UOL Notícias Internacional
 

23/03/2005

EUA querem endurecer vigilância na fronteira para barrar imigração ilegal mexicana

The New York Times
James C. McKinley Jr.

Em Mexicali, México
Quando autoridades alfandegárias americanas descobriram aqui o mais recente túnel sob a fronteira no mês passado, elas ficaram atônitas. Completo com piso de cimento e sistema de intercomunicação, a passagem cruzava quase 200 metros de uma casa de um lado de uma cerca enferrujada de metal, passava por duas ruas e um conjunto de apartamentos, e saía em uma casa modesta na Califórnia.

Ann Johansson/The New York Times

Mexicanos tentam atingir os EUA atravessando um rio cheio de detritos industriais e humanos
Apesar de mais elaborado, o túnel não é diferente de 15 outros encontrados durante os anos 90, construídos pelos cartéis de drogas. Mas tudo no mundo pós-11 de setembro de 2001 assumiu um aspecto diferente.

Hoje, túneis como este estão no ponto onde os fracassos de políticas de drogas, controle de fronteira e reforma da imigração se encontram com questões urgentes de segurança nacional. As autoridades americanas temem que os túneis possam ser usados com a mesma facilidade para a entrada no país de terroristas e explosivos da mesma forma que imigrantes ilegais e cocaína.

Tal confluência de preocupações forma o pano de fundo do encontro desta quarta-feira (23/03) no Texas entre o presidente Bush, o presidente do México, Vicente Fox, e o primeiro-ministro do Canadá, Paul Martin. Mas apesar da convergência de questões, o mesmo pode não ser dito dos interesses dos Estados Unidos e de seus vizinhos.

Para Bush e para o Congresso liderado pelos republicanos com o qual ele precisa trabalhar, a segurança está no topo da agenda. Para o México, são mudanças na imigração que abririam a fronteira para um fluxo mais livre de trabalhadores emigrantes. Para o liberal Canadá, é o imperativo das políticas externa e doméstica que cada vez mais divergem do consenso conservador de Washington.

Altos funcionários do governo Bush disseram na terça-feira que os três líderes não deverão anunciar nenhum acordo concreto após o encontro na Universidade Baylor, em Waco, que será seguido por um almoço no rancho de Bush em Crawford.

Em vez disso, os três homens anunciarão uma nova base e cronograma para a solução de uma série de difíceis questões de comércio e segurança, entre elas a permissão para que mais trabalhadores cruzem legalmente as fronteiras para trabalho e maior cooperação contra os terroristas.

Há um ano, Bush propôs uma grande expansão do programa de trabalhadores convidados para os mexicanos. Mas para grande desalento de Fox, a idéia foi esquecida. Nas duas últimas semanas, diplomatas americanos deixaram claro que o Congresso dificilmente agirá a menos que o México faça mais para reforçar a fronteira e reduzir a criminalidade desenfreada no seu lado.

"O que o México precisa entender é que a imigração é vista como uma questão de segurança nos Estados Unidos, e eles parecem não dar a ela a mesma importância que nós", disse o senador John Cornyn, republicano do Texas, que assumiu o comando do debate sobre a expansão do programa de trabalhadores convidados.

Talvez em nenhum outro lugar a natureza inexorável da emigração mexicana para o norte --e a vulnerabilidade dos Estados Unidos para infiltração, seja por imigrantes ou terroristas-- esteja mais aparente do que em Mexicali e sua cidade irmã, Calexico, Califórnia.

Os investigadores disseram que duvidam que os construtores do elaborado túnel descoberto aqui tenham gasto os estimados US$ 1 milhão apenas para permitir a entrada de imigrantes destinados a trabalhar na colheita de uvas ou em lojas de conveniência.

É mais provável, eles disseram, que o túnel tenha sido construído para o contrabando de drogas lucrativas como a cocaína e a heroína, mas outra linha de investigação é a de que a intenção de seus construtores possa ter sido vender passagem para terroristas ou outros criminosos.

"Há este túnel que pode ser usado para qualquer coisa", disse Michael Unzueta, o agente especial encarregado do escritório de San Diego do Escritório de Imigração e Alfândega.

Enquanto isso, têm soado alarmes em Washington sobre os riscos pós-11 de setembro de uma fronteira porosa de mais de 3.200 quilômetros de extensão.

James Loy, o vice-secretário de Segurança Interna, disse no mês passado que relatórios de inteligência mostraram que os terroristas da Al Qaeda provavelmente tentariam entrar no país pelo México, por uma fronteira atravessada anualmente por pelo menos 300 mil pessoas virtualmente sem serem rastreadas e impunemente.

