UOL Notícias Internacional
 

28/03/2005

Ambientalistas e empresários condenam o projeto de Lula para o rio São Francisco

The New York Times
LARRY ROHTER

Em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE)
Por bem mais de um século, as milhões de pessoas que viveram no árido sertão do Nordeste do Brasil olharam o Rio São Francisco com sede e desejo. Com quase 3.200 quilômetros de extensão, ele foi visto como a esperança para colocar um fim ao ciclo de seca e êxodo que fez desta região a mais pobre e atrasada do país.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times

Barco parte de Curaca levando passageiros para outras cidades às margens do rio São Francisco
Mas, agora, o governo está disposto a colocar em prática um plano que, segundo ele, alcançará esse objetivo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou a liberação de US$ 1,7 bilhão para a construção de dois canais com centenas de quilômetros de extensão para a transposição das águas do rio, o segundo maior do país, levando-as até as partes mais áridas do interior.

Essa poderia ser a primeira fase de um projeto bem maior que envolveria um futuro redirecionamento de águas da Bacia Amazônica para esta área.

Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional, compara a amplitude e o impacto do plano à criação da Autoridade do Vale do Tennessee, nos Estados Unidos, há cerca de 70 anos.

"Para mim, Roosevelt é um ponto de referência", disse Gomes em uma entrevista por telefone de Brasília. "É preciso pensar no que aquela região era antes e no que se transformou depois devido à sua visão".

Mas os opositores do projeto, incluindo grupos ambientais e de interesses empresariais, argumentam que uma iniciativa tão ambiciosa é desnecessária e bem mais cara do que indicam os preços iniciais. Eles são a favor da construção de mais açudes, cisternas, poços e aquedutos, uma alternativa que alegam ser mais barata e eficiente do que a construção dos canais que, segundo alegam, comprometeriam o fluxo de um rio já atingido pela poluição e pelo desmatamento.

"O problema do nordeste não é a escassez de água, mas a forma como essa água é utilizada bem como os projetos existentes que ficam inacabados", disse Renato Cunha, diretor do Grupo Ambientalista da Bahia, em uma entrevista em Salvador. "Esse projeto não resolverá o problema. Ele só exacerbará os conflitos existentes relativos a quem controla a terra e a água".

Tradicionalmente, o Brasil tem apelado para projetos públicos gigantescos para resolver vários dos seus males sociais e econômicos. A Rodovia Transamazônica, a Represa de Itaipu e as usinas nucleares de Angra dos Reis são exemplos de megaprojetos que tinham como objetivo transformar o país, mas, segundo a opinião de vários brasileiros, acabaram gerando problemas juntamente com os benefícios.

O São Francisco, às vezes chamado de "Nilo do Brasil", e o vasto interior de areia e arbustos raquíticos a sua volta, uma área conhecida como sertão, têm um lugar especial na imaginação brasileira.

As secas que afligiram regularmente a região desde o século 19 obrigaram milhões de camponeses a se deslocarem para o sul, instalando-se em cidades como São Paulo em busca de empregos, em uma migração semelhante à dos negros norte-americanos pobres que deixaram o sul dos Estados Unidos para trabalharem em fábricas em Chicago e Detroit.

O próprio Lula é um desses migrantes, tendo sido obrigado a deixar a sua terra natal, em Pernambuco, quando criança. Quando fala da escassez perene de água na região e na pobreza e nas distorções sociais resultantes, ele sempre o faz de forma bastante emocional e pessoal.

Lula despreza claramente os tradicionais líderes políticos da região, os chamados coronéis, que utilizam o controle das reservas de água para controlarem os votos e expandirem as suas terras.

O seu governo, na verdade, vem promovendo a proposta como forma de garantir um suprimento confiável de água para os camponeses pobres e os seus animais, enquanto acusa os oponentes de serem egoístas. "Trata-se de uma questão humanitária e de solidariedade", disse Lula recentemente.

Porém, os oponentes da proposta sustentam que a conversa sobre a ajuda aos pobres não passa de uma cortina de fumaça. Grande parte --ou talvez toda-- a água, alegam eles, acabará destinada à irrigação dos projetos de fruticultura no interior ou às fazendas de camarão, duas das atividades de exportação que mais rapidamente crescem no país.

Mas Fernando Bezerra Coelho, prefeito de Petrolina e aliado da coalizão governamental de Lula, alega que até mesmo esse objetivo seria equivocado e careceria de uma lógica econômica.

"Por que irrigar 40 mil hectares a centenas de quilômetros do rio quando é possível irrigar uma área bem maior bem aqui à nossa volta a um custo muito menor?", disse ele em uma entrevista aqui.

