UOL Notícias Internacional
 

29/03/2005

Poderoso terremoto mata ao menos 2.000 na Ásia

The New York Times
Somini Sengupta*

Em Nova Déli, na Índia
Apenas três meses após um tsunami letal atingir o Oceano Índico, um poderoso terremoto subaquático ocorreu novamente no final desta segunda-feira (28/03) ao largo da costa ocidental da Indonésia, gerando pânico e alertas públicos por toda uma região ainda traumatizada.

The New York Times Image

Epicentro do tremor desta segunda é muito próximo do terremoto que originou o tsunami em dezembro
O terremoto de segunda-feira, cuja magnitude foi estimada em 8,7 graus na escala Richter, ocorreu pouco depois das 23h locais, cerca de 320 quilômetros ao longo da mesma falha geológica atingida pelo terremoto mais forte de 26 de dezembro, que matou pelo menos 175 mil pessoas em 12 países banhados pelo Oceano Índico.

Os primeiros sinais parecem indicar que desta vez o terremoto esteve longe de causar tantos danos. A única exceção foi a ilha indonésia de Nias, onde se avalia que pelo 2.000 pessoas tenham morrido, segundo afirmou o vice-presidente indonésio Jusuf Kalla, em uma entrevista à rádio Al Shinta.

Mas notícias de áreas remotas afetadas demoravam a chegar, e cientistas e outras autoridades relutavam em descartar a possibilidade de uma devastação maior, incluindo novos maremotos. O que ficou mais claro foi que esse último tremor disseminou o medo de que ondas gigantescas voltassem a inundar vários dos mesmos países asiáticos que ainda lutam para se recuperar do desastre de dezembro.

O sismo ocorreu a cerca de 200 quilômetros da ilha indonésia de Sumatra, onde está a província de Aceh, um dos locais mais duramente atingidos em dezembro passado. O abalo fez com que os moradores deixassem correndo as suas casas --em muitos casos meras tendas fornecidas por organizações de ajuda humanitária-- no meio da noite, fugindo do oceano e procurando regiões elevadas.

Em Banda Aceh, a capital da província, Diah Zahara, 24, disse em uma entrevista por telefone que os tremores foram tão fortes que fizeram com que todos temessem imediatamente a ocorrência de um outro tsunami. "De repente, as estradas ficaram cheias de carros", disse ela. "O povo corria pelas ruas em busca de lugares seguros".

Zahara contou que ela, a mãe, Ummi, o pai, Gazali, e o irmão de 21 anos, Mafoud, fugiram correndo de casa em direção a uma área bem longe do mar. "Simplesmente corremos. Entramos em pânico. Só queríamos continuar correndo", disse ela.

Alessandra Cilas Boas, gerente de comunicações da Oxfam em Banda Aceh, disse por telefone que os tremores foram tão intensos que vários carros estacionados na rua se moviam para frente e para trás.

"Era difícil andar", contou ela, que fugiu às pressas do seu local de trabalho com os colegas. Segundo Boas, os tremores duraram cerca de dois minutos. A energia elétrica acabou por algum tempo, o que aumentou a ansiedade.

Em um campo de refugiados em Banda Aceh, um fotógrafo da Associated Press disse ter visto pessoas fugindo das suas barracas em pânico, tendo sido aconselhadas pela polícia a retornarem a seus abrigos.

A Reuters informou que Agus Mendrofa, vice-prefeito de Gunungsitoli, a principal cidade da ilha indonésia de Nias, disse que prédios desabaram e que havia moradores presos nos destroços.

"Agora Gunungsitoli é como uma cidade morta", disse ele à Reuters. "A situação aqui é de pânico extremo".

No balneário tailandês de Phuket, Waynbe Graham, um corretor de imóveis canadense que mora a 200 metros da praia, disse que assim que o terremoto começou, houve uma preocupação imediata com um outro tsunami. Da sua casa, Graham disse que podia ver embarcações militares tailandesas perscrutando o mar em busca de alterações que indicassem a ocorrência de um maremoto. "Ficamos nervosos e em alerta", afirmou.

Logo depois os moradores de Phuket passaram a fazer ligações telefônicas e a enviar textos eletrônicos. Graham disse que alguns dos seus vizinhos fugiram para locais mais elevados, mas ele decidiu ficar.

Vendo a CNN e a BBC, ele disse que pôde perceber muito rapidamente que não aconteceria um outro tsunami. "Cerca de 15 minutos após o terremoto eu fui capaz de afirmar que não havia sinal de outro tsunami", disse Graham.

