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30/03/2005

Democratas precisam reinventar-se para vencer

The New York Times
Bill Bradley*

Especial para o NYTimes
Cinco meses depois da eleição presidencial, os democratas ainda estão apontando dedos uns para os outros e tentando entender por que os republicanos venceram.

O problema foi a posição do partido em questões sociais, impostos, defesa ou o quê? Será que foram cometidos erros táticos na condução da campanha? Será que os conselheiros certos foram ouvidos? O candidato era falho?

Antes de decidir o que os democratas devem fazer agora, é importante ver o que os republicanos fizeram certo ao longo de muitos anos. Quando os republicanos de Barry Goldwater perderam em 1964, eles não tentaram se transformar em democratas [Goldwater teve uma derrota acachapante para o democrata Lyndon Johnson nas eleições presidenciais daquele ano]. Eles tentaram determinar como tornar suas próprias idéias mais atraentes para os eleitores.

Como parte deste esforço, eles se voltaram para Lewis Powell, na época um advogado corporativo e que em breve se tornaria um membro da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Em 1971, ele escreveu um importante memorando para a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, no qual defendia uma amplo esforço coordenado, de longo prazo, para difundir as idéias conservadoras no campi universitários, em publicações acadêmicas e na imprensa.

Para promover as metas políticas e ideológicas do partido, os republicanos nos anos 70 e 80 formaram uma estrutura abrangente baseada no plano de Powell. Visualize tal estrutura como uma pirâmide.

Você provavelmente já ouviu parte disto antes, mas me permita repetir novamente. Grandes doadores individuais e grande fundações --as fundações da família Scaife e Olin, por exemplo-- formam a base da pirâmide. Eles financiam os centros de pesquisa conservadores como a Fundação Heritage, o Instituto Cato e outros, entidades que compõem o segundo nível da pirâmide.

As idéias que estas organizações desenvolvem então são levadas ao terceiro nível da pirâmide -o nível político. Lá, estrategistas como Karl Rove, Ralph Reed ou Ken Mehlman pegam estas novas idéias e, por meio de pesquisa, grupos focais e atenção cuidadosa aos ataques democratas, as convertem em uma linguagem que terá apelo junto a um eleitorado mais amplo.

Tal linguagem às vezes assume a forma de um ataque contra os democratas e às vezes a forma da defesa de uma nova posição política. O processo de desenvolvimento pode levar anos. E então há o quarto nível da pirâmide: a imprensa partidária. Comentaristas e redes conservadoras divulgam estas idéias amplamente trabalhadas.

No topo da pirâmide você encontrará o presidente. Como a pirâmide é estável, mesmo se você alterar o topo dela, ela funcionará bem.

Não é exatamente a "conspiração de direita" que Hillary Clinton descreveu, mas é uma organização impressionante, construída de forma consciente, cuidadosa e concentrada em uma única meta. As Ann Coulters e Grover Norquists não querem ser candidatos a nada ou assessores de alguém. Eles sabem quais são seus papéis e os executam porque são bem remunerados e acreditam --eu acho-- no que estão dizendo. É verdade, há muito dinheiro envolvido, mas o dinheiro faz diferença porque reforça uma estrutura que já é estável.

Para entender como o Partido Democrata funciona, inverta a pirâmide. Imagine uma pirâmide balançando precariamente em sua ponta, que é o candidato presidencial.

Os democratas que concorrem à presidência precisam construir suas próprias pirâmides sozinhos. Não há nenhuma estrutura maior, coerente, com a qual possam contar. Diferente dos republicanos, eles não precisam apenas montar um aparato de campanha --eles precisam formular idéias e uma visão. Muitos arrecadadores de fundos democratas se juntam à campanha apenas após avaliar quão bem ela se saiu na montagem de sua pirâmide de pessoal político, de mídia e idéias.

Não há uma base de fundos claramente identificável para as organizações políticas democratas, e na frenética pressa de campanha não há tempo para o desenvolvimento paciente, de longo prazo, de novas idéias ou novos meios de vender antigas idéias.

As campanhas só começam a pensar em uma marca democrata na metade do ano eleitoral, no momento em que vencer o ciclo das notícias diárias ganha precedência sobre a construção de uma mensagem consistente. O mais perto que os democratas chegam de uma marca é um slogan marcante.

Os democratas escolhemos esta abordagem, eu acredito, porque nós ainda estamos hipnotizados por John Kennedy, e a promessa de que um líder carismático pode mudar os Estados Unidos pela força e estilo de sua personalidade.

O problema é que de quatro em quatro anos o partido se divide e se agrupa em torno de vários indivíduos diferentes ao mesmo tempo. Os oponentes nas eleições primárias então exageram suas diferenças e deixam a opinião pública confusa sobre no que os democratas acreditam.

Em tal sistema a tática atrapalha a estratégia. Os candidatos não se arriscam a falar de grandes idéias porque as idéias não foram suficientemente testadas. Em vez disso, eles acabam discutindo questões menores e expressam poucas convicções profundas. No pior caso, eles adotam plataformas "republicanas light" --nunca percebendo que, ao fazer isso, eles estão permitindo que os republicanos definam os termos do debate.

Um partido baseado em carisma não tem impacto de longo prazo. Pense em nosso último líder carismático, Bill Clinton. Ele foi presidente por oito anos. Ele foi o primeiro democrata a ser reeleito desde Franklin Roosevelt. Ele foi esperto, habilidoso e possuía grande energia.

Mas o que aconteceu?

No final de seu mandato no cargo mais poderoso do mundo, havia menos governadores democratas, menos senadores democratas, membros do Congresso, legisladores estaduais, e o partido nacional estava enterrado em dívidas. O presidente se saiu bem. O partido não. Carisma não se traduziu em estrutura.

Se os democratas falam sério em se preparar para a próxima eleição e a eleição depois desta, alguns democratas influentes terão que resistir em confiar seus sonhos a candidatos individuais e em vez disso se comprometerem na construção de uma pirâmide estável, da base para o alto. Isto exigirá um compromisso de pelo menos uma década, e não será barato. Mas realmente não há outra escolha.

* Bill Bradley, ex-senador democrata pelo Estado de Nova Jersey, é o diretor administrativo da Allen & Company. O partido carece de estrutura e ramificações sociais mais sólidas George El Khouri Andolfato

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