UOL Notícias Internacional
 

27/03/2005

Para os recrutadores, um fardo pesado e uma venda difícil

The New York Times
Damien Cave

Em Nova York
Os recrutadores do Exército estão enfrentando a difícil tarefa de recrutar uma força totalmente voluntária durante um período prolongado de conflito, e muitos dizem que as exigências estão começando a ter efeito negativo sobre eles.

Um recrutador em Nova York disse que a pressão do Exército para o cumprimento das metas de recrutamento durante um período de guerra tem lhe dado problemas de estômago e dores nas costas. Sofrendo de crises de depressão, ele disse que já pensou em suicídio.

Outro, no Texas, disse que se candidatou várias vezes como voluntário para ir ao Iraque em vez de enfrentar o ridículo, a rejeição e a ira do Exército.

Um capelão do Exército disse que já aconselhou quase uma dúzia de recrutadores nos últimos 18 meses para ajudá-los a lidar com problemas conjugais e estresse relacionados ao trabalho.

"Há alguns recrutadores que sentem que estão literalmente perto de um colapso nervoso", disse o major Stephen Nagler, um capelão que se aposentou em março após servir no Forte Hamilton, no Brooklyn, onde fica o batalhão de recrutamento da cidade de Nova York.

Cerca de duas dúzias de recrutadores de todo o país foram entrevistados sobre suas experiências ao longo de quatro meses. Dez falaram com o "New York Times' mesmo após um oficial do Exército ter enviado uma mensagem por e-mail aconselhando todos os recrutadores a não falarem com o repórter, cujo nome foi citado. A maioria pediu para permanecer anônimo para não ser punido.

Alguns dos que falaram disseram estar satisfeitos com seus empregos. Eles disseram que se orgulham de ver adolescentes desajeitados, sem metas, se transformarem em soldados confiantes e gostam da oportunidade de contribuir ao esforço do Exército.

Mas a maioria dos recrutadores contatados contou histórias semelhantes: de amor às forças armadas, de trabalhar arduamente para completar uma tarefa que parece fora do alcance, de lutar para executar o fardo do recrutamento em um momento de ansiedade e estresse.

As carreiras e auto-estima dos recrutadores passam por altos e baixos de acordo com sua capacidade de cumprir a missão, disseram atuais e ex-oficiais do Exército e especialistas que também foram entrevistados. Os recrutadores disseram que o não cumprimento das metas geralmente gera uma enxurrada de correspondência irada, reprimendas formais, ameaças e até rebaixamento.

"O recrutador está preso em uma situação onde ele percebe que não conseguirá cumprir a missão", disse um recrutador de Nova York. "E você é massacrado diariamente por isto." Ele disse que a função é mais estressante do que quando ele foi baleado em uma missão na África.

Pelo menos 37 membros do Comando de Recrutamento do Exército, que supervisiona o alistamento, desertaram desde outubro de 2002, mostram números do Exército. E, no que os recrutadores consideram outro sinal de estresse, o número de impropriedades cometidas -o alistamento de pessoas desqualificadas visando cumprir as cotas ou a concessão de bônus ou outros benefícios de alistamento para recrutas não aptos a eles -tem aumentado, como mostram documentos do Exército.

"Eles não necessariamente têm balas sendo disparadas na direção deles", disse Nagler. "Mas há tipos diferentes de balas com as quais precisam lidar -as balas da não produção de números, de serem abatidos pelo seu comandante."

O Exército está buscando 101.200 novos recrutas para o Exército e para a Reserva apenas neste ano para repor as fileiras no Iraque, Afeganistão, outras partes do mundo e em casa. Isto significa que cada um dos 7.500 recrutadores do Exército precisa enfrentar uma matemática humana inflexível em um momento de guerra prolongada sem convocação: uma cota de dois novos recrutas por mês.

A missão os coloca em um tipo diferente de fogo cruzado: de um lado, a exigência das forças armadas de que novos soldados sejam encontrados; do outro, a resistência de muitos pais a que seus filhos sigam carreiras nas Forças Armadas em tempos de guerra.

O general-de-divisão Michael D. Rochelle, comandante do Comando de Recrutamento do Exército, reconheceu que é um momento estressante para os recrutadores, que enfrentam o "desafio mais difícil para um Exército composto plenamente de voluntários" desde que isto teve início em 1973.

"Eu não nego que sou exigente", disse Rochelle, líder do comando desde 2002. "Nós temos uma missão vital em termos de fornecimento de voluntários para um exército que está em guerra e está crescendo."

Ele disse que o Exército já adicionou recrutadores e expandiu a base de recrutas potenciais, ao aceitar pessoas mais velhas e mais pessoas sem diploma do 2º grau. Mais mudanças estão sendo consideradas, ele disse.

