partidas com resultado manipulado, nas quais estavam envolvidos mais de cinqüenta jogadores, além de técnicos e de funcionários.

Aquele escândalo apanhou numa armadilha clubes da Bundesliga --a primeira divisão, na qual o Bayern de Munique e outros clubes famosos competem entre si-- mas, no escândalo atual, as acusações estão limitadas às segunda e terceira divisões. Isso também abalou os torcedores alemães na sua convicção preconceituosa de que a corrupção no futebol era principalmente um fenômeno italiano.

O escândalo de 1971 vem assombrando amplamente a memória de veteranos como Beckenbauer, que, ao longo de sua carreira, participou de duas Copas do Mundo, uma como jogador (1974) e outra, como técnico (1990) --e passou também uma temporada com o Cosmos, o clube da primeira divisão americana-- , tornando-se emblemático do futebol bem jogado, de técnica impecável e da esportividade que caracterizam o esporte na Alemanha.

"Todos os esportes enfrentam problemas com coisas tais como o doping ou a trapaça", disse. "Mas o futebol não teve tantos problemas desse tipo quanto muitos outros esportes".

Beckenbauer, entretanto, quer simplesmente que se mude de assunto. A Alemanha construiu ou reformou doze estádios, entre os quais uma nova arena futurista em Munique e um Estádio Olímpico em Berlim que foi renovado por completo, lá mesmo onde Jesse Owens conquistou quatro medalhas de ouro em 1936, e onde a final desta Copa do Mundo será disputada, em 9 de julho de 2006.

Com um investimento desta magnitude, Beckenbauer diz que a Copa do Mundo poderia ser uma vitrine cintilante para a Alemanha --com a condição de se deixar de lado aquelas distrações e de retornar ao trabalho.

"Nós precisamos recuperar o nosso espírito combativo", conclui. "Nós nos tornamos um pouco negativos como país". "Espírito negativo" está prejudicando preparativos da Copa de 2006 Jean-Yves de Neufville

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