UOL Notícias Internacional
 

30/03/2005

Comissão da ONU inocenta Annan de nepotismo

The New York Times
Warren Hoge

Na sede da ONU, em NY
A comissão que investiga o programa Petróleo por Alimentos no Iraque informou nesta terça-feira (29/03) que o secretário-geral Kofi Annan não influenciou a concessão de um contrato para a empresa que empregava seu filho. Mas ela o acusou de não ter investigado mais agressivamente o relacionamento da empresa com a ONU assim que dúvidas foram levantadas.

Ruby Washington/NYT

Secretário-geral da ONU reconhece falha na comunicação com o filho
A comissão também criticou dois dos principais assessores de Annan, Iqbal Riza e Dileep Nair, pela conduta deles.

Annan disse em uma coletiva de imprensa que considerou as conclusões a seu respeito como uma absolvição, que ele disse ter sido recebida com "grande alívio" após "tantas alegações falsas e estressantes". Ao ser questionado se as críticas no relatório às suas falhas administrativas significavam que ele deveria renunciar pelo bem da organização, ele respondeu bruscamente: "Raios, não".

Mas a comissão, liderada por Paul A. Volcker, em vez de vindicar explicitamente Annan, disse que baseou seus julgamentos na incapacidade de encontrar evidência suficiente para apoiar as acusações contra ele. Isto poderá deixar Annan aberto a críticas de Washington.

Apesar de os porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado terem oferecido seu apoio a ele e às suas promessas de promover as mudanças necessárias na ONU, o senador Norm Coleman, republicano de Minnesota, que pediu a renúncia de Annan, disse que não foi persuadido pelo novo relatório.

"Sua falta de liderança, combinada com conflitos de interesse e a falta de responsabilidade e responsabilização só apontam para um resultado: sua renúncia", disse ele.

O relatório foi divulgado no momento em que uma investigação interna da ONU encontrou uma série de abusos administrativos, incluindo uso indevido de fundos e tolerância a abusos sexuais, na agência que promove e monitora as eleições em todo o mundo.

Mark Malloch Brown, o novo chefe de gabinete, disse que o relatório da comissão de Volcker deve ser aceito como uma absolvição. "O sr. Volcker olhou sob cada pedra", ele disse aos repórteres. "Ele investiu US$ 3 milhões nisto e concluiu: 'Não há nenhuma história'."

No relatório, a comissão foi mais dura no julgamento do filho de Annan, Kojo Annan, 31 anos, e da empresa sediada em Genebra para a qual trabalhava, a Cotecna Inspection Services. Ele disse que ambos conspiraram para esconder a duração de seu relacionamento profissional e comercial e que Kojo Annan escondeu o fato de seu pai.

Além disso, o relatório disse que ele não cooperou com os investigadores da comissão de Volcker. Kofi Annan expressou pesar sobre as conclusões sobre seu filho, dizendo: "Eu amo meu filho, e sempre esperei a mais alta integridade por parte dele. Eu estou profundamente triste pelo surgimento de evidência do contrário, e particularmente pelo fato do meu filho ter fracassado em cooperar plenamente com a investigação. Eu pedi a ele que cooperasse, e pedi a ele que reconsiderasse sua posição e cooperasse".

O relatório é o segundo preliminar da comissão, que entregará seu veredicto final nos próximos meses. A comissão foi formada por Annan há um ano para investigar como Saddam Hussein conseguiu desviar bilhões de dólares do programa de US$ 65 bilhões e se havia corrupção além de má administração por parte das autoridades da ONU.

O primeiro relatório, de 3 de fevereiro, acusou Benon V. Sevan, o ex-chefe do programa, de um "grave conflito de interesse" que "minou seriamente a integridade da ONU".

A conclusão foi baseada em evidência de que Sevan desviou contratos para um amigo e em sua incapacidade de explicar onde obteve US$ 166 mil em dinheiro. Um segundo funcionário, Joseph Stephanides, foi acusado de violar regras de licitação.

O novo relatório

O novo relatório questionou a conduta de dois dos principais assessores de Annan: Riza, seu chefe de gabinete até sua aposentadoria em dezembro, e Nair, o chefe do grupo de fiscalização da ONU, o Escritório de Serviços de Supervisão Interna.

Riza foi criticado por ordenar a destruição de documentos pessoais do período inicial do programa Petróleo por Alimentos. Ele disse na segunda-feira que ordenou a seus assessores que fizessem isso três meses antes de Annan ter ordenado que todos os documentos sobre o programa fossem guardados. Mas o relatório notou que a destruição dos documentos ocorreu de fato após a ordem de Annan.