Mas muitos recrutadores contatados disseram que o Exército continua a minimizar o quão difícil se tornou encontrar voluntários qualificados durante uma guerra e em uma economia em crescimento.

Pela primeira vez em quase cinco anos, em fevereiro o Exército deixou de cumprir sua meta de recrutamento para o serviço ativo. A Reserva não tem atingido sua meta mensal desde outubro. Oficiais do Exército disseram que as metas provavelmente não serão atingidas em março e abril.

O general Richard A. Cody, o vice-chefe do Estado-Maior do Exército, disse ao Congresso em 16 de março que está preocupado com a capacidade do Exército de fornecer os soldados que a nação necessita.

"O que não me deixa dormir à noite", disse ele na época, "é como esta força plenamente voluntária será em 2007".

Em janeiro, a Corporação dos Marines também não atingiu pela primeira vez em uma década suas metas mensais de recrutamento.

A Marinha e a Força Aérea, que fornecem menos tropas para a guerra, estão conseguindo atingir suas metas.

Tentar completar as fileiras apenas por meio de recrutamento em tempos de guerra é raro. Os historiadores disseram que a Guerra Hispano-Americana, a Guerra Mexicano-Americana e a Guerra do Golfo Pérsico foram os únicos grandes conflitos desde 1775 que não contaram, em parte, com convocação.

Desde 1973, o Exército tem mantido uma força plenamente voluntária de 1 milhão no serviço ativo, Reserva e Guarda Nacional principalmente por meio de campanhas de marketing, que promovem oportunidades de aventura, aprendizado, dinheiro para universidade e outras metas pessoais -atrativos que, em tempos de guerra, freqüentemente não superam o medo do combate e morte, como mostram pesquisas do Exército.

Apesar de alguns membros do Congresso terem levantado o fantasma da convocação, o governo Bush tem rejeitado a idéia, dizendo que mais soldados altamente capacitados são necessários em uma era de tecnologia, e eles são melhor encontrados por meio de recrutamento.

Mas vários altos oficiais entrevistados, incluindo o coronel Greg Parlier, aposentado, que até 2002 comandava a divisão de estratégia e pesquisa do Comando de Recrutamento do Exército, disseram que a pressão sobre os recrutadores mostra que a política precisa ser revista, e iniciativas como o serviço nacional devem ser consideradas.

Cortejando mais fortemente e por mais tempo

O Exército é o maior serviço militar do país, representando 80% dos 150 mil soldados no Iraque. Seus recrutadores estão entre seus melhores soldados. A maioria deles é formada por sargentos com cinco a 15 anos de experiência, escolhidos aleatoriamente entre os 10% melhores em suas especialidades, como definido por seus oficiais de comando. Mais de 70% não foram voluntários ao cargo.

Alguns soldados estão mais bem capacitados para a tarefa do que outros. O sargento Jose E. Zayas, 42 anos, é extrovertido, bilíngüe e abraça sua missão. Recentemente, percorrendo o Bronx, ele não teve dificuldade para persuadir um casal de Massachusetts a aceitar alguns panfletos.

Mas para cada Zayas, há um recrutador como o sargento Joshua Harris, 29 anos, um ex-administrador de pessoal de um posto de recrutamento de Nova Jersey, que tem dificuldade para falar com estranhos. Um curso de sete semanas para aprender a abordar candidatos foi de ajuda, ele disse, mas muitos recrutadores dizem que poucos soldados dispõem da habilidade necessária.

Os recrutadores recebem cerca de US$ 30 mil por ano, mais moradia e outros auxílios, como US$ 450 por mês de adicional especial por recrutamento. Eles moram onde recrutam, freqüentemente a centenas de quilômetros de uma base.

Estes homens, e ocasionalmente mulheres, passam várias horas por dia telefonando para colegiais, cujos números de telefone são fornecidos pelas escolas de acordo com a Lei Nenhuma Criança Deixada Para Trás. Eles também visitam shopping centers, escolas e onde quer que os jovens se reúnam.

O processo que se segue geralmente leva meses. Apesar de não ser necessária a autorização dos pais para o alistamento, os recrutadores dizem que é virtualmente impossível alistar um novo recruta sem a aprovação deles. Em jantares e ao telefone, eles argumentam a favor do Exército e buscam conquistar o apoio dos pais.

Se os recrutadores são bem-sucedidos, eles são responsáveis por trazer o novo recruta para o alistamento às 5h30 da manhã, organizar o treinamento físico ou, no caso de um recrutador da Califórnia, receber um telefonema às 3 horas da manhã para confortar uma recruta que chorava após o rompimento com seu namorado.

