UOL Notícias Internacional
 

30/03/2005

Negociação para novo governo fracassa no Iraque

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá
Uma reunião da assembléia nacional iraquiana se desfez devido a divisões étnicas e sectárias nesta terça-feira (29/03), após seus integrantes trocarem acusações furiosas a respeito do fracasso em se formar um governo. Alguns líderes disseram que o atraso poderia adiar em até um semestre a criação de uma constituição e as eleições.

O presidente temporário da assembléia, Sheik Dhari al-Fayadh, impediu que os repórteres tivessem acesso ao salão à medida que as discussões se tornavam mais acaloradas. Ele pediu a seguir que os membros se reagrupassem para uma terceira reunião na semana que vem, na esperança de que os principais integrantes estarão prontos para preencher alguns cargos de governo cruciais, nove semanas após as eleições gerais.

Membros proeminentes da assembléia disseram ter a impressão de que a entrega de um primeiro rascunho de uma constituição foi adiada por seis meses, em relação ao prazo original de 15 de agosto. O adiamento é permitido segundo a lei de transição, caso seja proposto pelo presidente iraquiano e se a assembléia aprovar a proposta em votação majoritária até 1º de agosto. As eleições para um governo de mandato integral no final do ano teriam também que ser adiadas.

"Falando de forma realista, acho que isso será muito difícil", afirmou Haichem al-Hassani, um líder político árabe sunita e principal candidato ao cargo de ministro da Defesa, referindo-se ao prazo de 15 de agosto. "Creio que é apenas um desejo difícil de ser realizado".

Ali al-Dabagh, um membro proeminente do principal bloco xiita, e que foi nomeado pelo grande aiatolá Ali al-Sistani, o mais poderoso clérigo xiita do Iraque, disse que "o tempo é muito curto".

Um adiamento prejudicaria qualquer plano dos Estados Unidos para uma retirada do Iraque. Na terça-feira, o presidente Bush tentou neutralizar as preocupações crescentes com a possibilidade de que um futuro democrático viável para o Iraque esteja em perigo.

"Esperamos que um novo governo seja escolhido rapidamente e que a assembléia vote para confirmá-lo", disse ele a repórteres reunidos no Jardim Rosado da Casa Branca. "Esperamos trabalhar com o governo que emergir desse processo".

A reunião da assembléia à tarde, que se transformou em uma batalha de berros, revelou como as difíceis negociações para a formação de um governo podem estar exacerbando conflitos dentro dos principais blocos políticos, que já estão divididos ao longo de linhas étnicas e sectárias.

Nos últimos dias, políticos locais disseram que a assembléia poderia escolher um presidente e dois vice-presidentes na reunião da terça-feira. Mas tais esperanças foram frustradas na segunda-feira, quando o principal candidato a presidente da assembléia, Sheik Ghazi al-Yawer, atualmente o presidente interino, recusou o cargo. Os principais partidos concordaram que um árabe sunita deve ocupar o posto e agora lutam entre si para decidir quem será nomeado.

Vestindo um esvoaçante robe negro, Shatha al-Mousawi, uma integrante do principal bloco xiita, a Aliança Iraquiana Unida, ficou de pé durante a reunião e indagou furiosamente aos líderes temporários da assembléia por que ninguém era capaz de se decidir por um candidato --essencialmente acusando os árabes sunitas de serem responsáveis pelo atraso.

"Exijo que sejam revelados todos os detalhes à população e a todos os membros da assembléia a fim de que o povo saiba quem está obstruindo o processo democrático e político", disse ela. "Se vocês não fizerem tal coisa, estarão beneficiando os inimigos do povo iraquiano".

Um velho clérigo xiita, Hussein al-Sadr, pegou o microfone poucos minutos depois e pediu que a assembléia começasse a instalar um governo na quarta-feira.

"Os iraquianos nas ruas estão aguardando uma realização, esperando que o trabalho seja feito, e que resposta temos para eles?", disse al-Sadr, membro da Lista Iraquiana, o bloco formado por Ayad Allawi, primeiro-ministro interino. "Que resposta temos para os cidadãos que arriscaram as vidas e votaram em 30 de janeiro?".

À medida que o volume da gritaria aumentava e mais acusações eram trocadas, quatro membros proeminentes deixaram o plenário: Allawi; o ministro da Defesa, Hazen al-Shalaan, seu amigo; Yawer, e a ministra dos Serviços Públicos, Nasreen Berwari, que é mulher de Yawer.

Por toda a cidade a população reclamava, dizendo ser urgente que os políticos deixem de brigar e se unam.

"O único perdedor com tudo isso é o povo iraquiano", lamentou Maithem Ali, 30, funcionário de uma loja de telefones celulares no centro da bairro de Karada. "A situação está piorando, e eles ficam apenas lá discutindo".

A assembléia de 275 membros está encarregada de instalar um governo e de escrever uma constituição permanente. O principal bloco xiita, que possui 140 cadeiras, e o mais importante bloco curdo, com 75 cadeiras, estão envolvidos em intensas negociações para formarem uma coalizão, já que são necessários dois terços dos votos para a aprovação do governo.

Os dois lados têm conflitado com relação a uma série de questões, incluindo o controle sobre a cidade de Kirkuk, produtora de petróleo, e o papel do islã no novo governo. Na última semana autoridades dos dois grupos disseram que os conflitos em torno de vários postos ministeriais importantes, incluindo o de ministro do Petróleo, e conversações com Allawi e líderes árabes sunitas têm atrasado o processo.

Em Kirkuk, a explosão de uma bomba em uma estrada feriu 16 pessoas na terça-feira, segundo autoridades policiais. O ataque ocorreu quando o conselho provincial de 41 membros se reunia para tentar nomear um governo para a província. Mas os 15 membros não curdos, que são árabes ou turcos, se rebelaram, acusando o resto do conselho de tentar assumir o controle sobre a cidade, segundo um jornalista da Agence France-Presse que estava no plenário.

Em Bagdá, por volta de 13h15, pouco antes do início da reunião da assembléia nacional, duas peças de morteiro caíram na altamente fortificada Zona Verde, onde ocorria a sessão. Não houve relatos de baixas. Helicópteros de ataque Apache sobrevoaram a Zona Verde o dia todo, e tropas norte-americanas e a polícia iraquiana fecharam a maior parte das principais pontes sobre o rio Tigre.

*Colaborou Zaineb Obeid. Rixas étnicas e religiosas travam discussões no congresso do país Danilo Fonseca

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