Nair foi acusado de nomear uma pessoa para um alto cargo com responsabilidades no programa Petróleo por Alimentos, mas que praticamente não trabalhou no programa.

Mas a peça central do relatório foi a concessão de um contrato de US$ 10 milhões por ano para inspeções de ajuda humanitária para a Cotecna, se o fato de Kojo Annan trabalhar para a empresa influenciou a escolha da Cotecna pela ONU, e se o secretário-geral tinha conhecimento de que um contrato crucial tinha sido concedido à empresa onde seu filho trabalhava.

Apesar de aceitar que Annan não tinha conhecimento da concessão do contrato à Cotecna, o relatório o acusou de não ter agido para coibir as suspeitas de conflito de interesse quando o jornal "Sunday Telegraph" de Londres levantou a questão em um artigo, em 1999.

Annan requisitou uma investigação interna que terminou desmerecendo o assunto em um único dia. "Nós achamos que ele deveria ter autorizado, em vez disso, uma investigação profissional, independente", disse Volcker.

Tal investigação teria encontrado dificuldades em recentes contratos da Cotecna, disse Volcker, o que provavelmente impediria a concessão do contrato.

Kojo Annan trabalhou para a Cotecna na África de 1995 até o final de 1998, quando ela obteve o contrato a ONU. Tanto ele quanto a empresa levaram a ONU e os investigadores a acreditarem que ele tinha encerrado sua associação com ela, mas revelações posteriores mostraram que ele continuou recebendo pagamentos até fevereiro de 2004. Eles foram descritos como reembolsos de atendimento de saúde e pagamentos para impedi-lo de ser contratado por um firma concorrente.

A comissão acusou a Cotecna e Kojo Annan de tentarem disfarçar a duração desta associação por meio de pagamentos terceirizados. O relatório concluiu que, apesar da Cotecna ter "cooperado em geral" com a investigação, ela fez "falas declarações" ao público, à ONU e à comissão sobre o período de serviço de Kojo Annan.

Em Genebra, Robert Massey, o executivo-chefe da empresa, emitiu uma "declaração preliminar" dizendo apenas que a comissão confirmou que a Cotecna conquistou seu contrato de forma honesta.

O relatório disse que ocorreram ocasiões em que pai e filho estiveram em contato durante o tempo em que Kojo Annan trabalhava para a Cotecna e o contrato foi concedido. Ele notou que no dia da concessão do contrato, o jovem Annan era convidado da residência oficial de seu pai em Nova York. Mas Volcker disse que Annan não participou das decisões de contrato e que não há indícios de que ele sabia que a Cotecna estava participando da licitação.

"Nossa investigação revelou vários momentos em que ele poderia tomar consciência da participação da Cotecna no processo de licitação", disse Volcker em uma coletiva de imprensa em um hotel no centro de Manhattan. "Mas não há nem testemunhas convincentes para isto nem evidência documentada."

"Levando tudo isto em consideração, o comitê concluiu que não há evidência suficiente para mostrar que o secretário-geral sabia da participação da Cotecna no processo de licitação em 1998", disse Volcker.

"A comissão concluiu que tanto os diretores da Cotecna quanto Kojo Annan buscaram esconder a continuidade de seu relacionamento financeiro e comercial, enganando o próprio secretário-geral, outras autoridades da ONU e o público no processo", disse Volcker.

"Foi o fracasso das autoridades da ONU em descobrir e o da Cotecna e de Kojo Annan em não revelar plenamente tais relacionamentos que contribuíram para o questionamento da integridade da administração da ONU, e para a necessidade deste relatório em particular."

Uma carta no apêndice do relatório, de autoria do advogado de Kojo Annan, William R. Taylor, admite que seu cliente não foi honesto com seu pai, mas rejeita a acusação de que ele não cooperou. "Ele lamenta o embaraço que a omissão causou a seu pai e à ONU, e aceita a responsabilidade por isto", diz a carta.

Sevan está preparando sua resposta às acusações da ONU feitas no primeiro relatório, e lhe foram concedidos dois adiamentos de três semanas para apresentá-la. O porta-voz de Annan, Fred Eckhard, disse na segunda-feira que o novo prazo seria por volta do próximo mês.

A ONU anulou na segunda-feira um acordo para pagar pelas despesas legais de Sevan para seus depoimentos perante a comissão de Volcker, após uma enxurrada de críticas quando isto veio à tona na semana passada. Segundo o acordo, Sevan ainda seria reembolsado por quaisquer custos legais. O secretário-geral era acusado de beneficiar seu filho em licitação George El Khouri Andolfato

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