UOL Notícias Internacional
 

28/03/2005

Obsessão por abdome perfeito continua nos EUA

The New York Times
Alex Williams

Em Nova York
De certo ponto de vista, os tempos áureos dos abdominais foram há uma década. A revista "Men's Health" chegou à glória nos anos 90 com um modelo de capa mostrando sua barriga altamente definida. A "barriga-tanquinho" entrou para o vocabulário da vaidade.

James Estrin/The New York Times

Praticantes de pilates fazem flexões no Diane Miller Pilates Center, em Vancouver
Em 1996, com as propagandas tarde da noite, foram vendidos 368.000 AbRollers, ABSculptors e outros aparelhos para fortalecer os músculos abdominais, de acordo com a Associação Nacional de Itens Esportivos.

Sim, tudo parece muito anos 90. Desde então, a indústria da boa forma, que depende das novidades para fazer com que os americanos preguiçosos renovem suas anuidades em academias e comprem vídeos de exercícios, introduziu muitas inovações: trampolins, bicicletas de spinning, Soloflexes, Bowflexes e botas de gravidade.

Mas, em termos de exercícios, a obsessão americana com os músculos abdominais parece interminável. Para saber qual é a última moda, olhe para trás. Há quatro anos, havia seis guias da boa forma no mercado com a palavra "abdome" no título. Hoje são 28, de acordo com o banco de dados de livros publicados.

"Os abdominais dominam", disse Kurt Brungardt, que escreveu o sucesso de vendas "Complete Book of Abs" (O livro completo dos abdominais de 1993) e acaba de terminar o manuscrito para "The Complete Book of Core Training" (O livro completo do treinamento do centro de força), cujo título inclui a expressão da moda para descrever uma rotina que se concentra na barriga.

Brungardt tentou fazer sucesso com "The Complete Book of Shoulders and Arms" (O livro completo dos ombros e braços) e "The Complete Book of Butt and Legs" (O livro completo de Nádegas e Pernas). Mas nada se comparou à venda do fortalecimento dos músculos retos abdominais.

"Se vivêssemos em uma cultura onde as pessoas dissessem: 'Que lombar sexy que você tem', talvez isso fosse diferente", disse Brungardt.

Além do condicionamento do centro de força, outra novidade se concentra na região abdominal: Pilates, cujo número de praticantes aumentou mais de cinco vezes nos últimos cinco anos, de acordo com o grupo Sigma International, que estuda a indústria. Hoje em dia "todos os caminhos levam aos abdominais", confirmou Dawn-Marie Ickes, proprietária de um estúdio de Pilates em Studio City, Califórnia.

Talvez alguém pergunte: por que os abdominais, por que não peitorais ou glúteos?

David Zinczenko é editor da "Men's Health" e publicou um livro "The Abs Diet: The Six-Week Plan to Flatten Your Stomach and Keep You Lean for Life" (O regime do abdome: um plano de seis semanas para perder a barriga e deixá-lo esbelto para o resto da vida, Rodale, 2004) que está em sua 18ª edição.

Ele explica: "Até os anos 60, mais ou menos, os ombros e os bíceps excitavam a mulher. Ombros e bíceps dizem: 'Eu posso levantar coisas.' Mas a sociedade mudou. Os homens não trabalham mais no campo, então essas características não são mais essenciais. Os abdominais são os novos bíceps. Eles dizem: 'Controlo a vida, tenho tudo resolvido. Posso trabalhar, brincar e ainda malhar.'"

Vicki Beck, contadora que trabalha na televisão em Los Angeles, é um exemplo do progresso dos abdominais. Na última década, passou por todas as fases: recortou diagramas dos melhores exercícios da revista "Self"; comprou um aparelho de abdominais de um comercial de televisão. "Provavelmente foi parar numa loja de coisas usadas, como os de todo mundo", resume.

Agora ela se voltou para a abordagem mais holística de Pilates.

"Os abdominais, especialmente os profundos, do centro de força, são a base, a pedra inaugural de todos os exercícios de Pilates", explicou Ickes, sua instrutora.

Pilates é uma série de exercícios desenvolvida no início do século 20 por um boxeador e acrobata alemão chamado Joseph H. Pilates. O método foi adotado nos EUA por bailarinos das companhias de Balanchine e Martha Graham.

O número de praticantes nos EUA pulou de 1,7 milhão em 2000 para 9,5 milhões em 2003, de acordo com o Sigma International. Os exercícios enfatizam a flexibilidade, a força, o equilíbrio e a respiração, tudo a serviço da força do abdome e da coluna.

Pilates não é barato. Beck paga até US$ 60 (em torno de R$ 170) por sessão, para o privilégio de subir ao menos duas vezes por semana na cadeira Wunda (basicamente, uma escada com molas) no estúdio de Ickes, que também é uma clínica de fisioterapia chamada Core Conditioning.

