UOL Notícias Internacional
 

29/03/2005

Especialistas debatem uso medicinal da maconha

The New York Times
Dan Hurley

Em Nova York
O uso medicinal da maconha atualmente é legal em 11 Estados americanos, e pelo menos sete outros estão avaliando sua adoção legal. A droga também está no centro de um processo em andamento na Suprema Corte dos EUA. Mesmo assim, ainda há muita confusão sobre seus efeitos medicinais.

Michelle V. Agins/The New York Times

Uso medicinal da maconha é legal em 11 Estados americanos, e outros sete avaliam a legalização
"As pessoas alegam ter benefícios subjetivos. Há toda uma literatura de Internet sugerindo que seu uso é maravilhoso. Mas a realidade é que não sabemos", disse Joseph I. Sirven, especialista em epilepsia e professor associado de neurologia da Faculdade de Medicina Clínica Mayo de Scottsdale, Arizona.

Em um editorial no ano passado na revista "Neurology", Sirven disse que, até agora, há poucas evidências de benefícios da maconha em pacientes com epilepsia ou esclerose múltipla. Além disso, um corpo crescente de resultados de pesquisa indica que, ao menos em adolescentes, o uso de maconha por muitos anos aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de psicose e esquizofrenia.

No caso sendo avaliado pela Suprema Corte, duas residentes da Califórnia, Angel McClary Raich e Diane Monson, entraram com um ação contra autoridades federais em outubro de 2002, depois que as plantas de Monson foram apreendidas e destruídas pela Fiscalização de Drogas.

O governo federal, que considera a maconha ilegal sob o Ato de Substâncias Controladas, pediu à Suprema Corte que derrubasse a decisão da Corte de Recursos que apoiava as duas mulheres. Os argumentos foram ouvidos logo após o Dia de Ação de Graças [fim de novembro] e a decisão deve ser conhecida em breve.

O médico de Raich, Frank Henry Lucido, de Berkeley, Califórnia, afirmou em uma declaração jurídica que Raich poderia morrer se fosse proibida de fumar maconha para tratar a náusea, anorexia e dor crônica e outros problemas causados por uma variedade de doenças, inclusive distúrbio de estresse pós-traumático, asma e um tumor cerebral não operável. Em um site da Web criado em seu nome, www.angeljustice.org, Raich diz que entrou na justiça para salvar sua vida.

Apesar de haver poucas evidências científicas corroborando o papel salvador da maconha, muitos estudos encontraram benefícios modestos nas sensações subjetivas de dor, sono, náusea, apetite, tremores e espasmos musculares.

"Não há nada melhor para dor nos nervos do que a maconha", disse Phillip Alden, 41, autor que mora em Redwood City, Califórnia. Duas vezes por mês, ele comprar 220g de maconha de alta potência em um dos clubes de compradores de San Francisco, por cerca de US$ 200 (em torno de R$ 600).

Ele fuma três ou mais vezes por dia para aliviar sua dor nas costas, melhorar o apetite e reduzir os enjôos associados à Aids e às drogas antivirais que toma. Segundo ele, até a progressão de sua neuropatia periférica foi reduzida.

Duas pesquisas recentes publicadas pela revista "Neurology" documentaram o amplo uso de maconha entre pacientes canadenses e a crença em seus benefícios. Na primeira pesquisa, conduzida entre 220 pacientes com esclerose múltipla, 36% já tinham fumado maconha para tratar seus sintomas e 14% estavam usando a droga na época da pesquisa.

Na outra, entre 136 pacientes que freqüentavam a Universidade de Clínica de Epilepsia de Alberta, 21% tinham fumado maconha no ano anterior. Mais de dois terços dos usuários ativos disseram ter observado uma diminuição da severidade de seus ataques e mais da metade alegou menor freqüência de ataques.

Mas o principal autor do estudo de epilepsia disse que o que ficou provado foi apenas que alguns pacientes acreditavam na maconha, não que seus ingredientes ativos, chamados de canabinóides, de fato funcionavam.

"Não houve um teste controlado demonstrando que a maconha ou qualquer canabinóide é mais eficaz contra ataques do que um placebo", disse Donald W. Gross, diretor do programa de epilepsia da Universidade de Alberta.

