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25/03/2005

Igreja do Brasil deverá reconhecer a importância de Padre Cícero, apontam religiosos

The New York Times
LARRY ROHTER

Em Juazeiro do Norte, Ceará
Em uma missa realizada aqui certo dia em 1889, uma mulher que estava recebendo a comunhão declarou que a hóstia se transformou em sangue em sua boca. Apesar da população local ter considerado aquilo um milagre, a Igreja Católica Romana não ficou contente, e eventualmente suspendeu o padre envolvido, Cícero Romão Batista, de suas funções.

James Estrin/The New York Times

Cicero Cleber de Oliveira, 9, à direita, vestido como Padre Cícero, acompanha garotas vestidas como anjos em frente a imagem do padre no CE
Mas a fama do padre Cícero como autor de milagres continuou a se espalhar, tanto que até hoje pessoas de todas as partes do Brasil, o país com a maior população católica romana do mundo, acreditam nele como um santo.

Agora, para alegria dos fiéis que se reúnem aqui todo ano durante a Semana Santa, na data do aniversário dele, 24 de março, e em outras datas importantes, a mesma hierarquia eclesiástica que afastou e perseguiu o querido "Guia Espiritual e Intermediário" deles, está finalmente agindo para reabilitá-lo.

"O padre Cícero foi uma figura controversa cujas ações incomodaram muitas pessoas, como acontece com as ações de todos os profetas", disse Fernando Panico, o bispo católico romano daqui desde 2001. "Mas nós não podemos negar que ele sempre permaneceu fiel à Igreja apesar de seu sofrimento, nem podemos permanecer indiferentes à expressão simbólica da fé que ele representa para as pessoas."

A cada ano, cerca de 2 milhões de peregrinos visitam os locais e templos associados ao padre Cícero aqui no coração do árido sertão do Nordeste do Brasil. Há a capela onde ele está enterrado, a casa onde ele morreu, a igreja onde foi o pároco, um museu e, no alto de uma colina com vista para esta cidade de 225 mil habitantes, se encontra uma estátua de alabastro de 25 metros dele, com seus característicos chapéu de aba larga e bengala na mão.

Encorajados pela mudança de postura da Igreja, os fiéis do padre Cícero estão torcendo para que ele seja rapidamente beatificado e canonizado. Panico disse que "parece existir boa vontade em Roma", mas ele também falou de um processo longo e complicado.

Mas se tal processo tiver início, os fiéis do padre Cícero estão confiantes de que não haverá falta de milagres para apoiar sua causa. Na "Casa dos Milagres" daqui, o chão está lotado de modelos de madeira, plástico e cera de braços, pernas, mãos, pés, cabeças e tórax, deixados pelos peregrinos que creditam ao padre Cícero suas recuperações surpreendentes de doenças fatais e acidentes.

Há também fotografias e cartas de agradecimento, muitas escritas com a caligrafia de pessoas de baixa escolaridade. Mas outros depoimentos agradecem o Padre Cícero por vitórias em processos ou pela obtenção de diplomas universitários, e um conhecido cantor popular deixou uma recordação agradecendo a intervenção do padre ao lhe permitir emplacar um hit de sucesso que marcou seu retorno e sobreviver a um acidente de automóvel.

A população local diz que até mesmo Panico se beneficiou dos poderes de cura do padre Cícero. Quando o bispo anunciou dois anos atrás que tinha câncer, os peregrinos iniciaram uma campanha de orações por sua recuperação. Agora ele está em remissão, e apesar de hesitar em falar em um milagre, outros não hesitam.

"O padre Cícero é um profeta, um santo, um ser divino que tem o poder de conceder graças incontáveis para aqueles que têm fé nele", disse Maria Pereira Cordeiro, uma aposentada de 64 anos. "Eu não sou uma pessoa letrada, mas acho que Deus enviou dom Fernando para ajudar a Igreja a reconhecer a grandeza do padre Cícero."

Mas a veneração ao padre Cícero é mais do que apenas um fenômeno religioso. Afastado do sacerdócio, ele se voltou para a política. Ele se tornou o primeiro prefeito desta cidade, que hoje chama a si mesma de "a Capital da Fé", e posteriormente foi escolhido como vice-governador de seu Estado natal e eleito para o Congresso, apesar de nunca ter exercido nenhum destes cargos.

Ele morreu em 20 de julho de 1934, aos 90 anos de idade. "Entre as classes baixas, havia a sensação de que o padre Cícero logo retornaria com a declaração do milênio e a libertação do pobres", disse o dr. Ralph Della Cava, autor de um importante trabalho em inglês sobre o padre Cícero e um especialista em religiosidade popular no Brasil.

Com o tempo, tal sentimento passou, substituído "por uma sensação de que o padre Cícero é tanto um autor de milagres ou intermediário junto ao Ente Supremo quanto qualquer santo legítimo da Igreja", acrescentou Della Cava, um pesquisador associado sênior do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Colúmbia.

Apesar da contínua relutância da Igreja Católica Romana em aceitar o padre Cícero e seu legado, outros não relutaram. Por anos, qualquer político concorrendo a cargos federais ou estaduais fazia parada de campanha em Juazeiro do Norte; alguns candidatos e autoridades eleitas até mesmo pagam ônibus fretados e caminhões lotados, conhecidos como "paus-de-arara", para trazerem os peregrinos aqui.

Antivírus

Um fator para a recente mudança de posição da Igreja pode ser o fato de que o exército de peregrinos simplesmente é uma força espiritual poderosa demais para ser ignorada. No momento em que as seitas protestantes fundamentalistas estão desafiando o domínio da Igreja Católica Romana por todo o Brasil, faz sentido considerar os devotos do padre Cícero como aliados, em vez de fanáticos ou cismáticos.

"Graças aos peregrinos e sua fé, as igrejas evangélicas não estão conseguindo muito progresso por aqui", disse Panico. "O padre Cícero é como um antivírus."

Manoel de Lima Sousa, pastor de uma igreja da Assembléia de Deus que dá vista para a estátua gigante, reconheceu que tem sido mais difícil converter os católicos nesta região do que em outras partes do Brasil.

Ele descreveu o padre Cícero como "um grande homem cuja memória merece respeito e que fez coisas admiráveis pelo povo", mas também disse que os grupos evangélicos não podem aceitar em boa fé o culto que cresceu em torno dele.

Algumas poucas famílias tradicionais locais, ainda ofendidas pelo zelo do padre Cícero na defesa dos pobres, também continuam a expressar dúvidas sobre sua reabilitação. Mas parece não haver como deter outro milagre em Juazeiro.

"A Igreja esperou 500 anos para reconhecer que cometeu um erro ao condenar Galileu", disse André Herzog Cardoso, reitor da Universidade Regional do Cariri daqui. "Eu não acho que ela cometerá o mesmo erro desta vez. É uma questão de sobrevivência." No sertão, brasileiros fazem um caminho pedregoso para santidade George El Khouri Andolfato

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