Os jovens, ansiosos e cheios de incertezas, necessitam de muita atenção, disseram os especialistas.

Os recrutadores têm "a única ocupação militar que lida inteiramente com o mundo civil", disse Charles Moskos, um sociólogo militar da Universidade do Noroeste.

Dados do Exército revelam que, mesmo antes da guerra, os recrutadores contatavam em média cerca de 120 pessoas antes conseguirem um recruta para o serviço ativo. O número de contatos cresceu, disseram os recrutadores.

E há outros fatores que podem afetar os recrutadores. Um recrutador da área de Nova York disse que quando ele sai de seu escritório para fumar um cigarro, ele freqüentemente recebe uma enxurrada de xingamentos por parte dos transeuntes irados com a guerra.

Em janeiro, um cunhado de um recruta potencial investiu contra ele. "Ele me disse palavrões", disse o recrutador, "e disse que preferia ver seu cunhado na cadeia por vender crack do que no Exército".

O recrutador disse que, quando está sem uniforme, ele costuma mentir sobre sua profissão. "Eu digo para as pessoas que trabalho em recursos humanos", disse ele.

A pressão dos números

Os recrutadores têm a tarefa de alistar dois recrutas por mês.

Qualquer um com processo criminal pendente, problemas de saúde ou baixa nota nos testes é desqualificado. Na maioria dos meses, pelo menos um deve ter o 2º grau completo e passar em pelo menos 50% do teste de aptidão das Forças Armadas.

O tenente coronel William F. Adams, um psicólogo da Academia Militar dos Estados Unidos e que aconselha recrutadores, disse que se compadece com as várias pressões, mas disse que elas vêm com o trabalho.

Sobre a meta de recrutamento, ele disse: "Não é uma meta ou alvo; é uma missão. Se você não a cumpre, você fracassou".

Um relatório de dezembro, de oficiais de comando que supervisionam cerca de 40 recrutadores em Houston, reflete a cultura de missão do recrutamento. Enviado por e-mail aos comandantes locais, ele começou declarando: "Nós podemos resumir o mês de dezembro com duas palavra -não profissional!"

O documento notou que no esforço de fim de mês para cumprimento da quota, sete recrutas apareceram para o alistamento. Destes, dois não atendiam as exigências de peso e dois careciam da documentação apropriada.

"Nós estamos processando lixo", declarou o relatório, "pessoas que são aprovadas e o candidato se recusa a se alistar (dois neste mês), pessoas aceitas com mais de 20 acusações criminais, etc. Nós estamos colocando estas pessoas no nosso Exército!"

A causa, ele disse, é uma falta de liderança: "Eu desafio vocês a consertarem seus postos. Ninguém deu um passo à frente".

Ao ser pedido para que respondesse ao documento, o batalhão de recrutamento de Houston se recusou.

O relatório foi seguido por um e-mail em 6 de janeiro do sargento Frank Norris, o segundo em comando de 212 recrutadores na área de Houston, ameaçando negar todos os pedidos de baixa.

"Não há desculpa, e estou cansado de suportar tal falta de disciplina e foco", declarou Norris em um e-mail repassado para o "Times" por um recrutador que o recebeu. "Que isto sirva de notificação; qualquer comandante de posto que esteja atrasando este grande batalhão não será um comandante por muito mais tempo."

Nenhum documento fazia menção à guerra, nem outros possíveis obstáculos para cumprimento das metas de recrutamento. Norris se recusou por meio de um porta-voz do Exército a ser entrevistado.

Rochelle disse que a maioria dos batalhões não recorre a tais táticas.

Disputando candidatos

O recrutador de Nova York que disse que pensou em suicídio também disse que já viu pelo menos quatro casamentos acabarem entre os nove ou 10 recrutadores em sua área desde 2002.

Ele disse que tem sido alvo de ameaças de dispensa e treinamento tolerância zero, quando superiores investigam os registros telefônicos dos recrutadores e outros materiais, e então os repreende por não terem alistado ninguém.

Após mais de uma década nas forças armadas, ele disse que ainda ama o Exército.

"É apenas esta função", disse ele. "Isto é o inferno."

Um recrutador no Texas -um homem mal-humorado cujo lar está decorado por comendas militares -disse que sofre de fortes dores de cabeça que duram até seis horas. "Eu nunca as tive até vir para cá", disse ele. "Elas são fruto do recrutamento."

Ele e outros recrutadores disseram que ocasionalmente ficam irados o bastante para bater em alguém. Há cerca de dois anos, ele disse, dois recrutadores em seu escritório brigaram sobre quem deveria receber o crédito pelo novo recruta.