Apesar de os médicos receitarem maconha no Canadá para certos distúrbios, incluindo epilepsia, Gross disse que nunca fez isso. "É terrivelmente complicado, do ponto de vista de um médico, e um pouco frustrante", disse ele. "Temos um produto legitimado, sem qualquer evidência de eficácia".

Um grande corpo de pesquisa em tubos de ensaio e animais corrobora a opinião que os canabinóides têm propriedades anticonvulsivas. Um estudo com 657 pacientes com esclerose múltipla, publicado em 2003 pela revista Lancet, não encontrou melhora nos resultados mensuráveis depois de 15 semanas, mas os participantes alegaram melhora nos espasmos musculares e nas dores.

O mesmo grupo de pacientes apresentou benefícios modestos depois de 12 meses, mas os pesquisadores disseram que os resultados devem ser interpretados cuidadosamente, porque os estudos tiveram a intenção de avaliar apenas os benefícios de curto prazo.

David Baker, professor do Instituto de Neurologia de Londres, encontrou efeitos benéficos de canabinóides em camundongos com esclerose múltipla induzida artificialmente. Mas, disse ele, "mostrar benefícios clínicos em humanos tem sido difícil".

"No máximo há um efeito benéfico restrito, antes de os efeitos colaterais se tornarem inaceitáveis para muitas pessoas", disse ele. "O que está claro é que, como um todo, não houve melhorias dramáticas".

Kenneth P. Mackie, professor de anestesia da Universidade de Washington, passou 15 anos estudando a resposta do cérebro a canabinóides por receptores especializados chamados CB1 e CB2.

"Há uma porção de razões teóricas sugerindo a possibilidade de benefícios do uso da maconha para uma variedade de condições relacionadas à dor e à inflamação nos nervos", disse Mackie. "Mas simplesmente não existem estudos clínicos".

Existem evidências muito mais fortes do efeito danoso da maconha em adolescentes que começam a fumar cedo e freqüentemente. "Sabemos que a Cannabis contribui para a esquizofrenia", disse Robin M. Murray, professor do Instituto de Psiquiatria de Londres e co-editor de um novo livro: "Marijuana and Madness: Psychiatry e Neurobiology" (maconha e loucura: psiquiatria e neurobiologia).

Em um estudo de 2002 publicado na revista médica britânica "BMJ", Murray mostrou que adolescentes da Nova Zelândia que começaram a fumar maconha antes dos 15 anos e continuaram fumando diariamente aumentaram suas chances de cerca de 2% para até 10% de desenvolver psicose e esquizofrenia.

O estudo, disse ele, eliminou a possibilidade de os adolescentes que fumavam também serem os que tinham maior probabilidade de desenvolver esquizofrenia, usando ou não a droga.

"É preciso que fumar muito para ficar psicótico", disse Murray. "Mas com cinco baseados por dia durante cinco anos, uma quantidade cada vez mais comum na Europa, a pessoa está seriamente aumentando seu risco de desenvolver esquizofrenia".

Ele acrescentou, porém, que o risco cai profundamente com a idade, de forma que os pacientes crônicos que usam maconha para propósitos médicos provavelmente não sofrerão psicoses como resultado.

A pesquisa nos EUA tem sido prejudicada por restrições legais.

Em 1997, Donald Abrams, oncologista e diretor assistente do Programa de Saúde Positiva da Universidade da Califórnia em San Francisco, tornou-se o primeiro médico autorizado pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas a conduzir pesquisa científica com maconha para determinar se oferece benefícios médicos.

Hoje, mais de uma dúzia de pesquisadores californianos estão estudando o assunto, sob os auspícios do Centro de Pesquisa da Cannabis Medicinal da Universidade da Califórnia.

"A Cannabis tem uma história de 5.000 anos de uso medicinal", disse Abrams. Em três estudos com pacientes com HIV, ele não observou efeitos negativos ao sistema imune ou contra as drogas inibidoras de protease que os pacientes tomavam. Agora ele está tentando mostrar que a maconha tem um efeito benéfico no sistema imunológico. Cannabis pode aliviar dor crônica, mas estimularia a esquizofrenia Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h49

    -0,38
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h59

    0,02
    65.290,83
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host