Para o aniversário de Beck, seu namorado comprou-lhe um Reformer, uma máquina de Pilates com molas, manivelas e almofadas móveis. Parece um cruzamento entre uma cadeira de praia e um arco de flechas.

Um Reformer custa US$ 500 (cerca de R$ 1.350). Beck o mantém em um quarto extra em sua casa, ao lado da grande bola de borracha de estabilidade --as bolas são a última grande coisa no mundo dos abdominais-- do tubo de espuma e do Círculo Mágico de Pilates (ou um grande anel de borracha).

"A barriga é o mais importante", disse ela. "Moramos no sul da Califórnia, vamos à praia. Fica tudo à vista."

O condicionamento do centro de força tem um foco mais amplo do que o Pilates, envolvendo os músculos abdominais aparentes, mas também os profundos, além dos músculos das costas e pélvicos, a chamada cintura da força. (Freqüentemente, técnicas de Pilates fazem parte dos programas de centro.)

Uma expressão que surgiu dos fisioterapeutas nos anos 90, "centro de força" tornou-se talvez a expressão mais vendável no mundo da boa forma, disseram vários treinadores. A Reebok vende uma prancha de centro de força por US$ 149.99 (aproximadamente R$ 400). É um disco de plástico, com um eixo no centro. O esforço para ficar em pé em cima dela parece com o de se equilibrar em um trem de metrô.

"A imagem de valor atualmente é o centro de força", disse friamente Brungardt. "Traz nova vida à loucura dos abdominais. É a próxima geração."

Talvez a loucura já esteja mudando novamente.

Karon Karter, instrutora de ginástica em Dallas e autora de vários livros de abdominais, disse que já foi iniciada uma nova era de fusão. Ou seja, o centro de força associado com qualquer coisa, como ioga, dança do ventre e artes marciais.

Karter deveria receber um prêmio de marketing por ter conseguido enfiar todos os termos da moda no título de seu novo livro: "The Core Strength Workout: Get Flat Abs and a Healthy Back; Pilates, Yoga, Exercise Ball" (Exercícios para a força do centro: consiga abdominais fortes e coluna saudável; Pilates, ioga e bola -Fair Winds Press, 2004).

Talvez não surpreenda que os mesmos velhos abdominais --termo que mal era conhecido fora dos círculos da ginástica nos anos 70-- voltem em novos formatos. Não surpreende que as empresas estejam tentando reinventar seus bons tempos.

Lembra como o carona em "Quem vai ficar com Mary" falava sobre fazer fortuna inventando um programa de exercícios para o abdome de sete minutos, para vencer o existente de oito? Graças à competição dentro da indústria, passamos dos seis minutos para três minutos e para, sim, seis segundos: uma invenção do tipo "como você viu na TV", que se parece com um pequeno aspirador de pó com uma antena.

A abordagem atual, porém, parece mais adulta. As fantasias de uma barriga como a de Brad Pitt ainda inspira alguns fanáticos mais jovens, mas para a geração do "baby-boom", que já está chegando aos 50, os exercícios têm a intenção de deter os problemas do envelhecimento.

"Antes era uma enorme pressão estética. Todo mundo queria aquela barriga super definida, difícil para quase qualquer um conseguir", disse Chris Imbo, professor de educação física particular em Nova York.

Não é preciso ir longe para chegar à conclusão de que os dias do "corpo sarado" acabaram. Basta acompanhar o sucesso da rede de academias chamada Curves International, criada para mulheres maduras, ou os anúncios da Bally Total Fitness, que mostra pessoas normais, inclusive algumas um pouco mais gordas ou mais velhas.

Talvez ninguém represente melhor a mudança no sentido da saúde total do que Zinczenko, editor da "Men's Health". Seu livro, com a capa cor de laranja gritante, vendeu 350.000 cópias, e isso foi antes do DVD ou o livro de receitas "The Abs Diet Eat Right Every Time Guide" (guia da dieta de abdominais para comer bem todas as vezes).

A revista "Men's Health", que tem 10 edições por ano, publicou cerca de 60 artigos sobre os abdominais nos últimos dois anos e meio.

Qualquer um acharia que o país já estava cansado de abdominais. Mas em uma pesquisa com mais de 3.000 homens conduzida pela revista, a ser publicada em junho, perguntou-se aos entrevistados qual grupo de músculos era sua prioridade para o verão. Os abdominais trucidaram o segundo colocado, os peitorais, por 70% contra 15%.

"Quantas semanas seguidas revistas como "US Weekly" trouxeram o rompimento de Brad Pitt e Jennifer Aniston na capa?" perguntou Zinczenko. "Os abdominais são o nosso Brad Pitt e Jennifer Aniston".

Nem é preciso dizer que esses dois atores têm abdominais absolutamente definidos. Lições sobre como obter uma "barriga-tanquinho" faturam milhões Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host