UOL Notícias Internacional
 

25/03/2005

Deus do céu! Realmente estamos numa teocracia

The New York Times
Maureen Dowd

Em Nova York
NYT Image

Maureen Dowd é colunista
Será que os republicanos estão tão obcecados assim em manter o controle sobre todos os ramos do governo, e os democratas tão enfraquecidos por não terem qualquer poder, a ponto de quererem transformar a nação numa simples filial da igreja, totalmente servil a ela?

Quanto mais tagarelam sobre fé os ativistas movidos por dogmas, os políticos que se autoperpetuam e a mídia televisiva ávida por audiência, menos honramos a crença de que a relação de uma pessoa com Deus deve permanecer como assunto de caráter privado.

Enquanto a Casa Branca de Bush manobra desesperadamente no Iraque para impedir o novo governo de ser regido de acordo com as ordens ditatoriais de fundamentalistas religiosos, o governo americano também manobra desesperadamente por aqui, querendo saciar fundamentalistas religiosos que pretendem ditar como o governo deve ser conduzido.

Talvez o presidente Bush deva gastar menos tempo pregando sobre a expansão da democracia pelo mundo e mais tempo se preocupando sobre nossa própria democracia em estado de deterioração.

Até mesmo alguns republicanos parecem chocados com mais essa recente comprovação daquele comentário de Nietzsche, que dizia que "a moralidade é o melhor de todos os recursos para trapacear a humanidade".

Como diz Christopher Shays, um dos cinco republicanos da Câmara dos Representantes que votaram contra a medida que permitiu a transferência do caso Terri Schiavo, da jurisdição do Estado da Flórida para uma corte federal: "Esse nosso Partido Republicano de Lincoln se transformou mesmo num partido da teocracia. Essa votação irá gerar repercussões".

Uma pesquisa realizada pela CBS News, na quarta-feira (23/03), descobriu que 82% do público estava contra a intervenção do Congresso e do presidente nesse caso; 74% acreditam que tudo isso não passa de jogada política.

O presidente, que não se apressou em sair de casa para falar sobre as mais de cem mil vítimas que morreram após o tenebroso tsunami, fez questão de ser retirado da cama para assinar uma medida sobre uma mulher que virou tema obsessivo das bases políticas dele. Mas com a divulgação dessas novas pesquisas, a Casa Branca parece ter se encolhido um pouco.

A cena ocorrida no Capitólio nessa semana que passou foi quase tão absurdamente macabra quanto o que se passou no filme "Um Morto Muito Louco" (Weekend at Bernie's), só que com Tom DeLay e Bill Frist se debatendo, tendo entre eles essa pobre mulher em estado vegetativo, só para cumprirem suas próprias agendas políticas.

DeLay, um autêntico modelo de abuso ético, quis mostrar que ele ainda é um favorito dos conservadores. Frist acha que pode superar Jeb Bush na luta pela indicação republicana para ser eleito o 44º presidente dos EUA em 2008, embora tenha virado motivo de piada por tentar um novo diagnóstico sobre a condição de Schiavo apenas pelas imagens em vídeo.

Como sugeriu por e-mail um revoltado leitor de The New York Times: "Os americanos deveriam encaminhar a Bill Frist suas dúvidas da seguinte forma: 'Caro dr. Frist: Por favor assista ao vídeo em anexo e nos diga se essa verruga no queixo da minha mãe é câncer. Será que ela precisa de cirurgia?'"

Jeb, seguindo a agenda para a competição em 2008, tentou em vão fazer com que a Flórida mantivesse Schiavo sob a custódia do Estado.

Os republicanos facilmente abandonam seus velhos princípios tão queridos, de manutenção da privacidade do indivíduo e dos direitos dos Estados, quando suas ambições pessoais estão em jogo. A primeira vez que eles removeram um processo da Corte Estadual da Flórida para um tribunal federal foi quando Bush e Gore se enfrentaram [na contestada eleição presidencial de 2000]. Dessa vez, é Bush contra a Constituição.

Enquanto alguns democratas do Senado como Hillary Clinton, que está tentando se dar melhor com a turma dos "Estados vermelhos" (os que votam nos republicanos), docilmente permitiram a promulgação dessa vergonhosa medida, pelo menos alguns representantes estaduais da Flórida decidiram partir para a briga, embora soubessem que não poderiam ganhar.

O presidente e seus parceiros ideológicos não acreditam na separação dos poderes. Eles só acreditam em seu próprio poder. Primeiro tentaram enganar as cortes da Flórida; agora tentam encher as tribunas federais com conservadores e até mesmo aplicar, como tática diversionista, a regra que permite aos parlamentares a realização de longos discursos para tumultuar votações.

Mas eles ainda têm que aprender uma lição sobre controles e saldos políticos, já que as cortes federais recusaram o ponto de vista deles no caso Schiavo.

DeLay agiu nessa quarta-feira no sentido de manobrar junto à Suprema Corte, para que o tubo de alimentação de Schiavo seja restaurado, enquanto o tribunal federal toma a sua decisão. Mas enquanto explora esse triste caso, o mesmo DeLay votou para cortar o programa de assistência social Medicaid em US$ 15 bilhões, negando dinheiro para cuidar de pessoas pobres em asilos e casas de repouso, sendo que algumas delas precisam usar tubos de alimentação.

DeLay deixou claro seu ponto de vista numa conferência organizada na última sexta-feira (18), pelo Conselho de Pesquisas para a Família, grupo cristão conservador. Ele disse que Deus colocou essa questão de Terri Schiavo em evidência "para ajudar a elevar a visibilidade do que está ocorrendo nos Estados Unidos".

Ele definiu as reações como "ataques contra o movimento conservador, contra mim e contra muitos outros".

Então o que importa (para ele) não é a crise vivida pela moça. Só o que importa é a crise que ele vive. Caso de Terri Schiavo mostra negação, procrastinação e demagogia Marcelo Godoy

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