No Sri Lanka, a rádio e a televisão estatais solicitaram à população que deixasse o litoral e procurasse locais elevados.

Na Índia, autoridades em Nova Déli alertaram as autoridades locais para que dissessem aos moradores das áreas costeiras que se deslocassem para uma distância de pelo menos 200 metros da água.

O impacto do terremoto pôde ser sentido em locais tão distantes quanto Kuala Lumpur, a capital da Malásia. Meteorologistas australianos registraram duas ondas nas Ilhas Cocos, cerca de 2400 quilômetros ao sul do epicentro. A segunda das duas ondas media 24 centímetros.

Os cientistas dizem que é muito cedo para concluir que o terremoto não gerou nenhum tsunami, especialmente ao longo da costa de Sumatra. O Sistema de Alerta de Tsunami do Pacífico, instalado no Havaí, revelou que áreas que não testemunharam ondas anormalmente grandes duas horas depois do período calculado pelos cientistas como sendo o de maior risco foram provavelmente poupadas de um tsunami.

Falando a jornalistas nas Nações Unidas, Jan Egeland, o coordenador de auxílio emergencial, afirmou que as agências da ONU na região não receberam notícias de tsunamis.

Antes do raiar do dia, Índia, Tailândia e Sri Lanka --países fortemente atingidos pelo tsunami de dezembro-- cancelaram o seu alerta de maremotos. No final da noite de segunda-feira, eles haviam pedido às suas populações que abandonassem as áreas baixas próximas à costa.

No início da terça-feira, não havia notícias de atividade anormal no oceano. O Comando Militar do Pacífico dos Estados Unidos, com sede no Havaí, relatou não ter recebido informes de danos provocados por tsunamis, segundo o porta-voz da instituição, tenente-coronel Bill Bigelow.

O terremoto da segunda-feira apontou mais uma vez para a ausência de um sistema de alerta rápido de tsunamis na Ásia. "Se houver um terremoto um pouco mais forte poderemos ter um grande tsunami no meio da noite", disse Egeland. "Precisamos desse sistema".

Tal sistema de alerta rápido existe no Pacífico, mas não ainda no Oceano Índico, que é muito sujeito a abalos sísmicos, fazendo com que seja impossível para os cientistas avaliar se e onde as evacuações serão implementadas.

Aqui na capital indiana, meteorologistas que trabalham em uma sala de controle de emergência disseram que só podiam pedir calma e cautela aos países banhados pelo Oceano Índico.

"Não dá para saber até que aconteça", explicou S.K. Swamy, meteorologista da sala de controle. "Não existe um sistema que nos possibilite prever tal catástrofe".

O Serviço Geológico dos Estados Unidos anunciou que o terremoto de segunda-feira ocorreu ao longo da mesma falha geológica que provocou o abalo sísmico de dezembro, cuja intensidade foi de 9,3 graus na escala Richter, o maior registrado em 40 anos.

Segundo Egeland, o terremoto de segunda-feira encontrou uma comunidade de ajuda humanitária mais bem preparada do que no desastre de dezembro, até porque já estão em andamento vários operações no local.

"Começamos na manhã de 27 de dezembro com praticamente nada, e isso realmente prejudicou os nossos primeiros esforços após o maremoto", disse ele aos repórteres.

"Mas começaremos amanhã de manhã com 1.000 trabalhadores internacionais especializados em ajuda humanitária, vários milhares de funcionários locais apenas em Sumatra, doze helicópteros, cerca de cem caminhões e várias embarcações de desembarque que podemos usar nas ilhas. Além disso temos relações de trabalho muito boas com o governo da Indonésia, tanto no nível local quanto no regional".

Funcionários da ONU devem começar a fazer observações aéreas na manhã de terça-feira para avaliar a magnitude dos danos. "A minha impressão é que desta vez o sistema funcionou de forma bem mais satisfatória", disse Egeland.

Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado, Adam Ereli, disse aos jornalistas que o departamento começou imediatamente a se comunicar com as suas embaixadas e a coordenar esforços com agências de ajuda humanitária na região.

"Estamos aplicando aquilo que aprendemos com o terremoto anterior, de forma que possamos estar preparados para responder rapidamente e de uma forma condizente", afirmou Ereli. "Alertamos os nossos postos, fizemos contato com todos eles, e nos colocamos em modo de batalha para ficarmos em uma posição que nos permita agir".

*Contribuíram Joel Brinkley e Eric Schmitt, de Washington; Jane Perlez e Andrew C. Revkin, de Nova York; e Warren Hoge, das Nações Unidas. Ainda não há um sistema de previsão de maremotos como tsunami Danilo Fonseca

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