PT já se opôs ao projeto

O projeto proposto é anterior à atual administração, e antes de o partido de Lula, o Partido dos Trabalhadores (PT), ter chegado ao poder, em 2003, ele se opunha vigorosamente ao plano, chamando-o de um desperdício de dinheiro que beneficiaria injustamente a elite rica às custas da população em geral.

Um documento confidencial do PT revelado a The New York Times por uma pessoa que a ele teve acesso devido aos seus contatos no Congresso Nacional, critica a idéia de que "a única solução para o problema é a transposição" e conclui que o reflorestamento e o melhor uso dos aqüíferos subterrâneos poderiam "aliviar o regime de falta de chuvas".

Mas o ano que vem é de eleição, e Lula deverá tentar obter um segundo mandato de quatro anos. O projeto de transposição de águas promete se constituir em uma bênção para um punhado de empresas de construção que estão entre as maiores doadoras de campanhas eleitorais no país e que têm reclamado das restrições impostas pelo governo aos grandes projetos de obras públicas, impostos para ajudar a alcançar as metas de superávit orçamentário prometidas ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Isso está sendo feito claramente com motivos eleitorais", disse Ana Cacilda Rezende Reis, uma advogada do Fórum Permanente de Defesa do São Francisco.

"É algo popular junto aos eleitores, que foram enganados a respeito de quem realmente terá acesso à água, e ainda mais ludibriados quanto aos que ganharão os contratos de construção".

Ciro Gomes, cujo Estado seria um dos maiores beneficiados pelo projeto, diz que tais acusações são "injustas". Ele observa que Lula anunciou a sua intenção de desviar as águas do São Francisco no seu primeiro mês de governo, e atribuiu os atrasos em implementar o plano "ao nosso desejo de negociar com oponentes e incorporar algumas das sugestões ao projeto".

Da maneira com as coisas estão neste momento, o projeto não conta com financiamento estrangeiro e será pago inteiramente com os recursos orçamentários do governo, algo incomum em se tratando de uma iniciativa de tão grande dimensão.

O governo anterior fez contatos com o Banco Mundial na esperança de garantir o apoio da organização, mas esses esforços não tiveram sucesso após o banco realizar uma análise cujo resultado foi extremamente crítico a respeito de uma versão do plano que, segundo os oponentes, pouco difere daquilo que Lula está propondo.

"O projeto teria pouco efeito sobre o custo das reservas emergenciais de água durante os anos de seca", concluiu o relatório. "Reservas seguras de água para abastecimento doméstico em todo o Nordeste poderiam ser garantidas por meio de alternativas cujo custo seria uma fração do preço do projeto proposto".

Conforme originalmente concebido, o plano de transposição do rio também prevê o abastecimento do São Francisco com águas do Tocantins, um rio que alimenta a Bacia Amazônica, por meio da reversão do curso de um afluente e da construção de um canal de cerca de 320 quilômetros através do centro do país. Embora essa parte do projeto, tida como a mais cara e a menos popular, tenha sido adiada, ela não foi cancelada.

"Isso será feito no futuro, mas não antes de 2050", disse Ciro Gomes. "Precisamos ter uma hierarquia de prioridades de forma que não haja desperdício de água antes que os usuários estejam assentados nos locais".

Desconfiados

Adriana Zehbrauskas/The New York Times

Elza Oliveira da Silva, 47, em sua propriedade em Salitre; projeto do presidente pretende levar irrigação para pequenos produtores rurais
Espalhados por novos Estados e por centenas de milhares de quilômetros quadrados, os 50 milhões de moradores do Nordeste são desconfiados por natureza e pela experiência. No decorrer dos anos, eles viram um projeto após o outro ter início e ser, a seguir, abandonado após uma mudança de governo, além de terem visto outros gerarem problemas inesperados.

Por exemplo, a barragem de Sobradinho, a oeste daqui, construída pela ditadura militar e inaugurada em 1978, deveria trazer empregos e luz para os moradores da região. E realmente trouxe para alguns, mas também devastou as reservas pesqueiras, bloqueou a navegação e acabou com as enchentes cíclicas essenciais para a agricultura ao longo das margens do rio.

"O comércio e a navegação que costumavam animar a economia estão mortos, e há localidades a três quilômetros da margem do rio que dependem de caminhões-pipa para o abastecimento de água", critica Misael Aguilar Silva, prefeito de Juazeiro e filho de um barqueiro. "O rio está doente, e esse projeto só vai torná-lo ainda mais doente. É algo como forçar uma pessoa anêmica a doar sangue". Projeto confirma tradição de grandes obras, como Itaipu e Angra Danilo Fonseca

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