Porter Goss, o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), disse na semana passada ao Comitê de Serviços Armados do Senado que os Estados Unidos estavam vulneráveis a infiltração de terroristas pelo "quintal dos fundos".

Mas para Fox, uma fronteira mais fechada que afaste os mexicanos de empregos desesperadamente necessários nos Estados Unidos não é necessariamente do seu interesse. Na semana passada, em uma profunda divergência com Washington, ele condenou publicamente uma medida aprovada na Câmara dos Deputados, que ordenara a conclusão da construção há muito tempo parada de uma muro de segurança entre Tijuana e San Diego.

Em vez de ser concluído, ele disse, o muro deveria ser derrubado. "Nenhum país que se orgulhe de si mesmo deveria construir muros", ele disse aos repórteres na Cidade do México, em 15 de março. "Ninguém pode se isolar atualmente com um muro."

Ele e outros defensores da reforma na imigração e do programa de trabalhadores convidados argumentam que muros mais altos e controles mais severos causarão mais mal que bem, ao forçar mais emigrantes a empregar meios ilegais, o que também facilitaria para os terroristas a travessia ilegal.

Mas os oponentes, como o deputado Tom Tancredo, um republicano conservador do Colorado, dizem que o programa de trabalhadores convidados não faz sentido a menos que haja uma fronteira mais fechada.

Em uma linguagem cada vez mais ríspida, Fox tem pintado o movimento antiimigrante como obra de "grupos minoritários, xenofóbicos e discriminatórios" que não reconhecem a contribuição dos 3 milhões de mexicanos que trabalham ilegalmente nos Estados Unidos. A medida aprovada na Câmara na semana passada dificultará para os imigrantes a obtenção de carteiras de motorista.

Boaindo em água de esgoto

Mais alarmante, um grupo de autoproclamados patriotas, que chamam a si mesmos de Projeto Minuteman (miliciano da Guerra da Independência que se comprometia a entrar em ação imediatamente), está planejando vigiar a fronteira ao longo do Arizona em abril, para denunciar os imigrantes ilegais que atravessarem pelo Vale de San Pedro.

Aqui em Mexicali, os túneis são apenas uma rota de travessia. Toda manhã os agentes da Patrulha de Fronteira encontram de cinco a oito novos buracos abertos na alta cerca de metal enferrujada que separa a cidade dos Estados Unidos. Albert Garcia, um soldador da Proteção de Fronteira, percorre zelosamente a barreira recolocando com solda os pesados pedaços recortados.

À noite, os imigrantes se despem e mergulham na água fétida do Rio Novo, um canal estreito e altamente poluído que cheira a fezes humanas, produtos químicos e toda espécie de coisa pútrida.

Eles bóiam silenciosamente em grupos em meio a acúmulos de espuma branca causada por detergentes enquanto os agentes da Patrulha de Fronteira os observam da margem, aguardando para ver onde farão a tentativa de sair e correr."Eles sabem que não entraremos na água atrás deles", disse um jovem agente, que não deu o seu nome. "Não vale o risco."

Outros pulam o muro, caindo no chão do outro lado e então correndo para um carro que os aguarda, ou cruzam a gélida região montanhosa do deserto ou o escaldante deserto de Sonora.

Cerca de 80 emigrantes morrem no lado americano a cada ano por exposição apenas nesta área, disseram autoridades alfandegárias. No ano passado, a Patrulha de Fronteira capturou 1,1 milhão de pessoas tentando atravessar ilegalmente, mas ela estima que entre 300 mil e 400 mil conseguem passar.

Para alguns mexicanos, a fronteira aqui parece uma afronta cultural. Na noite de segunda-feira, Carmen Castillo, uma ex-auxiliar de enfermagem de 47 anos que foi deportada juntamente com seu marido em setembro passado, após viver ilegalmente por 18 anos na Califórnia, veio até o muro de Mexicali para visitar seus cinco filhos e um neto que ela nunca conheceu.

Ela conversou com seus filhos, todos nascidos nos Estados Unidos e com cidadania, acariciando suas cabeças e brincando com o bebê através das barras enferrujadas que dividem os dois países.

"É como uma visita na prisão", disse a filha, Carmen Nero, enquanto segurava seu filho pequeno na altura das barras. "É de partir o coração. É triste a existência de uma cerca quando sabemos que devíamos estar todos juntos". Por ano, 1,1 milhão são presos, mas 300 mil conseguem emigrar George El Khouri Andolfato

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