UOL Notícias Internacional
 

29/03/2005

CIA errou ao avaliar Saddam Hussein, diz relatório

The New York Times
David E. Sanger e Scott Shane

Em Washington
O relatório final de uma comissão presidencial que estudou os erros da inteligência americana em relação às armas ilegais inclui uma abrasadora crítica de como a CIA e outras agências não avaliaram de forma adequada as manobras políticas de Saddam Hussein ou a possibilidade de que ele não tivesse mais depósitos de armas, de acordo com autoridades que viram o resumo do relatório.

O relatório também propõe amplas mudanças no compartilhamento de informações entre agências de inteligência, muito além das leis aprovadas pelo Congresso no final do ano passado, que criaram um diretório nacional de inteligência para coordenar a ação entre as 15 agências de inteligência.

Essas recomendações provavelmente farão parte importante das audiências do dia 12 de abril de confirmação de John Negroponte, nomeado pelo presidente para ser diretor nacional de inteligência.

O relatório aponta particularmente a CIA sob seu antigo diretor, George Tenet. No entanto, também inclui o que uma autoridade chamou de "condenação calorosa" da Agência de Inteligência da Defesa e da Agência Nacional de Segurança, duas das maiores agências de inteligência.

A versão não confidencial do relatório, que tem mais de 400 páginas, dedica relativamente pouco espaço às questões de inteligência americana sobre a Coréia do Norte e Irã, dois países que são atualmente o maior desafio nuclear para os EUA e seus aliados.

A maior parte dessa discussão aparece em uma versão confidencial do documento, muito mais longa. Nas palavras de um membro do governo que a reviu: "Não mostramos a Kim Jong Il ou aos mulás o que sabemos ou não."

O presidente Bush deve receber o relatório formalmente na manhã de quinta-feira (31/03), disseram membros da Casa Branca. Quando as primeiras cópias do relatório começaram a circular na segunda-feira, as autoridades disseram que grande parte dele cobria terreno já avaliado pelo Comitê de Inteligência do Senado e pelos dois relatórios do Grupo de Pesquisa do Iraque --criado pelo governo para encontrar armas de destruição em massa após a invasão e que voltou de mãos abanando.

Depois da derrota do Iraque na Guerra do Golfo, inspetores internacionais desmantelaram seu programa nuclear, junto com armas químicas e biológicas.

Grande parte dos dados de inteligência errôneos baseou-se em premissas de que Saddam teria reconstituído esses programas depois que os inspetores deixaram o país, em 1998. No entanto, essas premissas dos analistas de inteligência mostraram-se altamente enganadas, apesar de alguns comandantes de Saddam terem dito, depois de capturados em 2003, que também acreditavam que o regime tinha armas não convencionais --um mito aparentemente promovido por Saddam para se dar ares de poder.

Isso forçou o presidente Bush a nomear, com certa relutância, a "Comissão da Capacidade de Inteligência dos EUA em Relação às Armas de Destruição em Massa" que operou quase em segredo sob a direção do juiz Laurence H. Silberman, da Corte de Apelações dos EUA, e Charles S. Robb, ex-governador da Virgínia.

De acordo com as autoridades que folhearam o documento, a versão não confidencial do relatório se concentra na Avaliação de Inteligência Nacional do Iraque, principal estudo produzido pela inteligência em nome da Casa Branca em 2002, em poucas semanas apressadas.

Depois da invasão do Iraque, a Casa Branca foi forçada a tornar pública parte da avaliação de inteligência, inclusive notas nas quais algumas agências dissentiam sobre a opinião de que Hussein tinha importado tubos de alumínio para fazer centrífugas para a produção de urânio, ou possuía laboratórios móveis de armas biológicas.

O relatório ridiculariza particularmente a conclusão de que a frota de Saddam de "veículos aéreos não tripulados", que tinha alcance de vôo muito limitado, impunha importante ameaça.

Todas as afirmativas foram repetidas por Bush, além do vice-presidente Dick Cheney e outras autoridades antes da guerra. Até hoje, Cheney nunca retirou suas declarações, repetidas no ano passado de que "os laboratórios móveis" provavelmente faziam parte de um programa secreto de armas biológicas. O gabinete do vice-presidente recusou-se repetidamente a dizer se tinha mudado de opinião.

Uma questão feita pela comissão foi se os membros da inteligência não tinham compreendido o que acontecia dentro do Iraque depois da saída dos inspetores em 1998.

David Kay, primeiro chefe do Grupo de Pesquisa do Iraque, referiu-se a esse período no ano passado como uma época em que o país entrava em um "vórtice de corrupção". Kay, que também prestou testemunho à comissão, disse que os cientistas de Saddam tinham falsificado seus programas de pesquisa e desenvolvimento, e que Saddam estava cada vez mais distante da realidade.

Uma autoridade da defesa que viu uma versão anterior do relatório disse na segunda-feira que uma de suas conclusões era de que "a inteligência humana deixou muito a desejar" na guerra global contra o terrorismo.

A autoridade também indicou que havia bastante ansiedade em torno do relatório final e suas recomendações. "Estamos todos nos perguntando o que vai constar" do relatório, disse a autoridade, sob condição de anonimato.

"Todos sabemos que houve falhas antes de 11 de setembro. Será que esse relatório vai levar em consideração o que fizemos desde então?"

O mandato da comissão era para examinar a capacidade das agências de inteligência de "coletar, processar, analisar e disseminar informações em relação à capacidade, intenção e atividades de poderes estrangeiros".

Além do Iraque, Irã e Coréia do Norte, o mandato cobria grupos terroristas e redes privadas criadas por Abdul Qader Khan, cientista paquistanês.

A versão confidencial do relatório é particularmente crítica da incapacidade americana de penetrar no programa do Irã. Ela também diz que a avaliação do tamanho e potencial do arsenal nuclear da Coréia do Norte se baseia no que uma autoridade chama de "extrapolação educada".

Autoridades e especialistas entrevistados pela comissão falaram longamente sobre a ausência de fontes de inteligência humana confiáveis dentro das duas nações.

As conclusões da comissão, se tornadas públicas, podem alimentar o argumento usado atualmente por Pequim, Seul e capitais da Europa de que um sistema de inteligência que julgou tão mal o Iraque não pode ser confiado no que concerne o progresso feito por Pyongyang e Teerã.

A Coréia do Norte vangloriou-se de produzir armas --mas nunca tê-las testado-- e o Irã admitiu ter encoberto importantes elementos de seu programa nuclear, apesar de negar que esteja construindo armas.

A comissão de nove membros reuniu-se formalmente uma dúzia de vezes, em seus escritórios em Arlington, Virgínia. Em novembro, ela visitou Bush na Casa Branca para conversar com ele e sua equipe. Os comissários tiveram reuniões formais com altos membros de inteligência e autoridades de política externa do governo Bush e entrevistam ex-diretores da CIA e especialistas em proliferação de armas.

A comissão contou com uma equipe de mais de 60 pessoas, na maior parte de profissionais veteranos da inteligência de nível médio, que tiveram acesso aos documentos mais centrais do governo.

Todas as sessões foram fechadas à imprensa e ao público. Os membros da comissão e sua equipe não falaram sobre o conteúdo do relatório.

"Nós e a equipe fizemos um pacto de sangue de não discutir o relatório em público com antecedência", disse Walter B. Slocombe, ex-membro da defesa Comissão de Capacidade de Inteligência dos EUA em relação às armas de destruição em massa.

*Colaboraram David Johnston e Anne E. Kornblut. Documento reforça tese de que avaliações dos EUA não são precisas Deborah Weinberg

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