"Nós chamamos isto de placa de pressão, como em uma mina terrestre", disse ele, apontando para o emblema de recrutador em seu uniforme. "Se você pressionar demais, nós explodiremos."

Sua esposa, como outras na Califórnia e em outros lugares, estava furiosa com o que considera uma falta de apoio por parte do Exército.

"O que estamos fazendo é bom; recrutar é um trabalho bom e importante", disse ela. "Mas o fato é que isto está matando nossos soldados."

Muitos dos recrutadores disseram que pediram por outras funções. Um deles foi o sargento Latrail Hayes. Atualmente com 27 anos, Hayes se alistou no Exército há 10 anos, após sair do colégio em Virginia Beach, continuando a tradição da família de serviço militar. Ele se candidatou a ser recrutador em 2000, após 52 saltos como pára-quedista. No início, seu charme, apelo ao patriotismo e oferta de benefícios do Exército atraíam dezenas de recrutas.

Mas Hayes disse que começou a repensar sua função à medida que os conflitos no Afeganistão e no Iraque prosseguiam. As mães de recrutas potenciais, disse ele, exigiam meses, e não semanas, para serem convencidas.

Além disso, disse Hayes, as histórias que ouviu de alguns de seus recrutas enviados ao Iraque e Afeganistão o deixaram relutante de buscar candidatos enfatizando os benefícios do Exército. Quando seu primo -que ele recrutou- voltou do Iraque para casa com um trauma psicológico, ele pediu o status de recusa da função por escrúpulos morais em junho, como estratégia para obter uma nova função.

O pedido foi rejeitado em novembro. Agora, em vez de servir 20 anos no Exército, ele pretende pedir baixa em dezembro, quando terminar seu serviço de recrutamento. "Há uma profunda ligação humana quando você tenta persuadir alguém a fazer algo que você fez", disse ele. "Então quando isto se transforma em outra coisa -às vezes até mesmo o oposto- é difícil."

Perdendo as metas

Alguns recrutadores disseram que estão testemunhando um aumento das "impropriedades", que são definidas como qualquer omissão ou ato intencional ou altamente negligente de alistar uma pessoa não qualificada ou conceder benefícios para aqueles que não estão aptos a eles. Eles disseram que os recrutadores falsificam documentos e dizem aos candidatos para que mintam sobre suas condições médicas ou fichas criminais.

Uma análise dos dados do Exército mostra que o número de supostas impropriedades subiu de 490, em 2000, para 1.023 em 2004. Investigações iniciais comprovaram 459 violações das normas de alistamento do Exército em 2004, um aumento em comparação a 186 em 2000. Em 135 casos, os recrutadores -freqüentemente mais de um- foram julgados por terem cometido impropriedades, em comparação a 113 em 2000. Os demais foram classificados como erros.

Rochelle reconheceu que o número de impropriedades "pode refletir parte da pressão percebida nos escalões inferiores". Ele também disse que o aumento também pode ser explicado em parte por um melhor monitoramento das impropriedades.

"Nós cobramos de cada recrutador a responsabilidade de ser um exemplo vivo dos valores do Exército", disse ele.

As cotas permanecerão inalteradas, disse Rochelle. Mas os comandantes também devem ser responsáveis por encontrar novas formas de cumprir suas metas. "Não faz bem transferir a pressão ou a correção aos soldados individuais", disse ele.

O Exército anunciou em setembro que adicionaria cerca de 1.200 recrutadores da Reserva e do serviço ativo em campo. Ele também dobrou os bônus para alistamentos de três anos para US$ 15 mil e aumentou seu orçamento de propaganda.

Pela primeira vez desde 1998, o Exército alterou seus padrões, aumentando na semana passada o limite de idade para os recrutas para a Reserva e Guarda Nacional para 39 anos. No ano passado, ele concordou em aceitar milhares de novos recrutas sem diplomas do 2º grau.

Em uma pequena concessão aos recrutadores, o comando do Exército anunciou em fevereiro que eles poderiam trocar as calças verdes e camisas que os fazem parecer guardas de segurança por uniformes de combate.

Rochelle disse que a troca de uniforme faz parte de uma nova estratégia de recrutamento para ressaltar o patriotismo acima do aspecto de venda, assim como alistar veteranos para ajudar a argumentar a favor do Exército. "Se torna menos materialista, em termos de foco, quando colocamos o recrutador face a face com um jovem americano", disse ele.

O recrutador do Texas, por exemplo, disse que as mudanças são pequenas demais e vieram tarde demais. Ele disse que preferia estar no Iraque.

"Eu preferiria ser baleado, porque pelo menos estaria com meus companheiros", disse ele. "Eu sou da Infantaria. É isto o que fui treinado para fazer." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host